Em 1984, eu concorri pela primeira vez à bolsa de
pesquisa do Monbukagakushō (文部科学省 - Ministério da Educação,
Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia) no Consulado Geral do Japão em Manaus,
mas não fui selecionado. Na época, eu trabalhava como engenheiro na Gradiente -
então a maior empresa brasileira de eletrônicos.
Diante da necessidade, na empresa, de profissionais
fluentes em inglês e do meu desempenho na prova da bolsa, percebi que havia
chegado a hora de aprimorar o idioma.
Em 1987, concorri novamente e fui selecionado. Entre
essas duas tentativas, passei um ano estudando inglês nos Estados Unidos.
Viver no Japão foi uma experiência maravilhosa sob todos os aspectos: o aprendizado da língua, a pesquisa, a cultura, o povo japonês e a convivência com vários estudantes estrangeiros.
Ao chegar, achei-o um país moderno, parecido com os países do Ocidente em muitos pontos. Ao mesmo tempo, o país mantinha fortes tradições culturais e arquitetônicas, sem mencionar a culinária. O Japão foi muito mais do que eu esperava.
No Castelo de KumamotoFui para o Japão com o objetivo de passar dois anos a partir de 5 de abril de 1988, período máximo permitido pelo meu afastamento. Inicialmente, estudei japonês por seis meses na Universidade de Kyushu (九州大学) - Kyudai (Kyushu Daigaku) -, em Fukuoka, uma cidade extremamente agradável. Após esse período, iniciei uma pesquisa de um ano e meio na Universidade de Kumamoto (熊本大学) - Kumadai (Kumamoto Daigaku) -, na cidade de mesmo nome. Fiquei o prazo mínimo que a bolsa oferece.
Via de regra, o período mínimo em que a grande maioria dos estudantes permanece é de três anos. O percurso mais comum entre os bolsistas consiste em seis meses de estudo da língua, seguidos de seis meses como pesquisador; após esse primeiro ano, o estudante inicia o mestrado. Para mim, essa opção estava descartada. Retornei em 5 abril de 1990.
Dez anos depois, em junho de 2000, voltei ao Japão
para um treinamento de dois meses. O curso abordava finanças e desenvolvimento.
Durante o treinamento, realizado em Tóquio, visitamos diversas cidades e
indústrias, entre elas, a siderúrgica Nippon Steel, em Kitakyushu - que tinha
em seu porto, naquele dia, um navio de bandeira brasileira carregado com
minério de ferro. Nessa minha segunda ida, o patrocinador foi a JICA (Japan
International Cooperation Agency – Agência de Cooperação Internacional do
Japão). Essa história vai ficar para outra ocasião.
Foram duas experiências distintas, com cursos
diferentes, mas ambas extremamente gratificantes.
O primeiro impacto não foi cultural, mas econômico: os
preços. Ao converter para cruzados - a moeda brasileira da época- , tudo
parecia muito caro. Depois, decidi parar de converter. Lembrei-me do ditado: quem converte não se diverte.
Em 1988, eu e os recém chegados bolsistas, que iriam estudar japonês na Kyudai, fomos alojados em um kaikan privado, porque não havia mais vagas no dormitório da universidade. A minha classe incluía: o libanês Ali Hassan Chahrour, que lá ficou por seis anos até concluir o doutorado em Engenharia Civil; a turca Nalan Kabay, que estudou o doutorado em Química e hoje é uma cientista premiada na Turquia, no Japão e na Inglaterra, tendo retornado ao Japão para pós-doutorado no Instituto Nacional de Materiais Inorgânicos; o malgaxe Edouard Andrianarijaona Razafimanantena, que concluiu doutorado em Matemática e foi vice-prefeito de Antananarivo; o australiano Peter Colless, economista; a boliviana Vivian Lizabeth Reynolds, arquiteta, que cursou o mestrado; e o iraniano Jafar Ghayoumian, que fez doutorado em Geologia e é membro do Instituto de Pesquisa em Conservação do Solo e Gestão de Bacias Hidrográficas do Irã.
Todas as manhãs, íamos quase todos juntos pedalando os
quilômetros que separavam o kaikan da Kyudai para as sete horas diárias
de aula, que começavam às nove.
Durante o período de seis meses em Fukuoka - também conhecida como Hakata - fizemos algumas
viagens culturais de dois ou três dias para outras cidades, além de excursões
de um dia.
Eu sabia que o Japão era um país pequeno com algumas cidades populosas. Acreditava que, devido à grande população e ao seu relevo montanhoso, não haveria muito espaço para áreas rurais. Para minha surpresa, o Japão possui um campo muito bonito e bem preservado.
No meu não-tão-diário - onde fazia anotações para
incluir nas cartas à minha família -, registrei muitas experiências. Nossa
comunicação era feita exclusivamente por carta. Havia um telefone no hall do kaikan
onde era possível fazer ligações internacionais, mas era muito caro.
Geralmente, eu enviava cartas acompanhadas de muitas fotos ou até de uma fita
cassete, narrando como estava minha vida.
No dia 15 de julho de 1988, anotei:
Hoje foi um dia
de viagem pela ilha de Kyushu- a ilha do sul. Saímos às 9 horas e fomos para a cidade de Saga
visitar a fábrica de pneus Bridgestone. Éramos quase duzentos estudantes:
alguns da América Latina, americanos, malaios e africanos, mas a grande maioria
era composta por chineses de Taiwan. Dentro do ônibus, havia cerveja,
Coca-Cola, café gelado e sucos. Tinha também um monitor para karaokê e um
microfone pendurado no teto, que podia ser levado para qualquer parte do
ônibus.
Depois da visita à fábrica de pneus, fomos para
Kumamoto. Lá, visitamos o canal de televisão RKK e uma emissora de rádio.
Gostei de Kumamoto. Em outubro estarei lá.
Dez dias depois, viajamos por dois dias para Honshu,
que é a maior e a ilha central do Japão. Ficamos por dois dias em Akiyoshi,
onde exploramos uma caverna muito extensa, vistamos templos budistas e o KDD, Kokusai
Denshin Denwa, que era uma das principais empresas de telecomunicações do
Japão, especializada em serviços internacionais de telefonia e transmissão de
dados.
No início da noite, chegamos a Takachiho, localizada
na “Prefeitura” de Miyazaki, uma cidade pequena, mas com muitas coisas para serem
vistas: natureza exuberante, cânions com
rios e desfiladeiros.
“Prefeitura”
ou ken (県) em japonês, não tem o mesmo significado que no Brasil; refere-se a uma
das principais divisões administrativas do país, equivalente ao que chamamos de
estados. No Japão são 47 “prefeituras”.
Jantamos no hotel, todos sentados no chão, e depois
fomos levados para assistir a uma dança típica japonesa. Dormi no chão, sobre o
tatami (畳), que é um material composto por uma base de palha de arroz
prensada, chamada wara, e coberto por uma esteira de junco - um tipo de
gramínea - chamada igusa. Algumas versões modernas utilizam espuma ou outros
materiais sintéticos. Era um quarto espaçoso, com mais cinco pessoas. No dia
seguinte, fomos a um templo budista e visitamos um vale muito grande, com belas
quedas d’água. No início da noite, estávamos de volta a Fukuoka.
| O Rurikō-ji (瑠璃光寺) é um templo budista histórico localizado em Yamaguchi, no Japão, famoso por sua pagoda de cinco andares, dentro do Parque Kozan. |
Assim era a vida de bolsista: focado no estudo da
língua e imerso na cultura japonesa.
Enquanto em Fukuoka, um professor de japonês nos guiou
em uma viagem de barco até a Coreia do Sul, de 14 a 20 de agosto. Saímos do
porto de Shimonoseki, uma hora de trem de Fukuoka, e de lá navegamos até Pusan
(Busan, a partir de 2000). De onde seguimos de trem até Seul. Naquele ano, os
Jogos Olímpicos ocorreram de 17 de setembro a 2 de outubro de 1988. Tivemos a
oportunidade de visitar o estádio olímpico.
Após completar seis meses de estudo da língua, mudei-me
para Kumamoto, onde cheguei no dia 1º de outubro. Fomos alojados no Kaikan da universidade para alunos estrangeiros, e no mesmo terreno havia também um dormitório para
alunos japoneses. No início de dezembro, fomos convidados por eles para uma
festa e para fazer mochi ou daifuku, bolinhos de arroz recheados
com pasta de feijão doce. Fomos eu, a Magali Thiyomi Uono, hoje doutora pela
USP em Bioquímica Farmacêutica; a Amélia Mikami, farmacêutica, de Londrina, que
tinha um canal no YouTube chamado Horta do Ditian, com mais de um milhão
e trezentos mil inscritos - infelizmente, o Covid a levou em 2021; e a
americana Karen Akiko. A conversa era ora em português, ora em japonês ou
inglês.
Assim era a nossa Babel no Japão. No Bunka no Hi (文化の日), ou Dia da Cultura - que na Kumadai era celebrado
por três dias, na nossa tenda - tínhamos direito a uma e vender o que
achássemos que valeria a pena - havia estudantes da Indonésia, Canadá, Estados
Unidos, Taiwan, China, Argentina, Filipinas, Austrália e Brasil. Nem todos eram
bolsistas do Monbushō. Alguns eram patrocinados pela província de Kumamoto, com
bolsas de língua e cultura com duração de apenas um ano.
Meu orientador, Fumio Ueno sensei, era uma pessoa
muito boa. Ele me colocou em uma sala com um professor jovem, e com um aluno de
doutorado. Ele determinou o que eu iria estudar; isso dentro do tema
previamente acordado antes de eu ir para o Japão.
Apresentou-me aos dois e disse-lhes: “Vocês vão
ajudá-lo no que for preciso.”
No dia 8 de novembro de 1988, tivemos o primeiro de
vários jantares na sua casa. Estavam sempre presentes seus orientandos: eu e
dois chineses, além de dois professores do departamento de Engenharia Elétrica.
Graças a Deus ele deu essa orientação a eles sobre me ajudarem. No meu diário encontrei no dia 14 de novembro, quarenta e cinco dias após a minha chegada: As coisas estão começando a complicar por aqui. Cada dia meu professor me dá mais coisas para eu estudar. E está cobrando um paper, que disse que pode ser escrito com o estudante de doutorado.
A combinação dessas duas abordagens dá origem aos sistemas neuro-fuzzy, resultando em um sistema inteligente capaz de aprender com dados, tomar decisões flexíveis e interpretar informações complexas. Os sistemas neuro-fuzzy representam a fusão de duas técnicas fundamentais da inteligência artificial – que estava engatinhando, muito longe do que se sabe hoje. Essa integração cria um modelo híbrido que combina as vantagens das duas abordagens, exemplificando como diferentes métodos de IA podem ser utilizados em conjunto para resolver problemas complexos.
Os passeios culturais e de conhecimento não pararam. No dia 13 de dezembro partimos para uma viagem de dois dias a Oita (大分). Saímos cedo da universidade, às 8h30. Todos os estudantes eram de engenharia. Visitamos alguns lugares, incluindo a hidrelétrica de Matsubara. Fazia muito frio nesses dois dias.
A vida no Japão foi uma sucessão de experiências. Uma das mais marcantes eu narro a seguir, conforme registrada em meu quase-diário. Fugindo um pouco a sequência cronológica, vamos voltar no tempo, para quando fazia apenas duas semanas que eu havia chegado a Kumamoto.
No dia 17 de outubro, fui preso e passei cerca de uma hora na cadeia. Eu estava no supermercado e, como das vezes anteriores, escolhia os produtos e os colocava em uma bolsa que eu tinha. Percebi que uma mulher, discretamente, me seguia pelos corredores, até que resolvi perguntar o que ela queria. Ela foi embora, mas alguns minutos depois voltou com dois policiais grandes, que estavam à paisana. Ela afirmou a eles que eu estava roubando.
Os policiais pediram que eu os acompanhasse até a delegacia, mas, para não chamar atenção, um iria à frente mostrando o caminho, enquanto o outro seguiria atrás de mim, sem demonstrar que eu estava sendo preso. Ao chegar à delegacia, colocaram-me em uma cela, deixaram a porta aberta e um deles pegou uma cadeira, sentou-se à minha frente e perguntou o que havia acontecido. Expliquei que, durante seis meses fazia isso em Fukuoka, que não estava roubando, que era bolsista e que queria que chamassem o meu orientador. Depois de conversa vai, conversa vem, eles me deram uma folha de papel e pediram que eu descrevesse os itens que estavam na bolsa. Depois, informaram o custo total, e eu paguei ali mesmo para eles. Ficamos conversando e rimos um pouco da situação. Quando o meu orientador chegou, os policiais explicaram o ocorrido e me liberaram.
Fui para casa abalado, mas muito pensativo na forma como fui tratado. Fiquei impressionado com a preocupação dos policiais em que não tivesse a minha pessoa prejudicada publicamente, mesmo que acreditassem que eu estivesse errado.
Meu orientador, meio que constrangido pelo ocorrido, no dia seguinte me deu uma bonita caneta de presente.
| Kinkaku-ji - Pavilhão Dourado - Kyoto |
Eu realmente acreditava na honestidade dos japoneses, e eles não me decepcionaram. Em julho de 1989, minha mãe veio me visitar. Encontrei-me com ela em Tóquio, onde ficamos em um hotel bem em frente à estação principal de trens.
Além de visitarmos o Palácio Imperial, andamos pela Ginza Dori - apelido da famosa avenida Chuo-dori (中央通り), que é para Tóquio o que a Quinta Avenida é para Nova York; subimos na Torre de Tóquio... fizemos todos os passeios tradicionais.
No nosso último dia na cidade, decidi levá-la à Disneylândia. Saímos do hotel e nos dirigimos à estação em busca de um guarda-volumes. Todos os armários estavam ocupados. Escolhi uma coluna e encostei nossas malas ali. Eu disse: Vamos embora. Quando voltarmos, se elas não estiverem aqui, eu as pegarei nos achados e perdidos.
É claro que o susto dela foi grande; ela pensou que eu estava fazendo uma maluquice. Fomos e voltamos, e as malas estavam exatamente no mesmo lugar. Hoje seria muito raro algo assim acontecer. Depois do 11 de setembro, o mundo não é mais o mesmo. Duas malas abandonadas em um local público por várias horas seriam apreendidas.
É óbvio que houve momentos emocionalmente difíceis. Além da “prisão” já mencionada, o período que chamamos de festas de fim de ano foi um deles.
Kumamoto estava toda enfeitada. O feriado começaria no dia 1º de janeiro e terminaria no dia 4. Mas, apesar da ornamentação, a noite de 24 e o dia 25 de dezembro tinham tudo para serem como qualquer outra noite do ano. Registrei:
Os dias que antecedem o Natal têm sido meio tristes, apesar de ter vários amigos aqui no Kaikan, em Kumamoto e Fukuoka. A saudade do Brasil nessa época do ano é difícil de superar.
Enfeitei meu quarto com guirlandas natalinas, Papai Noel e outros enfeites típicos. Coloquei uma guirlanda na porta, pelo lado de fora, o que despertou a curiosidade do Ali kun, o amigo muçulmano, que me perguntou o que aquilo significava.
Gravei uma fita cassete com um álbum de músicas natalinas de Whitney Houston e as ouvia ininterruptamente por horas. Até hoje, ao ouvir essas músicas, minha mente retorna àquele quarto.
O mais difícil era ouvir a música I’ll Be Home for Christmas, Eu estarei em casa para o Natal. A primeira parte era especialmente tocante: “Estou sonhando esta noite com um lugar que amo/Mais do que normalmente costumo amar/E embora saiba que o caminho e volta seja longo/ Eu lhe prometo/ Estarei em casa no Natal... ao menos nos meus sonhos."
Felizmente, o dia 24 era um sábado, então não houve escola. Eu costumava ir à missa, em inglês, todos os domingos, às 15 horas, na Igreja Nossa Senhora do Japão, em Tetori, no centro da cidade. Antes da missa, almoçava sempre no Shakey's Pizza, onde tinha um cartão de fidelidade que dava direito a um rodízio grátis na décima visita. Naquela véspera de Natal, fui à missa das 19 horas, e em japonês. Foi uma celebração bonita.
Depois da missa, fui ao Coco Banana, um bar que era o point
dos estrangeiros. Em uma sala pequena, de vinte metros quadrados, recebia o
triplo de sua capacidade; lá, nós dançávamos e conversávamos. Em um desses
dias, no bar, tocou uma música brasileira - um brega daqueles! Este espaço me
proíbe de transcrever a letra, mas dei muitas risadas. Curioso, perguntei ao DJ
onde ele tinha conseguido aquilo, e ele respondeu: “Foi presente de um
brasileiro que estudou aqui.”
| Tóquio. No dia do enterro do Imperador Hiroito. |
Sou de uma família enorme que sempre comemora o Natal com entusiasmo. Em
1988, foi diferente: naquele ano o Papai Noel não veio. Mas, no dia 25, fui a
uma festa que começou às 10h e da qual só saí às 22h - e soube que ela se
estendeu noite adentro.
Um grupo de amigos de vários países - Estados Unidos,
Canadá, Inglaterra e Nova Zelândia -, todos professores de inglês, reuniu-se
para celebrar o Natal. Cada um trouxe comida e bebida, e seus alunos fizeram o
mesmo. Eu era o único estrangeiro presente não anglófono.
Na noite anterior, senti muita falta da festa com a família - muitas crianças e adultos, com todos falando ao mesmo tempo - que
acontece todos os anos. Também senti saudade do almoço com todos no dia de Natal, mas a
animação do dia seguinte amenizou um pouco.
O Ano Novo, este sim, foi bastante diferente. Os
amigos viajaram. Eu, Ali Kun e uma amiga polonesa, Diana san, saímos na noite
do dia 31 em busca de diversão no centro da cidade. Fomos inicialmente ao
Coconut Banana, mas estava fechado. De repente, nos demos conta de que a cidade
e os bares - que nunca fechavam - estavam todos de portas cerradas. O motivo
era o estado grave de saúde do imperador Hirohito. Voltamos para o Kaikan
e cada um foi para o seu quarto. Dormi mais cedo para que o dia acabasse mais
rápido. Acordei no dia seguinte com a triste notícia na TV do desastre do
Bateau Mouche, que fazia um cruzeiro de Réveillon na Baía de Guanabara.
No dia 7 de janeiro 1989, o imperador faleceu, sendo sepultado em 24 de fevereiro. Nesse dia, eu já estava há um mês em Tóquio, fazendo um curso de Fortran 77 para microcomputadores no Instituto de Tecnologia de Tóquio.
| Morre o Imperador |
Como milhões de
pessoas nas ruas, movimentei-me de um lugar para outro sob a chuva e o frio,
procurando o melhor ângulo para assistir à passagem do cortejo fúnebre. A
cidade estava tomada por uma atmosfera pesada e solene. O itinerário do funeral
seguia uma sequência rigorosa: o corpo deixou o Palácio Imperial em um luxuoso
carro fúnebre, seguindo em procissão até o Jardim Shinjuku Gyoen, onde foram
realizadas as cerimônias religiosas e oficiais com líderes mundiais. De lá, o
cortejo partiu para o seu destino final no Mausoléu Imperial de Musashino, em Hachioji, para o sepultamento.
A importância do evento era monumental: quando George Bush pai confirmou
presença, diversos outros presidentes decidiram comparecer, inclusive o nosso,
José Sarney.
São muitas histórias; isto é apenas a ponta do
iceberg. Quero lembrar, com gratidão, das amizades que construí - amigos que me
ensinaram a admirar ainda mais os japoneses. Visitavam-me com frequência,
orientavam-me com generosidade e esclareciam minhas dúvidas. Meu orientador e,
sobretudo, o aluno doutorando que dividia a sala comigo demonstraram enorme
dedicação e paciência no laboratório de eletrônica.
Guardo com carinho os amigos nikkeis brasileiros e latino-americanos, a
convivência nas aulas de japonês e os laços profundos que criamos na residência
coletiva.
Ainda em Fukuoka, na igreja, conheci Stephanie Weston -
então cônsul dos Estados Unidos e hoje professora da Universidade de Fukuoka -
e a chilena Mônica Nanjo, grandes amigas que me apresentaram seus amigos
japoneses. Juntos e misturados, viajamos e acampamos na ilha de Amakusa com
suas famílias, e depois com minha mãe, em experiências que permanecem vívidas
na memória.
Não posso deixar de mencionar minha amiga inseparável,
Graciela, matemática argentina; seu compatriota Eusebio Paloque, bacharel em
computação; o americano Richard Elbaum, respeitado advogado na região da Nova
Inglaterra; o arquiteto paraense Ivan Domingues das Neves e americana Nancy Arne,
missionária luterana.
São lembranças que ainda hoje me envolvem em grande nostalgia.
Mais de três décadas se passaram, e essas lembranças
continuam vivas em mim. Guardo até hoje uma página de jornal com minha foto
jogando futebol no time dos estrangeiros. A reportagem destacava a existência
da equipe de gaijins (外人). Eu sou destaque em uma foto grande, não pelas minhas qualidades futebolísticas inexistentes, mas pelo fato de eu jogar calçado com um tênis Bamba - quem se lembra dele? - pouco convencional para a prática
esportiva.
Algum tempo depois, ao sentir fortes dores na coluna,
ouvi de um médico que, para o meu peso e altura, aquele calçado era totalmente
inadequado.
Não esqueço o castelo de Kumamoto, nem o jardim-bosque
Suizenji Jojuen da cidade, para onde eu levava todos os visitantes. Guardo também na
memória os castelos de Osaka, Nagoya e de Himeji.
Recordo o Castelo de Kyoto e o Pavilhão Dourado - 金閣寺
(Kinkaku-ji) -, as pagodas de Nara e seus bambis passeando livremente
entre as pessoas; a ilha artificial no porto de Kobe; as regiões de Shinjuku e
Harajuku, em Tóquio; e a Exposição Ásia-Pacífico - Fukuoka 1989, também
conhecida como Yokatopia.
Tenho uma história engraçada sobre essa exposição.
Como já mencionei, estudei os primeiros seis meses em Fukuoka, mas, quando a
exposição começou, eu já morava em Kumamoto. Para os estudantes de Fukuoka, o
ingresso tinha 50% de desconto. Na bilheteria, resolvi requerer esse direito.
Aí é que está o interessante: por uma questão de
educação, os japoneses não dizem “não” diretamente. É claro que eu sabia disso.
- Eu morava em Fukuoka até poucos meses atrás, posso
pagar meia-entrada? - perguntei ao rapaz da bilheteria.
Em qualquer outra parte do mundo, a resposta seria “sim”
ou “não” direto. Ali, a resposta era nitidamente “não”, mas ele não queria
pronunciar a palavra. Em vez disso, ele disse:
- Saaa! Musukashii desu, ne?
O “Saa” - com quantos “as” você quiser - é uma
interjeição. Não tem um significado literal; é como o nosso “Humm...”. Já “Musukashii
desu” seria algo como “está difícil ou complicado”. No Japão, essa
expressão é frequentemente usada de forma polida para indicar que algo é
impossível ou que a pessoa não pode atender a um pedido.
Resumindo: a conversa durou vários minutos. Eu
argumentava que, até recentemente, era morador de Fukuoka e, ao final,
perguntava se podia comprar com desconto. Isso parecia deixá-lo cada vez mais
constrangido. Parei porque um amigo disse: “Deixa de brincadeira! Você quer
ouvir ele falar ´não`, mas ele não vai. Compra logo esse ingresso!” Ele comentou
que ficaríamos o dia inteiro ali naquele impasse.
Esse tipo de história é perfeita para ilustrar o
conceito japonês de Honne (本音 - o que a pessoa realmente pensa) e Tatemae (建前 - o que ela diz para manter a harmonia social).
Entre outras reminiscências que me vêm à cabeça,
lembro-me também das cerimônias, em agosto de 1989, relativas ao 44º
aniversário dos lançamentos das bombas atômicas, a que assisti com minha mãe em
Nagasaki e Hiroshima. É impactante visitar o Museu Memorial da Paz de
Hiroshima, onde se vê o que a bomba fez com a cidade e com a população.
| Domo de Hiroshima, também conhecido como Memorial da Paz. |
O espaço é pequeno para escrever tudo de que gostaria de me recordar e de também mencionar a minha segunda ida pela JICA. Isso vai ficar para outra oportunidade, embora o meu diário esteja cheio de histórias e me implorando para contá-las.
Para finalizar, gostaria de expressar minha profunda gratidão ao governo japonês pela oportunidade única de estudar no Japão, por meio das bolsas concedidas. Essa experiência ampliou meus horizontes acadêmicos e me proporcionou um crescimento pessoal e cultural. A generosidade e o apoio do governo japonês foram fundamentais para que eu pudesse vivenciar uma educação de excelência e integrar-me à rica e fascinante cultura do país. Agradeço por essa oportunidade transformadora, que certamente influenciou não apenas minha trajetória profissional, mas também a minha vida pessoal.
Cláudio Nogueira
Notas explicativas.
Kaikan: Creio que deu para perceber que se trata de dormitórios ou alojamentos.
Gaijin é estrangeiro. Na realidade, a palavra completa é Gaikokujin, que literalmente significa “pessoa de um país estrangeiro”. Eu a traduzo como "gringo".
No japonês, é muito comum fazer a redução das palavras. Vimos que Kumamoto Daigaku, Universidade de Kumamoto, também é dito Kumadai.
O próprio nome do Ministério, Monbukagakushō, é
frequentemente reduzido para Monbushō.
Os japoneses, ao citarem o nome de uma pessoa, acrescentam a palavra san,
seja homem ou mulher. Mas em contextos informais ou ao se referir a pessoas
mais jovens, podemos dizer kun, como em Ali kun, o libanês. No caso do
meu orientador, ele é chamado de sensei, que deve ser utilizado quando
nos referimos a professores, doutores ou mestres.
Caboclo é um termo
brasileiro que originalmente designava a pessoa de origem mista indígena e
europeia, especialmente portuguesa, e que também passou a significar alguém do
interior, ligado à vida rural, à terra e às tradições locais, ou originário da
Amazônia.
Música brega: há muitas décadas, as músicas "bregas" jamais seriam tocadas em ambientes familiares devido ao teor de suas letras — geralmente histórias de amor que não acabaram bem. O gênero também era chamado de "dor de corno". Com o passar dos anos, as letras mudaram e surgiu o 'brega chique', que passou a ser consumido por uma grande parcela da sociedade. Recentemente, mantendo o tom de amor sofrido, desfeito ou não correspondido, mas com uma abordagem mais romântica, o gênero assumiu o nome atual de "sofrência".
Kyushu: O Japão é constituído por 4 ilhas principais e uma bem pequena: ao norte fica Hokkaido, famosa pelo clima frio; logo abaixo está Honshu, a maior e mais populosa, onde se localiza a capital Tóquio e o importante eixo central com Osaka, Kyoto e Kobe; a menor das ilhas centrais é Shikoku; ao sudoeste situa-se Kyushu, que abriga as cidades de Fukuoka e Kumamoto; e, mais ao sul, o arquipélago de Okinawa.
