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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Pastor Alemão – Parte II ou Non Habemus Papam


Roma, 11 de fevereiro de 2011. Papa Bento XVI dirigindo-se aos cardeais participantes do Consistório:

"Sendo muito consciente da seriedade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao Ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado por meio dos Cardeais em 19 de abril de 2005, de modo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por meio de quem tem competências, o Conclave para a eleição do novo sumo pontífice." 

Introdução

Antes de qualquer coisa é necessário se fazer dois esclarecimentos. Primeiro gostaria de dizer que o título é uma continuação do que escrevi quando da eleição do Cardeal Ratzinger, tornando-se  Bento XVI, em 2005. Não há nenhuma intenção de ser despeitoso ou fazer qualquer insinuação. Pastor alemão, antes de ser o Pastor Universal, era isso que ele era, e o que vai voltar a ser.
Papa Bento XVI
Em 2005, fiz um desafio pela internet para algumas pessoas, e perguntei quem arriscava um palpite sobre quem seria o novo papa. Ganhei a aposta porque apostei no óbvio. Lembro-me dos palpites de Públio Caio Bessa Cyrino, José Ribamar Bessa Freire e Thomaz Nogueira. No texto “O Pastor Alemão” (se alguém o tiver guardado, por gentileza me envie, pois a mídia em que se encontra não quer abrir) escrevi que houveram casos na escolha do Papa que já se previa quem seria o escolhido. Conhecem o ditado que diz: quem entra papa no conclave, sai cardeal ? A imprensa usou muito esse ditado na eleição de João Paulo II, se referido ao cardeal italiano Baggio. Mas nem sempre é assim. Há votação que o resultado é o esperado. No momento me lembro de ter citado as escolhas de Bento XV, João XXIII (não tenho certeza), Paulo VI (com certeza) e Bento XVI.  

Update

Hoje, 13 de fevereiro de 2017, quando reviso esse texto, posso dizer que a eleição do cardeal Mario Jorge Bergoglio, o Papa Francisco I e único, não foi muito diferente. A revista online National Catholic Report, nos dias que antecederam o conclave, já o apontava como um dos favoritos. Li o depoimento de um cardeal, arcebispo emérito de Washington, DC, que dizia que havia chegado a hora da América Latina, onde a população católica era a maioria.

Boff não tem culpa

O segundo esclarecimento é que Leonardo Boff não tem nada a ver com a renúncia.

        "O teólogo Leonardo Boff afirmou nesta segunda-feira que o papa Bento XVI 'foi digno' ao anunciar que vai deixar o comando da Igreja Católica em 28 de fevereiro. 'A renuncia do papa é um ato de razoabilidade. Humildemente deu-se conta dos limites da natureza que o impediam de exercer sua função', disse em seu perfil no Twitter.
           'Recebo com naturalidade essa notícia. Essa decisão segue sua natureza objetiva. Não é praxe um papa renunciar. Ele desmistificou a figura do papa, que geralmente ficam [no cargo] até morrer. Provavelmente por entender o papado como um serviço. Essa atitude merece toda admiração e respeito. Esperamos, agora, que até a Páscoa, em meados de março, elejam um novo papa. De preferência um papa mais aberto. Até porque 52% dos católicos vivem no terceiro mundo e não mais na Europa”, completou.

O Vice-Papa

O cardeal Ratzinger foi de fato - pois de direito, nem humano, nem romano, não existe tal figura -  o Vice-Papa por 24 anos. Assumindo essa função em 1981, quando chegou no Vaticano até a sua posse como Bento XVI. 
Não confundir com a figura do Secretário de Estado, que é um cargo mais burocrata, administrativo, e não religioso. Portanto, ele sabe como as coisas funcionam, ou como funcionariam se ele não tivesse mais forças físicas e/ou mentais para trabalhar. Ficaria como mera figura decorativa, mas outros estariam dirigindo a Igreja: a Cúria Romana.
João Paulo II foi até o final, porque, possivelmente, como nós, acreditava que isso é um desígnio de Deus. Ou seja, quando não mais estivesse apto para o cargo, Deus o levaria. Ninguém esta dizendo aqui que ele estivesse errado. Somando-se a isso, ele sabia como agiria o seu “vice” caso  não tivesse mais condições. Bento XVI, talvez, não espere que isso aco nteça. Talvez não tenha um vice em que possa esperar a morte despreocupado. Talvez tenha recebido um diagnóstico que está com Mal de Alzheimer, e em breve sua mente pode se degenerar. Seja como for, sejam quantos talvez forem, foi um ato lúcido e extremamente corajoso. Como disse Leonardo Boff, foi um ato digno.
E foi aberto um precedente, por isso, possivelmente, não iremos esperar mais 600 anos para vermos isso de novo. 
Os bispos têm de renunciar aos 75 anos de idade, por razões físicas, mentais, etc. Os cardeais com 80 anos não votam nem podem ser votados no Conclave (= com chaves = trancados). E por que o Papa não pode renunciar quando se sentir cansado? 
Esse argumento já foi usado por D. Paulo Cardeal Arns quando João Paulo II estava na reta final. Ele sabia que quando um Papa está debilitado, a Igreja é administrada pela Cúria Romana. Na época achei um absurdo, uma falta de respeito, desumano, até mesmo falta de fé? Quem não acharia  até segunda-feira desta semana ? Todo mundo achava. O que se pensava era: como convivermos com dois Papas? Mas convenhamos a Igreja Católica teve 264 papas antes de Bento XVI, será que todos morreram lúcidos e fisicamente aptos para o exercício do cargo até o dia final ?
Se for para mudarem as regras, caberia a um papa dar o exemplo, um ato espontâneo. Está aí um legado que Bento XVI vai deixar. O Papa poderia mudar regras de sucessão para os futuros papas, como por exemplo: O Papa deve renunciar aos 85, como é exigida dos bispos a renúncia aos 75 anos. E se o sujeito estiver lúcido aos 85 ? Tem muito bispo lúcido aos 75. [editado em 2017: o Papa Francisco foi eleito com 77 anos].  O processo deve ser lento, mas o precedente está posto. E o exemplo deveria vir do próprio Papa, e veio. Fixar uma idade limite é muito complicado, visto que aos 75, 78,79 anos, antes ou depois -  isso depende da natureza de  cada uma - o Papa poderá  está ou não lúcido.
Devagar com andor que o santo é de barro. Para que ao primeiro sinal de saúde debilitada, não apareçam um coros de cardeais, bispos, leigos, jornalistas, etc. gritando: renuncia, renuncia.

O Anúncio

A notícia da renúncia pegou a todos de surpresa. Eu acreditava que o Santo Padre tinha informado os cardeais antes de fazer o anúncio público. Mas eles também foram pegos de surpresa. O Cardeal Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, que trabalha junto ao Papa, e que estava presente no momento do anúncio da renúncia, comentou: “Eu inclusive consultei o cardeal que estava ao meu lado e disse: 'O Papa está dizendo que ele está renunciando'? Porque não me parecia verdade. De fato, depois vimos que já estava confirmado e era isso mesmo que ele estava dizendo. Foi uma surpresa para todos nós porque esta atitude da renúncia não é uma atitude muito comum na Igreja.”                                                                                         O Consistório, segundo 
D. Braz de Aviz, foi todo em latim. Será que Bento XVI ao fazer todo o Consistório em latim quis mandar um recado aos bispos e cardeais? Seria algo como: ‘Quem não segue a tradição não chega até aqui.’
Segundo o Cardeal Braz de Aviz, o ato do Papa foi de  "extrema humildade e amor à Igreja". Para o Cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e ex-colaborador de Bento XVI como Prefeito da Congregação do Clero, “Foi uma grande surpresa, mas ele mesmo já havia assinalado para isso numa entrevista que deu a um jornalista alemão...” Mas "não é nenhuma anormalidade" e que está "dentro das normas da Igreja"

O Susto

Depois dos Cardeais, a primeira pessoa a entender a mensagem foi Giovanna Chirri, jornalista que cobre o Vaticano para a agência italiana de notícias ANSA. Foi também a primeira pessoa a dar a notícia ao mundo. Ela escreveu: "Eu dei a notícia, então eu comecei a chorar". Ela entendeu imediatamente o que estava acontecendo quando o Papa Bento XVI começou seu discurso de despedida sussurrando em latim. Ela disse: "Meu cérebro entrou em curto-circuito: Eu pensei que era um absurdo. Eu sabia, como todo mundo, o que ele havia escrito em seu livro. Mas estava convencido de que ele nunca renunciaria"
No seu livro "Luz do Mundo" o Papa fala de uma eventual renúncia, e diz que não se pode renunciar num momento de crise, mas somente num momento de serenidade, ou simplesmente quando "você não aguenta mais." Parece que esse momento chegou para ele. "Dignus erat." 
Giovanna Chirri cobre o Vaticano desde 1994. Ela conseguiu dar a notícia mesmo sob pressão emocional. "Como pessoa, eu fiquei muito, muito sentida. Admiro Ratzinger. Eu o respeito". disse ela."Eu sabia da importância da notícia: Eu tentei entrar em contato com a agência, para me certificar da informação, mesmo que eu não duvidasse do meu latim, então eles tiveram cuidado ao divulgar a notícia. Foi assim que eu comuniquei a informação."

O João Paulo II também se assustou.

Meus prezados e-leitores, esse simples mortal que vos escreve, também ficou profundamente chocado com a notícia. O que veio a minha cabeça foram as palavras do  Cardeal Karol Wojtyla ao tomar conhecimento da morte de João Paulo I, trinta e três dias após sua eleição como Papa: "Por que meu Deus ?"  
Numa dessas coincidências da vida, na noite anterior ao anúncio da renúncia, li o texto abaixo no livro "A Life with Karol - My Forty-Year Friendship with the Man Who Became Pope, escrito pelo seu fiel escudeiro e ex-secretário particular, hoje Arcebispo da Cracóvia, Polônia, Stanislaw Cardeal Dziwisz.        
Ao receber a notícia da morte de João Paulo I, "O arcebispo [Cardeal Karol Wojtyla] ficou petrificado, mas apenas por um segundo. Ele interrompeu o café da manhã e retirou-se para o seu apartamento. Ele queria ficar sozinho naquele momento triste. Ele não disse nada, nós apenas o ouvimos sussurando. 'Isso é inacreditável... inacreditável.' Do outro lado do salão, nós o vimos indo para a capela. E ele ficou lá por um longo tempo, orando. 
Orando. E talvez se perguntando, perguntando a Deus, por que isso tinha acontecido. Ele fez a mesma pergunta no funeral na Basílica Mariacka, onde abriu seu coração e disse: "O mundo inteiro, toda a Igreja, pergunta, Por quê ? ... Nós não sabemos o que essa morte significa  para a Sé de Pedro. Nós não sabemos o que  Cristo está a tentando dizer à Igreja e ao mundo através deste evento. "
Logo depois ele e todos nós ficamos sabendo. Sem a morte prematura do Papa João Paulo I, possivelmente, jamais o Conclave teria escolhido um cardeal com apenas 58 anos.
Então, confiantes em Deus Pai, vamos esperar para entender o que essa renúncia significará para Igreja Católica. 
O Santo Padre escolheu  fazer o anúncio de sua renúncia dois dias antes da quarta-feira de Cinzas, ciente de que é nesse período que a Igreja mais reza, jejua e reflete.  Hoje, primeiro dia da Quaresma, aproveitemos esse período para rezar e refletir a Paixão de Cristo, e pedir pelo futuro da Igreja. Que o Divino Espírito Santo ilumine os cardeais na escolha do nosso novo pastor.
Uma boa e santa Quaresma a todos e todas.

Cláudio Nogueira   

                                                                                                                                                            

PS1.  São 117 cardeais eleitores, com a média de idade de 72 anos. O Conclave - e a sua preparação - será presidido pelo Cardeal-bispo Angelo Sodano, de 85 anos, decano dos cardeais e ex-Secretário de Estado até 2006. Quem espera um papa "moderninho" vai se decepcionar. Pode até ser "progressista"em questões sociais, mas quando se trata de aborto, casamento de pessoas do mesmo sexo, ordenação de mulheres, fim do celibato, questões doutrinárias, não haverá mudanças. Mas isso é assunto para um outro post.

PS2. A Renúncia de João Paulo II ( clique para abrir o texto).


domingo, 20 de janeiro de 2013

Bodas de Caná: O Poder de Maria


O evangelho de hoje domingo 20 de janeiro de 2013 é sobre as Bodas de Caná. O texto abaixo foi escrito em 17.01.2010 para o evangelho daquele dia.

Bodas de Caná
João (Jo 2, 1-11)
Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galiléia. A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho". Jesus respondeu-lhe: "Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou". Sua mãe disse aos que estavam servindo: "Fazei o que ele vos disser".
Estavam seis talhas de pedra colocadas ai para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: "Enchei as talhas de água". Encheram-nas até a boca. Jesus disse: "Agora tirai e levai ao mestre-sala". E eles levaram. O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!"
Este foi o inicio dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele. Palavra da Salvação!
Vou abordar o texto acima e outras coisas periféricas; portanto, peço um pouco de paciência, e me permitam certas divagações.
Vamos começar por essa frase: "Mulher, por que dizes isto a mim ? Minha hora ainda não chegou".Essas expressões “mulher” dirigida a Maria e “homem”,“Filho do Homem”, sempre me intrigaram.
Aqui há um problema de tradução. Uma língua reflete, sobretudo, a cultura, o pensamento, as idéias de um povo. Lembro-me de um panfleto da Universidade de Duke que dizia que o nível de inglês dos candidatos estrangeiros era analisado com cuidado, e com certa benevolência, pois uma língua expressa muitas vezes um sentimento coletivo, abstrato e tácito. E quem veio de fora é desprovido desse sentimento, que é obtido e percebido somente, quando se passa a conviver com aquela comunidade, realidade.
Assim, lemos nos Evangelhos, que Cristo é chamado, o Filho do Homem, isto é, Filho do Senhor. Quando Cristo diz: Mulher, na realidade ele diz Senhora.

"Mulher" ! Aparentemente soa como um vocativo desrespeitoso, mas não o é. Em Mateus 15:28, lemos que, quando uma cananeia insistiu tanto para que Jesus curasse a sua filha, Ele exclamou: Ó mulher, grande é a tua fé!.” 

Nesse domingo [17.01.2010], na igreja de N.S. Aparecida, ao ler o Evangelho, o padre Domingos 'Dunga' McCarthy, CSsR, não leu “mulher”, mas disse “mãe”. Corretíssimo ! 
O que ocorreu nas bodas de Caná foi mais ou menos assim:
3Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho". Maria sentiu que os noivos iriam passar vexame pela falta do vinho, e se antecipou. Jesus surpreso, aproximou-se dela, curvou a cabeça, quase encostando a sua na dela, falando-lhe ao pé do ouvido, sussurrou: “Mãe, o que é que a senhora está dizendo !?” E baixando ainda mais a voz, completou: “A minha hora ainda não chegou.” 
Fico pensando se essa situação não foi toda planejada por Deus Pai, que no momento exato mandou o Espírito Santo soprar no ouvido de Maria: "Diga a Ele o que você está pensando". Ou o Espírito Santo não soprou nada, foi ela de moto próprio, antecipando a situação constrangedora, intercedeu pelos noivos. 
Seja como for, foi para deixar bem claro para o resto da humanidade o poder de intercessão, o prestígio de Maria. Quando inspirada pelo Espírito Santo, ela profetizou sobre si mesma: “Todas as gerações me chamaram Bem-Aventurada. Ela sabia o que estava dizendo. 
Observe que ela se  não se abalou com a resposta de Jesus e nem disse:  “אנא, הבן שלי, meu Filho, por favor. Os noivos vão passar por um constrangimento.” Ela não lhe perguntou: "Sim ou não? Podes fazer isso?" Ela simplesmente disse: "Fazei o que ele vos disser".  Porque sabia que seria atendida. 
Meus prezados, nós que somos imperfeitos, muitas vezes atendemos os pedidos de nossas mães, que para outros já havíamos negados; era impossível o Filho perfeito, não atender o pedido da mãe perfeita. “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está nos céus dará o Espírito Santo a quem o pedir!" (Lucas 11,13).  
Como não atender esse pedido? Logo Ele que é 100% ela, caso único na humanidade: o DNA dele é exatamente igual ao DNA dela. Maria tem a mesma consistência biológica de Deus Filho, ou Deus Filho é humanamente 100% igual a Virgem Maria.

Tal mãe tal filho - abrindo um parêntese.

Vamos devagar com o andor que o santo é de barro. Isso é meio complicado. Vespeiro puro. Por conta de questões deste tipo foi que as Igrejas Cristãs do Oriente e do Ocidente cismaram. Dividindo-as em Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Orthodoxa Oriental, cuja figura principal era o patriarca de Constantinopla, hoje Istambul. 
A igreja de Roma foi fundada por São Paulo e São Pedro, ou Cefas, ou seja pedra. As colunas do cristianismo, por isso o Papa, ou bispo de Roma, era (é) o primus inter pares, primeiro entre iguais. E a igreja de Constantinopla, hoje Istambul, foi fundada por seu irmão, o apóstolo santo André.
Os ocidentais diziam que Cristo era humano e Deus em uma só pessoa, consubstancial ao Pai. Os orientais diziam que Cristo, não era um, era dois. Duas naturezas distintas: divina e humana vivendo no mesmo corpo. 
Agora pergunto ao e-leitor. Será que isso é importante para a nossa salvação? Ou amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo faz mais efeito ? 
Em tempo:no papado de Bento XVI, as duas igrejas fizeram um declaração conjunta reconhecendo que isso não é o mais importante. Mas essa aproximação começou em 1966, com Paulo VI. 

O Primeiro Milagre

Fechado esse parêntese,  vamos refletir mais sobre o local e a situação das bodas de Caná. Esses reforçam o prestígio que Maria tem com Deus Filho. 
O primeiro milagre ocorreu antes do tempo, e não foi em uma situação de calamidade ou urgência, para salvar uma vida ou vidas, perdoar pecados, ou realizar uma cura, um cego, um aleijado ou um leproso. Não foi um pedido desesperado: “Por favor, por favor, meu filho, eu sei que não é o momento adequado, mas, por favor, a situação exige.” 
Se essa passagem não existisse no Evangelho, jamais alguém poderia conceber a sua ocorrência, e se por ventura alguém a imaginasse, seria fantasia pura. 
Há uma passagem, em um dos Evangelhos apócrifos (como o de São Tomé)  em que Jesus Menino transforma uma pedra em uma pombinha. Ninguém acreditou nisso. O primeiro milagre ocorreu – pelo amor que Maria tem pelos seus filhos - fora de época, numa festa e, pasmem, para  produzir vinho. Uau !!! Isso é impensável. É muito prestígio. Cada elemento desse acontecimento, repito, foi planejado por Deus Pai para demonstrar o poder de intercessão de sua Filha Predileta. Se ela não fosse mais mencionada pelo resto dos Evangelhos, a função de intercessora já haveria sido comprovada. 
Estavam seis talhas de pedra colocadas ai para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: ‘Enchei as talhas de água’. Encheram-nas até a boca.” 
O pedido foi atendido, e o foi de forma abundante. Não foram alguns poucos litros de vinhos, foram 600 litros do melhor vinho que o ser humano jamais provou igual. Ela quando pede, o Filho atende, e o faz em abundância. Nem era necessário tudo isso. 
Em certa ocasião estava cortando o cabelo no Antônio Barbeiro, na rua Alexandre Amorim, na Aparecida, perto de casa, e ele ouvindo a rádio da igreja Universal. O pastor se contorcia todo e dava milhões de voltas para explicar o inexplicável, e dizia: “ O vinho não tinha álcool.”  Então era suco de uva !? Será que ele apagou esse versículo da Bíblia dele ? 
“Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom.” Quem tiver dúvidas sobre isso consulte uma Bíblia em grego, como eu fiz.
O texto mostra que Maria está sempre atenta as nossas necessidades, na alegria e na tristeza, basta que a convidemos a participar da nossa vida. Na realidade, até quem não pede ajuda dela, ela está intercedendo. Ela é mãe de todos, dos que querem e dos que não querem ser filhos dela. E é João Evangelista (19, 26-27) que nos representa a todos, quando ao pé da cruz Jesus lhe diz: “Mulher eis aí o teu filho, filho eis aí a tua mãe.”
"As palavras de Jesus na cruz, na realidade, revelam que o Seu primeiro intento não é o de confiar a Mãe a João, mas de entregar o discípulo a Maria, atribuindo-lhe uma nova missão materna. O termo "mulher", além disso, usado por Jesus também nas bodas de Caná para conduzir Maria a uma nova dimensão do seu ser Mãe, mostra que as palavras do Salvador não são frutos de um simples sentimento de afeto filial, mas têm em vista pôr-se num plano mais elevado.” (site da Canção Nova)
As bodas de Caná é  um sinal simples e altamente significativo do poder de intercessão de Maria. Ela praticamente revela o seu Filho ao mundo, antes que ele mesmo o fizesse ou quizesse. 
Às vezes fico pensando como há irmãos evangélicos que pregam contra Maria. Dois irmãos, amigos nossos, outro dia alugaram os meus ouvidos para tentar me convencerem da desimportância de Maria. 
Será que eles acreditam realmente que um dia vão se encontrar com Cristo e Ele vai dizer: “Servo bom e fiel, condenaste aqueles que veneravam e amavam a minha mãe, acusando-os de idolatria, não podias ouvir falar que ela era virgem ou intercessora que procuravas provar por  a + b que isso não é verdade; como recompensa vem e senta-te a minha direita.” 
E outros que acreditam que Jesus é Deus, que Maria é mãe dele, mas não aceitam afirmação de que Maria é mãe de Deus. Isso é demais para as cabeças deles. Mas esquecem que foi o próprio Deus, quem a colocou nessa situação. E que não há explicação para tudo. É esse o significado de fé, acreditar no que nem sempre pode ser explicado. Eles explicam, por acaso, como Deus é uno e trino ao mesmo tempo? Afirmam que Maria teve outros filhos. Então, possivelmente, por se dedicar única e exclusivamente ao seu primogênito, e não ter dado atenção aos demais, foi por eles abandonada, não tendo com quem ficar depois da morte de Jesus. Por isso é que Ele a entregou a São João, o discípulo que Ele amava. 
Fico pensando de onde vem que algumas religiões cristãs reneguem o papel importante e intercessor de Maria. Martin Lutero, Calvino, os reformistas, faziam poesias para Virgem Maria. As suas contestações eram de outra natureza; nenhumas delas se contrapunham a veneração a Maria. Possivelmente, foi algum pastor, para que a sua “igreja” se diferenciasse da Igreja Católica, quem inventou isso. Justamente, como hoje a igreja universal do reino do dinheiro, inventa atividades mercadológicas para diferenciá-la e atrair fiéis de outras religiões. Mas felizmente, nem todos os pastores evangélicos são assim. Sou amigo de alguns. Já fui convidado para cultos comemorativos nas igrejas deles, e fui de bom grado, inclusive levei meus filhos. E tenho vários amigos evangélicos que nos damos muito bem, principalmente quando o assunto é religião. Há um pastor, baseado em Atlanta, chamado Charles Stanley, cujas pregações podem ser ouvidas na internet, que sempre que assunto é Maria, ele lhe diz palavras elogiosas e destaca a sua importância e seu papel na nossa salvação.
Acredito que Maria prefere ser renegada a ver seus filhos brigando por causa dela. Se sua negação é necessária para que ver seus filhos em torno do seu Filho, ela aceita.
Nós temos posturas diferentes em relação a ela, mas ela tem postura única em relação a todos nós.
Um amigo evangélico me disse que na primeira carta de são Paulo a Timóteo (1:5) está escrito: " Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo."  Como explicar isso? É muito simples. São Tomé que caminhou com Cristo, presenciou inúmeros milagres, não acreditou que Ele tinha poder para ressuscitar a si mesmo; como é que são Paulo vai dizer para uma comunidade: " Quando pedirem ao Pai, podem pedir, também, pela intercessão de Maria que é de carne e osso, e está bem ali." Como é que o povo ia acreditar nisso, se nem ele acreditava. 
São Paulo esteve em Jerusalém para se encontrar com Pedro, mas isso foi muito tempo depois da morte de Cristo. Será que um dia ele se encontrou com Maria ? Será que foi ele mesmo quem escreveu essa carta? Ou foi escrita por alguém que nunca ouviu falar de Maria? Ela se encontra no rol das chamadas epístolas deuteropaulinas. Ou seja, são cartas que os estudiosos do assunto acreditam que foram escritas por discípulos do apóstolo. São elas: A segunda aos Tessalonicenses, aos Colossenses, aos Efésios, a primeira e a segunda a Timóteo e a Tito. Nelas são refletidas situações e problemáticas diferentes das outras cartas paulinas.
Meus irmãos e irmãs, eu perdi a conta do números de vezes que meus pais, e eu mesmo, recorremos a intercessão de Nossa Senhora e fomos atendidos nos nossos pedidos. Então, como não acreditar ? 
Que nesse dia, pela intercessão da Bem Aventurada sempre Virgem Maria, possamos receber todas as bençãos, proteção e graças, para nós e nossas famílias, de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Tenham todos uma boa semana.

Cláudio Nogueira

“ A fé de Maria excedeu a de todos os homens e a de todos os anjos. Em Belém, viu seu filho no estábulo e  acreditou n’Ele como Criador do mundo. Viu-o fugir de Herodes e nunca a sua fé hesitou em ver n’Ele o Rei dos reis. Viu-o nascer e acreditou que era o Eterno. Viu-o pobre, de tudo desprovido e acreditou n’Ele como Senhor do Universo. Viu-o reclinado na palha e o adoro-o como Onipotente, viu-o sem pronunciar palavra e acreditou que Ele era a sabedoria eterna. Ouviu-o chorar e reconheceu-o como a alegria do Paraíso. Viu-o, por fim, morrendo, exposto a todos os insultos, pregado na cruz e, embora a fé de todos vacilasse, Maria perseverou na crença inviolável de que Ele era Deus.”

( Santo Afonso Maria de Ligório)


Martinho Lutero sobre Nossa Senhora:
[Sie ist die] höchste Frau und das edelste Kleinod im Christentum nach Christus ... Sie ist Adel, Weisheit und Heiligkeit in Person. Wir können niemals ehren genug.
(Martin Luther, Weihnachten Sermon, 1531)
[Ela é] mulher mais importante e a jóia mais nobre do Cristianismo depois de Cristo ... Ela é a nobreza, a sabedoria e a santidade personificadas. Nós nunca conseguiremos honrá-la o suficiente..
(Martinho Lutero, Sermão de Natal de 1531)
PS1. Padre Domingos ou Dunga, na realidade, John Mc Carthy, santo redentorista ainda não canonizado: O Anjo Dunga ou Americans are gone II http://nogueiraclaudio.blogspot.ca/2011/02/o-anjo-dunga.html 
PS2. O Cisma de 1054 é o mais conhecido e o maior, mas já no século IV, a igreja do Egito, a Copta, fundada por São Marcos, discípulo de São Pedro já havia se separado.
PS3. Que Nossa Senhora interceda pela alma do Jair Farias, o Alemão, que hoje [17.01.2010] faria 36 anos, como intercedeu pelos noivos de Caná, e que ele receba  graças em abundância..

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

E agora Arthur ?


Ottawa – 28.10.2012
 Apurado os votos, Arthur venceu. Derrotou Lula, Eduardo e Vanessa. E agora Arthur ? Como se diz por essas bandas: What’s next, Mr. Arthur ?

  Tem muita gente tirando conclusão precipitada, ou misturando realidade com desejo. É verdade que em Manaus Lula foi derrotado, tanto quanto os senadores Eduardo Braga e Vanessa  Grazziotin. Foi para o Arthur uma revanche e tanto. Não foi mais uma simples-eleição-e-a-vida-continua, como declarou a senadora ( “Vanessa após a derrota afirmou que: A derrota não faz parte da minha vida”), em http://acritica.uol.com.br/manaus/Manaus-Amazonas-Amazonia-derrota-vida-Vanessa-resultado-urnas-eleicoes_2012_0_800319997.html).
Foi sim uma derrota, mais de caráter pessoal, do que político. Politicamente, está muito cedo para se cantar vitória (eu, no lugar do novo prefeito, não desperdiçaria a oportunidade) e se prever o fim de um grupo político. Foi um abalo, perda de terreno, diria. Vale lembrar ao e-leitor, que Lula, como se dizia do MDB na década de 70, conseguiu eleger um poste em São Paulo (“Haddad: Eu sou o segundo poste do Lula”,
em http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-10-29/haddad-eu-sou-o-segundo-poste-do-lula.html). Poste, para quem não se lembra, significava o MDB, nos anos 70, no auge da ditadura, conseguir eleger qualquer um que fosse do partido. Não tinha nada a ver com a competência ou a falta dela por parte do candidato. Foi sim, uma vitória importante do PT e de Lula na capital paulista. Politicamente, a vitória lá, apaga um pouco a vitória aqui  (ou melhor aí).
O senador Eduardo Braga não deixa de ter certa razão quando afirma: "O que adianta o PSDB fazer o prefeito de Manaus e o (José) Serra perder São Paulo? Compare a Prefeitura de São Paulo com a de Manaus...   Tentar extrapolar e dar a isso uma importância nacional é dar ao Artur e ao PSDB do Amazonas uma força que eles não têm". That’s right ! Vejo nessa frase um pouco de dor de cotovelo.
Só tem um pequeno detalhe senador, foi o ex-presidente, ultrapopular, que deu um sabor diferente a vitória do Arthur Neto. Poderia ter vindo (ido) a Manaus, e ter feito campanha para Vanessa, sem citar diretamente o nome do ex-senador; seu pronunciamento, contudo, querendo Braga ou não, dá um outro contexto a vitória de Virgílio Neto. Este poderá garbosamente colocar essa eleição no seu curriculum; e Lula-JK, desnecessariamente, elevou-o ao status de seu Carlos Lacerda.
Desta forma a vitória de Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto em Manaus, foi uma vitória para lavar a alma dele e de todos aqueles que lhe apoiaram, mas o day after vem aí. Muda tudo e continua tudo com antes. 
E nada garante ou, até o momento, impede que Eduardo Braga seja o próximo governador. Por que o Lula e a Dilma vão apoiá-lo? Nada disso. Eles apoiaram o Alfredo Nascimento, e este perdeu. Tem algumas variáveis que precisam ser analisadas, ou até mesmo removidas (por aqueles  que não desejam que Eduardo volte). O que é uma missão hercúlea, posto que a próxima eleição para governador, está marcada por um certo determinismo. O que é exatamente isso ? Vou explicar mais adiante.
Não é o Planalto que pode eleger Eduardo, “o cara” chama-se Omar Aziz. Esse sim é o coronel eleitoral mais importante da próxima eleição. E com o resultado da atual, ele se tornou de fato, o político mais importante do Estado. Ele talvez se torne o grande interlocutor de Dilma e Lula com o Amazonas. E pelo que li daqui, não me pareceu que ele tenha assumido tanto rancontagonismo contra Arthur. E esse pragmatismo, para alguns é preocupante. Seria a prática da máxima do Toninho Malvadeza ? Cujo Neto, ganhou a Prefeitura de Salvador? Na política não seja inimigo demais que não possa compor, nem amigo o suficiente, que não possa decompor.
Mas voltando ao Omar: “Isso é um processo democrático, não é uma guerra”, segundo o jornal A Crítica em: http://acritica.uol.com.br/manaus/Manaus-Amazonas-Amazonia-Omar-Aziz-eleicoes-2012_0_800319969.html.  O resultado da eleição em Manaus fortalece o governador. Principalmente, se em algum momento, intramuros, defendeu a candidatura de Rebeca Garcia, e aceitou, mas não escolheu, a candidatura da Vanessa.
Falando em sucessão estadual, não apostaria minhas fichas em Amazonino. Não o vejo com chances reais. A menos que seja urgindo pelo Omar, mas não vai. Não tem idade, não tem votos. Não vai, mesmo que conte com o apoio financeiro do Arthur. Exatamente, como nessas eleições municipais, se as pesquisas não lhe forem favoráveis, ele não se candidata, vai arranjar uma safena qualquer como desculpa. Quando lançou a programa “ O Leite do Meu Filho” acreditava que arrasaria, e a reeleição estava certa. Não decolou.
Arthur também não será candidato, é mais provável, na ausência do Amazonino, que apoie o Serafim. Ou até mesmo o Hissa, se o Serafim não for candidato. Hissa, se inteligente for, continuará vice, para ganhar experiência administrativa. Foi meu aluno no CIESA, é inteligente.Alguém aí perguntou pelo Pauderney ou Henrique Oliveira ?
Quanto ao novo prefeito, precisará de todos os quatros anos para mostrar a que veio. A Copa do Mundo está na porta. Se desejar se candidatar a governador, terá um ano meio para mostrar serviço, o que praticamente impossível com o orçamento que a Prefeitura possui, comparado com as necessidades que Manaus tem. Ele sabiamente deverá continuar com a sua política pragmática de paz & amor. Dirá que não guarda rancor de ninguém, nem de Lula, e quer governar com todos. Vai pedir - após ser recebido pelo Omar, e saírem abraçados em uma foto - uma audiência com a Dilma; e se ela bobear, ele dá um beijo nela.
Pragmatismo ( que  é diferente de oportunismo, o povo não é bobo) é necessário para evitar chá de cadeira nos ministérios. Isso eu já havia escrito dias atrás num grupo restrito de amigos no Facebook; mas ontem, ao votar, o prefeito Amazonino Mendes confirmou as minhas suspeitas: A presidente Dilma nunca me recebeu, só me recebeu na época da eleição. Eu faço votos que o novo prefeito não enfrente isso. Emendas parlamentares não foram pagas. A gente passa meses e meses e vamos ter que adular uma série de senadores. Isso tudo são coisas que acontecem e temos que ser sábios para aprender com isso. Acho que Manaus vai dar uma lição linda no dia de hoje”. Observem bem que o prefeito Amazonino é da base aliada.  
Arthur, que não é bobo, não vai querer comer o pão que o Lula amassou e a Dilma assou.  A verdade é que todos nós, devemos torcer pela gestão de Arthur Neto na Prefeitura de Manaus. Se ela  não der certo, vai causar alguns danos à carreira política dele – correndo o risco de voltar para alguma capital europeia – mas será um dano maior na população como um todo, que precisa de um prefeito com bastante energia e disposição para trabalhar. Com uma cidade cheia de problemas para resolver, sendo um deles um trânsito infernal. Peitar o Planalto, é última coisa que Arthur quer nesse momento.
Paradoxalmente, as chances de Arthur  Neto de se candidatar e se tornar governador podem vir do Planalto, mas para que isso aconteça é necessário que vários fatores conspirem simultaneamente, entre eles: completa falta de dinheiro e/ou medidas anti-ZFM que o tornem o paladino da defesa de nossos interesses, to name a few. Não temos vereador federal, por que não ter prefeito  federal ? Quando você se torna amigo demais do rei, você não tem coragem de dizer que ele está nu, alguém tem de fazer isso. 
Será uma relação delicada e nova também para o Planalto, que terá também de pensar bastante antes de mexer a próxima pedra. Em 2014 também teremos eleição presidencial, e o Amazonas deu mais de 1 milhão de votos líquidos para a presidenta (como gosta de ser chamada). A urna deu o seu recado. Como dizem os texanos: don't mess with Amazonas.
Encerro por aqui - contra a minha vontade - porque já fui taxado de prolixo, mas não acabei; só vou dividi-lo em partes. Falta explicar, esse negócio de determinismo.
Apenas deixo aqui umas lembranças para a sua reflexão: Omar com o apoio do Eduardo Braga, então  governador batendo recordes de popularidade, ficou em terceiro lugar para a Prefeitura de Manaus, dois anos depois foi eleito governador. Arthur Neto perdeu a cadeira de senador para Eduardo Braga e Vanessa Grazziotin, dois anos depois derrota os dois e vira prefeito. Isso dá outro texto, não dá ? Vamos escrever sobre isso.
E as forças ocultas? Será que a Rebeca Garcia colocou o nome da Vanessa na boca do sapo ? Je n’y crois pas ( lembre-se Ottawa é bilíngue). Pura intriga da oposição, por três motivos: primeiro por que a senadora, agora, está com o corpo fechado, a foto acima prova isso; segundo, não seria da índole da deputada e; terceiro,tivesse sido Vanessa eleita prefeita, o papai da deputada, Chiquinho Garcia se tornaria senador. Então fica aqui a pergunta: que forças ocultas seriam essas ? Investigaremos.
Parabéns e boa sorte ao novo prefeito Arthur Neto. Parabéns ao Hissa, so far, so clean. Good boy. Que somou nessa eleição.

Esse texto expressa unicamente a minha opinião, e a ninguém mais pode ser atribuído crédito ou descrédito por isso. Debitem na minha conta.

Cláudio Nogueira.

PS 1. Economista Rodemarck Castelo Branco chefe do grupo de transição? Excelente escolha.
PS 2. Phryné Maryan, como fica a relação ACM Neto e o Planalto ?

PS 3. No dia seguinte a publicação deste post a profecia se cumpriu: Arthur Neto foi visitar o governador Omar Aziz, e os dois saíram felizes numa foto: http://tvuol.uol.com.br/assistir.htm?video=omar-e-artur-anunciam-acao-conjunta-em-manaus-04020D9B3364CCA13326

PS 4. E ACM Neto também acenou que não tem condições de peitar o governo Federal:  'Espero a melhor relação possível com o PT', diz ACM Neto : http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-10-31/espero-a-melhor-relacao-possivel-com-o-pt-diz-acm-neto.html





quinta-feira, 31 de maio de 2012

De Distrito Industrial a Cluster de Base Tecnológica

Este texto foi escrito em setembro do ano passado, a pedido do professor José Seráfico e de Belisário Arce, após o encontro realizado no INPA, no dia 15 de setembro de 2011, como título de A Nova Conjuntura Nacional Regional e Internacional Desafios para o Modelo Zona Franca de Manaus. No que resultou em livro com o mesmo nome, lançado ontem, com mais debates sobre o futuro da ZFM. O livro contém treze textos, com contribuições importantes dos demais autores.

De Distrito Industrial a Cluster de Base Tecnológica

Por Cláudio Nogueira

“Nos últimos cinco anos, segundo a Suframa, 123 fábricas tiveram os incentivos fiscais cancelados ou fecharam as portas no Polo Industrial de Manaus (PIM).”
Diário do Amazonas, 10.10.2011

No seminário sobre a Zona Franca de Manaus realizado pela Fundação Panamazônia e pela Fundação de Defesa da Biosfera (FDB) constatou-se que existem vários profissionais - economistas, engenheiros, administradores, empresários, consultores, servidores públicos, etc. ligados à indústria, à academia e às associações de classes - que convivem intensamente com o modelo Zona Franca de Manaus, que acreditam que este está superado e que esta chegou à maturidade. E como tudo que é maduro demais, pode vir a se decompor. Há profissionais que acreditam que o modelo deve ser revisado, repensado, até ser reinventado.
Qual o motivo que leva a esse grupo de pessoas a pensar desta forma, considerando-se que o faturamento do Polo Industrial de Manaus (PIM) tem batido consecutivos recordes, excetuando-se apenas anos recentes da crise mundial? Mas ainda assim faturando US$ 33 bilhões, em 2010, e com uma perspectiva [concretizada] de US$ 40 bilhões para este ano [2011]. O que é que alguns veem e outros não, ofuscados que estão por números tão eloquentes ?
Como muito bem expôs o economista Rodemarck Castelo Branco, a conjuntura atual, nacional e mundial, é completamente diferente de 1967, quando o modelo foi implantado. Houve quem mencionasse que somente a prorrogação a ZFM não nos garante competitividade, pois estamos, gradualmente, perdendo algumas vantagens comparativas. Outros palestrantes deram contribuições importantes, que nos faz pensar na gravidade da situação; a realidade, escondida atrás dos números. Esse é o perigo. Denis Minev [Preocupa-te Amazonas! Ou Um argumento sobre o triste destino reservado a sociedade industriais complacentes], ex-secretário de Estado do Planejamento, mostrou-nos cidades manufatureiras, que atingiram uma maturidade e posteriormente a decadência.
E por que acredito que o modelo deva ser modificado, aprimorado? Porque devemos desenvolvê-lo com vistas à perenização do Polo Industrial de Manaus, para que sobreviva, se necessário for, sem os incentivos fiscais. Se estes acabarem ou outros estados brasileiros contarem, também, com a redução de impostos, ou alíquotas especiais, quantas empresas do PIM permanecerão aqui ?

Cluster ou Distrito Industrial ?
Não raro as indústrias de motocicletas do PIM são referidas como pertencentes ao Polo de Duas Rodas ou Cluster de Duas Rodas. Os mesmos conceitos são atribuídos às empresas fabricantes de relógio. Há, portanto, dentro do PIM clusters industriais ?
O neozelandês Ifor Ffowcs-Williams, (conversamos em Ottawa, em 2004, na conferência anual e global da TCI) presidente da empresa Cluster Navigators Ltd e ex-presidente do The Competitiveness Institute (TCI), a mais respeitada instituição internacional quando o assunto é reunir especialistas mundiais para debaterem sobre clusters, definiu o Polo Industrial de Manaus como um clump e não um cluster industrial [Não consta no livro: O PIM "reminds me of Dubai where I was earlier this year. As in Dubai, you are describing a clump rather than a high performance cluster. An agglomeration with poor linkages and a lack of interaction between creators and knowledge users"].
Roger Voyer (com quem tive contato pessoal e muito ajudou na minha tese de doutorado) ,professor canadense, practitioner, profundo conhecedor de clusters, autor da metodologia “Oito Ingredientes para o Sucesso de um Cluster”, o definiu como uma concentração MNC, ou de multinational companies [Não consta no livro: "Manaus finds itself in the same situation as other manufacturing and assembly centres that want to move to higher value-added production and into knowledge-based industries. An example is Penang, Malaysia"].
Afinal o que realmente é a Zona Franca de Manaus ? Isso faz diferença ? Sim. É muito mais do que uma questão de conceitos, é a descrição da realidade, é a forma que essa concentração de indústrias está estabelecida. E dependendo desta realidade, os seus resultados são bem diferentes. Para entendermos isso, é necessário contar uma pequena história.
Em 1994, Annlee Saxenian,  professora do Department of City and Regional Planning da  Universidade da California, Berkeley, e diretora da School of Information da mesma universidade, publicou um trabalho intitulado “Vantagem Regional: Cultura e Competição no Vale do Silício e da Rota 128” que se tornou referência mundial, onde compara duas áreas industriais nos Estados Unidos. No seu livro Saxenian faz o seguinte questionamento:  Por que é que os negócios no Vale do Silício, na Califórnia, floresceram, enquanto ao longo da Rota 128, na região de Boston, Massachusetts, declinaram na década de 90? A resposta, Saxenian sugere, tem a ver com o fato de que, apesar de histórias semelhantes, o Silicon Valley desenvolveu um sistema descentralizado, mas de intensa cooperação industrial, enquanto que Rota 128 passou a serdominada por companhias independentes e auto-suficientes.” Saxenian constata que o cluster Silicon Valley é o core de um sistema maior, enquanto que a concentração industrial localizada ao longo da Rota 128, não. Aí reside toda a diferença entre um cluster e um distrito industrial.
A inovação e a produção  do Vale do Silício é muito superior ao da Rota 128. Outra constatação: clusters produzem e inovam mais que distritos industriais, e são mais competitivos. Deve ser observado que a Rota 128 é servida por duas das melhores universidades do mundo, Harvard University e pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), consequentemente, pode-se concluir que, embora seja sabido que para se ter um parque tecnológico produzindo produtos de alto valor agregado, a existência de centros de excelência é fundamental, é essencial, mas não é condição suficiente, outras variáveis estão involvidas.
O Silicon Valley é um cluster. É o pai de todos os clusters; a Rota 128 é um concentração híbrida, menos que um cluster,  muito mais do que um distrito industrial.
A definição de cluster industrial, ou cluster baseado no conhecimento ou cluster de base tecnológica é um conceito internacionalmente aceito como definido pelo professor da Harvard University, Michael Porter [http://www.isc.hbs.edu], o mais respeitado pesquisador mundial sobre o assunto. Distrito Industrial é um conceito de Alfred Marshall, professor da Universidade Cambridge, economista inglês, um dos mais respeitados  economistas do século XX, falecido em 1924.
Para aqueles vivem, como nós, em uma cidade com uma concentração industrial, é possível, até para o simples cidadão, perceber as vantagens de se agrupar as indústrias em um único local, ao invés de espalhadas pela cidade. Elas se beneficiam do que Marshall chamou de externalidades, mas hoje sabe-se que um distrito industrial poderá ser ou não um estágio anterior de um pré-cluster; poderá ou não se tornar um cluster. A vantagem deste sobre aquele, é conhecida por todo o globo, pois há vários clusters no mundo, como há vários distritos industriais.
Para Michael Porter, clusters são concentrações industriais de firmas geograficamente próximas, com intensa interação entre as empresas – cooperação e concorrência - e destas com as universidades e institutos de pesquisas, com fornecedores de insumos, tais como componentes, máquinas e serviços,  e uma infraestrutura especializada. Dotado de empresas em indústrias relacionadas por habilidades, tecnologias, ou insumos comuns. Incluem, também, instituições governamentais e outras - como universidades de qualidade, think tanks, instituições de formação profissional, e associações comerciais e industriais - que fornecem treinamento especializado, educação, informação, pesquisa e apoio técnico.
A essência dos clusters é a interação, tanto formal como informal, gerando inovação. Interação empresa-empresa, empresa-academia, empresa-governo. Apoiado por uma academia que produz knowledge workers, sem os quais o cluster não se realiza. O cluster baseado no conhecimento ou de base tecnológica é o core, o núcleo, o componente central e industrial, de um Sistema Regional de Inovação (SRI), composto pelas indústrias, universidades, institutos tecnológicos, escolas profissionalizantes, institutos de P&D e instituições governamentais. Todos interagindo, produzindo ou fomentando conhecimento e inovação, e materializando esse conhecimento.
No Brasil, segundo scholars e practitioners, como são chamados aqueles que vivem no ambiente de um cluster e/ou trabalham na sua implantação, e segundo publicações indexadas, o que mais se parecer com um cluster, como definido acima, é a região no entorno da cidade de Campinas, em São Paulo.
E Clump, o que é isso ? Etimologicamente, tem o mesmo significado de cluster. Ambos significam agrupamento, concentração, aglomeração, etc. O conceito clump, emitido por Ifor Williams, significa, segundo ele mesmo: “uma concentração de indústrias atomizadas, sem nenhuma interação entre si ou com academia.”

Distrito Industrial ou Clump ?
Temos universidades, centros de pesquisas, institutos que possam alimentar o PIM com uma massa crítica de mão de obra especializada, para perenizá-lo?  Em 2003, mandei um artigo para a Revista Brasileira de Inovação, que não foi aprovado pelo referee, pesquisador que analisa o texto para a revista. Pedi para ver seus argumentos. Ele, professor de uma instituição do Rio de Janeiro, dizia que o artigo estava errado, e que conhecia bem a ZFM, porque por aqui realizava trabalhos, onde havia intensa interação e competências tecnológicas.
Quando fazia pesquisa, em 2003, para a minha tese de doutorado, entreguei um questionário com 52 perguntas para dirigentes de mais 150 empresas. Foram entregues pessoalmente, ou protocolei junto as suas secretárias; mais de 80 voltaram. A proposta básica era conhecer o nível de inovação e interação empresa-empresa, empresa-academia no PIM. E o resultado não apresentou surpresas. As interações - salvo situações pontuais que somadas cabem em uma mão – eram quase inexistentes. Inovações eram pouquíssimas. O pesquisador não ajudou a direção da Suframa a perceber essa realidade [Não consta no livro:  na realidade, ele queria continuar mamando nas tetas da Suframa, não queria concorrência; mas hoje ela existe, o NEPI da Fucapi pode muito bem substituí-lo]. Sejam bem vindos aqueles que realmente desejam nos ajudar [como os que aqui vem ajudar na formação profissional, em mestrados e doutorados interinstitucionais].
Não obstante os esforços feitos pelo governo estadual na última década com a criação da UEA, da FAPEAM e da SECT, e de programas do governo federal para a região norte, com a criação de mestrados e doutorados pelas nossas principais universidades, muito mais precisa ser feito. Digo isto não para criticar, mas para lembrar que a vontade política é de fundamental importância, e que muito mais deve ser feito em tempo mais curto. Algo como um plano educacional de 50 anos em 5. Lembro que a demanda é urgentíssima. Relembro também, que o primeiro curso de engenharia eletrônica no Amazonas, foi implantado na UTAM, somente quando a ZFM já tinha sete anos de existência [graduando a primeira turma quando a ZF tinha dez anos]; e na UFAM, o curso de engenharia elétrica foi estabelecido em 1977, quando a ZFM tinha 10 anos [graduando a primeira turma quando a ZF tinha quinze anos].Estamos sempre correndo atrás do prejuízo.
No encontro da Panamazônia/FDB, perguntei a professora Marilene Corrêa - ex-reitora da UEA e ex-Secretária Estadual de Ciência e Tecnologia, portanto, pessoa que teve papel atuante neste processo de implantação de novos cursos - se poderíamos dizer que a vontade política seria capaz de fazer um plano educacional do tipo 50 em 5, levando em consideração que foi a vontade política que criou a Petrobrás, uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, num país com (então) parcas reservas de petróleo. Foi a vontade política que criou a Embraer, a quarta maior empresa fabricante de aviões do mundo, e líder mundial na classe que produz, e para que pudesse se concretizar foi criado um instituto superior de excelência, o ITA, Instituto de Tecnologia da Aeronáutica. Muito embora a professora não tenha dito sim diretamente, ela lembrou que a construção de Brasília, custou US$ 3 bilhões, há mais de 50 anos passados [Pense bem prezado(a) e-leitor(a) o poder de compra de 3 bilhões de dólares há 51 anos atrás]. Quantia elevada até nos dias de hoje, e muito mais difícil para um Brasil muito menor.
A menção de Brasília me lembra de um plano educacional do tipo 50 em 5, que poderia se estender pelas outras regiões do Brasil. Hoje temos mais de US$ 320 bilhões de reservas internacionais, que poderiam ser utilizadas com essa finalidade. Aqui no Amazonas mesmo, trouxemos vários músicos do leste europeu para compor a nossa orquestra sinfônica. Por que não usamos um pouco dessas reservas, considerando que a nossa moeda está estável e não sofre nenhum ataque especulativo, para importarmos cérebros, equiparmos laboratórios, para construirmos centros tecnológicos nas universidades, ou tornar o CBA, efetivamente, um centro de excelência ? Quanto custará a Arena da Amazônia ? Temos muito mais dinheiro do que vontade política [Não consta no livro: Temos menos vontade política do que juízo].
A nossa luta, além da prorrogação da ZFM, é pela manutenção do PIM e da renda, direta e indireta, de milhares de famílias neste Estado; é para que mesmo que a ZFM se acabe, o PIM permaneça de pé. Que a perenização seja pela capacidade instalada, pelas competências existentes, pelo nível da mão de obra qualificada, pela inovação tecnológica. Temos de criar as condições de nos tornamos um parque industrial que exista sem a presença dos incentivos fiscais. Se neste momento a prorrogação da ZFM por mais 50 anos nos dá um pouco mais de tempo para planejarmos o nosso futuro, para criar as condições favoráveis, contudo, não nos garante vantagens competitivas. Lembro que hoje temos [uma ameaça chamada] República (Capitalista) Popular da China, ditadura de direita. Os chineses devem ter aprendido a lição com seus vizinhos sul-coreanos, como uma ditadura capitalista pode produzir um impulso muito grande na economia. Nós conhecemos isso: com a ditadura não há sindicatos fortes, não há pressão salarial, nem greves, etc. Com o agravante de que a China, com uma população enorme, salários baixos, não somente é intensiva de mão de obra, mas agora está rica, é intensiva de capital também.
Há mais de 10 anos, Eugênio Staub, então presidente da Gradiente, profetizava, mais ou menos assim: “Se não tomarmos alguma medida, a China vai acabar conosco, como acabou com os polos de calçados de Franca [SP] e de Novo Hamburgo” [RS].  Tivéssemos uma academia forte (não é culpa dos que nela trabalham, mas por falta de uma política educacional de Estado) a Foxconn e os seus tabletes talvez viessem vindo para o PIM. Mas foram para Jundiaí, em São Paulo.

O que fazer ?
Qual é o próximo passo ? Apresento uma análise mais detalhada e resposta mais completas no meu livro “Estratégias Governamentais para o Desenvolvimento do Polo Industrial de Manaus”. [Não consta no livro: Mas também pode-se ter uma ideia no post: "Parque Tecnológico de Manaus-PTM" (http://nogueiraclaudio.blogspot.com.br/2012/03/parque-tecnologico-de-manaus-ptm.html) ou em "A ZFM Acabou" (http://nogueiraclaudio.blogspot.com.br/2011/11/zfm-acabou.html)].
Como nos tornamos um Vale do Silício? Nada disso. O nosso referencial não é ele. Em 1992, vinte e cinco anos depois da criação da ZF de Manaus, os indianos criaram o Science Park de Bangalore, onde oferecem incentivos fiscais por apenas cinco anos, e mais um ou outro subsídio, como para a eletricidade. O objetivo inicial era atrair empresas produtoras de software, nas quais eram obrigadas a exportarem 50% da produção, e para tanto criaram três institutos tecnológicos (Indian Institute of Science, Institute of Bioinformatics and Applied Biotechnology e o Indian Institute of Information Technology). Hoje Bangalore possui mais de 2500 laboratórios de P&D. E nós quantos temos ? O que eles fizeram e nós não ? É isso que devemos aprender.
Saxenian no seu livro, descreve a importância da interação informal, o qual ela chamava de social network, como um dos fatores mais propulsores de inovação na Califórnia; interação não encontrada em Boston. Ela menciona pubs, bares, restaurantes e clubes, onde a inovação está no ar; onde engenheiros de diferentes empresas, entre uma conversa e outra, decidem abrir novas firmas. Os indianos foram atrás, também, desses pequenos detalhes, e criaram um fórum de debates chamado Software Process Improvement Network (SPIN)  para que os pesquisadores dos laboratórios e dos institutos se encontrassem para conversar sobre inovação.
Há vários exemplos em economias do tamanho da nossa. A Zona Franca de Barcelona e o seu Parc Tecnològic del Vallès, constituído em 1987 para atrair empresas de base tecnológica, são exemplos bem sucedidos os quais devemos fazer benchmark. Estudar o que eles fizeram. Em Barcelona, a Universitat Autònoma de Barcelona tem o seu campus dentro do parque industrial, para atendê-lo e com ele ter maior interação. Cingapura, que até 1963 era uma ilha cheia de malária pertencente à Malásia, hoje tem construído sucessivos clusters, um dos mais recentes é o farmacêutico. Há outros exemplos, como o cluster de tecnologia de informação e comunicações & fotônicos,  na região de Ottawa-Toronto. A República da Irlanda, que no momento se encontra com problemas, como vários países da Zona do Euro, com sua política de clusters, deixou de ser um dos países mais pobres da Europa, para um per capita superior de US$ 35 mil ( US$ 41 mil, em 2008)
O que precisa ser feito foge da expertise da Suframa,  mas isso não a exime de continuar a ser exercer a liderança. Ela, que já teve uma autonomia maior, quando construía campi, hospitais e abria estradas vicinais, hoje tem receitas contingenciadas. Deverá trabalhar mais com o governo estadual, que tem uma responsabilidade maior nesse processo, devido às ações que pode e deve tomar, bem como a pressão que pode exercer sobre o governo federal. Os casos de clusters espontâneos (bottom up) são raríssimos, quase todos são do tipo top down, criados por iniciativas governamentais.
Na década de 90, a Suframa se propôs um planejamento estratégico onde não via a si mesma como mera fiscalizadora e concessora dos incentivos fiscais federais, mas como agência de fomento regional. Hoje, além da crise interna que passa, administra um polo industrial repleto de ruas esburacadas, cercado de favelas. A Suframa, cuja administração, em tempos idos, fazia sombra ao governo estadual, precisa de ajuda e de experts para o PIM sair da situação de um distrito industrial, que cresceu, amadureceu e está envelhecendo, do ponto de vista da evolução e inovação tecnológica. É preciso ser intensificados os projetos como CBA, CAPDA, CT-PIM e CIDE. Para isso a Suframa precisa de apoio político.
E não é com profissionais exógenos que aqui vem e ganham com relatórios e palestras que ela vai encontrar a solução dos problemas. Ela tem de contratar especialistas (ou capacitar a prata local) que já trabalharam em situações concretas em outras concentrações industriais, e que já passaram por esse processo. Todos os anos o The Competitiveness Institute realiza  um encontro mundial - que esse ano [2011] terá sua décima quarta edição, no período de 28 de novembro a 2 de dezembro, em Auckland, na Nova Zelândia – onde pesquisadores, administradores de parques tecnológicos, professores universitários, prefeitos e todos interessados no assunto discutem sobre clusters e concentrações industriais. Via de regra, essa conferência muda de continente a cada ano.
Este ano [2011], no mês de maio, na cidade de Ouro Preto, MG, aconteceu o Sexto CLAC, Conferência Latino Americana de Clusters. A Suframa participa de algum tipo de conferência relacionada a esse assunto ?

No Fim do Mundo
Nós não estamos no fim do mundo. Nós estamos no meio do mundo, na linha do Equador, apenas a 5 horas dos Estados Unidos. Não somos uma ilha. Onde está localizada Cingapura, ali sim é o fim do mundo, além de ser uma ilha. Ela não abastece nenhum dos seus grandes consumidores por meio de estrada, mas por navios, e principalmente, primordialmente, por transporte aéreo. O mesmo acontece com Bangalore, que também está no fim do mundo. No fim do mundo fica a cidade de Montevidéu. Mas o governo uruguaio não pensa assim, recentemente construiu um novo aeroporto, Carrasco, com capacidade de 7 milhões de passageiros por ano, o dobro da população do país.
Acredito que fizemos muito, por isso não devemos ter medo de sermos ousados. Na realidade, o momento exige isto. Saímos das indústrias de juta para aparelhos celulares, potentes motocicletas e televisores de alta definição em cristal líquido. Mas precisamos fazer muito mais. Disto depende o nosso futuro. Essa é a nossa luta. Isso depende somente da nossa disposição, de visão, de planejamento e vontade política.


PS. José Seráfico é diretor da Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera - FDB, e Belisário Arce e presidente da Associação Panamazônia.