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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

𝐎 𝐀𝐍𝐎 𝐐𝐔𝐄 𝐎 𝐏𝐀𝐏𝐀𝐈 𝐍𝐎𝐄𝐋 𝐍𝐀̃𝐎 𝐕𝐄𝐈𝐎.

 

Em 1984, eu concorri pela primeira vez à bolsa de pesquisa do Monbukagakushō (文部科学省 - Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia) no Consulado Geral do Japão em Manaus, mas não fui selecionado. Na época, eu trabalhava como engenheiro na Gradiente - então a maior empresa brasileira de eletrônicos.

Diante da necessidade, na empresa, de profissionais fluentes em inglês e do meu desempenho na prova da bolsa, percebi que havia chegado a hora de aprimorar o idioma.

    Em 1987, concorri novamente e fui selecionado. Entre essas duas tentativas, passei um ano estudando inglês nos Estados Unidos.

Viver no Japão foi uma experiência maravilhosa sob todos os aspectos: o aprendizado da língua, a pesquisa, a cultura, o povo japonês e a convivência com vários estudantes estrangeiros. 

Ao chegar, achei-o um país moderno, parecido com os países do Ocidente em muitos pontos. Ao mesmo tempo, o país mantinha fortes tradições culturais e arquitetônicas, sem mencionar a culinária. O Japão foi muito mais do que eu esperava.  

No Castelo de Kumamoto
       No Castelo de Kumamoto

Fui para o Japão com o objetivo de passar dois anos a partir de 5 de abril de 1988, período máximo permitido pelo meu afastamento. Inicialmente, estudei japonês por seis meses na Universidade de Kyushu (九州大学) - Kyudai (Kyushu Daigaku) -, em Fukuoka, uma cidade extremamente agradável. Após esse período, iniciei uma pesquisa de um ano e meio na Universidade de Kumamoto (熊本大学) - Kumadai (Kumamoto Daigaku) -, na cidade de mesmo nome. Fiquei o prazo mínimo que a bolsa oferece.

Via de regra, o período mínimo em que a grande maioria dos estudantes permanece é de três anos. O percurso mais comum entre os bolsistas consiste em seis meses de estudo da língua, seguidos de seis meses como pesquisador; após esse primeiro ano, o estudante inicia o mestrado. Para mim, essa opção estava descartada. Retornei em 5 abril de 1990.

Dez anos depois, em junho de 2000, voltei ao Japão para um treinamento de dois meses. O curso abordava finanças e desenvolvimento. Durante o treinamento, realizado em Tóquio, visitamos diversas cidades e indústrias, entre elas, a siderúrgica Nippon Steel, em Kitakyushu - que tinha em seu porto, naquele dia, um navio de bandeira brasileira carregado com minério de ferro. Nessa minha segunda ida, o patrocinador foi a JICA (Japan International Cooperation Agency – Agência de Cooperação Internacional do Japão). Essa história vai ficar para outra ocasião.

Foram duas experiências distintas, com cursos diferentes, mas ambas extremamente gratificantes.

O primeiro impacto não foi cultural, mas econômico: os preços. Ao converter para cruzados - a moeda brasileira da época- , tudo parecia muito caro. Depois, decidi parar de converter. Lembrei-me do ditado: quem converte não se diverte.

    Em 1988, eu e os recém chegados bolsistas, que iriam estudar japonês na Kyudai,  fomos alojados em um kaikan privado, porque não havia mais vagas no dormitório da universidade. A minha classe incluía: o libanês Ali Hassan Chahrour, que lá ficou por seis anos até concluir o doutorado em Engenharia Civil; a turca Nalan Kabay, que estudou o doutorado em Química e hoje é uma cientista premiada na Turquia, no Japão e na Inglaterra, tendo retornado ao Japão para pós-doutorado no Instituto Nacional de Materiais Inorgânicos; o malgaxe Edouard Andrianarijaona Razafimanantena, que concluiu doutorado em Matemática e foi vice-prefeito de Antananarivo; o australiano Peter Colless, economista; a boliviana Vivian Lizabeth Reynolds, arquiteta, que cursou o mestrado; e o iraniano Jafar Ghayoumian, que fez doutorado em Geologia e é membro do Instituto de Pesquisa em Conservação do Solo e Gestão de Bacias Hidrográficas do Irã.

Todas as manhãs, íamos quase todos juntos pedalando os quilômetros que separavam o kaikan da Kyudai para as sete horas diárias de aula, que começavam às nove.

Durante o período de seis meses em Fukuoka -  também conhecida como Hakata - fizemos algumas viagens culturais de dois ou três dias para outras cidades, além de excursões de um dia.

    Eu sabia que o Japão era um país pequeno com algumas cidades populosas. Acreditava que, devido à grande população e ao seu relevo montanhoso, não haveria muito espaço para áreas rurais. Para minha surpresa, o Japão possui um campo muito bonito e bem preservado.

No meu não-tão-diário - onde fazia anotações para incluir nas cartas à minha família -, registrei muitas experiências. Nossa comunicação era feita exclusivamente por carta. Havia um telefone no hall do kaikan onde era possível fazer ligações internacionais, mas era muito caro. Geralmente, eu enviava cartas acompanhadas de muitas fotos ou até de uma fita cassete, narrando como estava minha vida.

No dia 15 de julho de 1988, anotei: 

Hoje foi um dia de viagem pela ilha de Kyushu- a ilha do sul. Saímos às 9 horas e fomos para a cidade de Saga visitar a fábrica de pneus Bridgestone. Éramos quase duzentos estudantes: alguns da América Latina, americanos, malaios e africanos, mas a grande maioria era composta por chineses de Taiwan. Dentro do ônibus, havia cerveja, Coca-Cola, café gelado e sucos. Tinha também um monitor para karaokê e um microfone pendurado no teto, que podia ser levado para qualquer parte do ônibus.

Depois da visita à fábrica de pneus, fomos para Kumamoto. Lá, visitamos o canal de televisão RKK e uma emissora de rádio. Gostei de Kumamoto. Em outubro estarei lá.

Dez dias depois, viajamos por dois dias para Honshu, que é a maior e a ilha central do Japão. Ficamos por dois dias em Akiyoshi, onde exploramos uma caverna muito extensa, vistamos templos budistas e o KDD, Kokusai Denshin Denwa, que era uma das principais empresas de telecomunicações do Japão, especializada em serviços internacionais de telefonia e transmissão de dados.

No início da noite, chegamos a Takachiho, localizada na “Prefeitura” de Miyazaki, uma cidade pequena, mas com muitas coisas para serem vistas:  natureza exuberante, cânions com rios e desfiladeiros.

 “Prefeitura” ou ken () em japonês, não tem o mesmo significado que no Brasil; refere-se a uma das principais divisões administrativas do país, equivalente ao que chamamos de estados. No Japão são 47 “prefeituras”.

Jantamos no hotel, todos sentados no chão, e depois fomos levados para assistir a uma dança típica japonesa. Dormi no chão, sobre o tatami (), que é um material composto por uma base de palha de arroz prensada, chamada wara, e coberto por uma esteira de junco - um tipo de gramínea - chamada igusa. Algumas versões modernas utilizam espuma ou outros materiais sintéticos. Era um quarto espaçoso, com mais cinco pessoas. No dia seguinte, fomos a um templo budista e visitamos um vale muito grande, com belas quedas d’água. No início da noite, estávamos de volta a Fukuoka.

O Rurikō-ji (瑠璃光寺) é um templo budista histórico localizado em Yamaguchi, no Japão, famoso por sua pagoda de cinco andares, dentro do Parque Kozan.


Assim era a vida de bolsista: focado no estudo da língua e imerso na cultura japonesa.

Enquanto em Fukuoka, um professor de japonês nos guiou em uma viagem de barco até a Coreia do Sul, de 14 a 20 de agosto. Saímos do porto de Shimonoseki, uma hora de trem de Fukuoka, e de lá navegamos até Pusan (Busan, a partir de 2000). De onde seguimos de trem até Seul. Naquele ano, os Jogos Olímpicos ocorreram de 17 de setembro a 2 de outubro de 1988. Tivemos a oportunidade de visitar o estádio olímpico.

Após completar seis meses de estudo da língua, mudei-me para Kumamoto, onde cheguei no dia 1º de outubro. Fomos alojados no Kaikan da universidade para alunos estrangeiros, e no mesmo terreno havia também um dormitório para alunos japoneses. No início de dezembro, fomos convidados por eles para uma festa e para fazer mochi ou daifuku, bolinhos de arroz recheados com pasta de feijão doce. Fomos eu, a Magali Thiyomi Uono, hoje doutora pela USP em Bioquímica Farmacêutica; a Amélia Mikami, farmacêutica, de Londrina, que tinha um canal no YouTube chamado Horta do Ditian, com mais de um milhão e trezentos mil inscritos - infelizmente, o Covid a levou em 2021; e a americana Karen Akiko. A conversa era ora em português, ora em japonês ou inglês.

Assim era a nossa Babel no Japão. No Bunka no Hi (文化の日), ou Dia da Cultura - que na Kumadai era celebrado por três dias, na nossa tenda - tínhamos direito a uma e vender o que achássemos que valeria a pena - havia estudantes da Indonésia, Canadá, Estados Unidos, Taiwan, China, Argentina, Filipinas, Austrália e Brasil. Nem todos eram bolsistas do Monbushō. Alguns eram patrocinados pela província de Kumamoto, com bolsas de língua e cultura com duração de apenas um ano.

Meu orientador, Fumio Ueno sensei, era uma pessoa muito boa. Ele me colocou em uma sala com um professor jovem, e com um aluno de doutorado. Ele determinou o que eu iria estudar; isso dentro do tema previamente acordado antes de eu ir para o Japão.

Apresentou-me aos dois e disse-lhes: “Vocês vão ajudá-lo no que for preciso.”

No dia 8 de novembro de 1988, tivemos o primeiro de vários jantares na sua casa. Estavam sempre presentes seus orientandos: eu e dois chineses, além de dois professores do departamento de Engenharia Elétrica.

Graças a Deus ele deu essa orientação a eles sobre me ajudarem. No meu diário encontrei no dia 14 de novembro, quarenta e cinco dias após a minha chegada: As coisas estão começando a complicar por aqui. Cada dia meu professor me dá mais coisas para eu estudar. E está cobrando um paper, que disse que pode ser escrito com o estudante de doutorado. 

Minha pesquisa era sobre redes neurais e teoria fuzzy. Redes neurais são modelos computacionais inspirados no funcionamento do cérebro humano, compostos por unidades chamadas “neurônios artificiais”. Já a teoria fuzzy (ou lógica fuzzy) é um ramo da lógica matemática que lida com incertezas e imprecisões. 

A combinação dessas duas abordagens dá origem aos sistemas neuro-fuzzy, resultando em um sistema inteligente capaz de aprender com dados, tomar decisões flexíveis e interpretar informações complexas. Os sistemas neuro-fuzzy representam a fusão de duas técnicas fundamentais da inteligência artificial – que estava engatinhando, muito longe do que se sabe hoje. Essa integração cria um modelo híbrido que combina as vantagens das duas abordagens, exemplificando como diferentes métodos de IA podem ser utilizados em conjunto para resolver problemas complexos.

  Os passeios culturais e de conhecimento não pararam. No dia 13 de dezembro partimos para uma viagem de dois dias a Oita (大分). Saímos cedo da universidade, às 8h30. Todos os estudantes eram de engenharia. Visitamos alguns lugares, incluindo a hidrelétrica de Matsubara. Fazia muito frio nesses dois dias. 

A vida no Japão foi uma sucessão de experiências. Uma das mais marcantes eu narro a seguir, conforme registrada em meu quase-diário. Fugindo um pouco a sequência cronológica, vamos voltar no tempo, para quando fazia apenas duas semanas que eu havia chegado a Kumamoto.

No dia 17 de outubro, fui preso e passei cerca de uma hora na cadeia. Eu estava no supermercado e, como das vezes anteriores, escolhia os produtos e os colocava em uma bolsa que eu tinha. Percebi que uma mulher, discretamente, me seguia pelos corredores, até que resolvi perguntar o que ela queria. Ela foi embora, mas alguns minutos depois voltou com dois policiais grandes, que estavam à paisana. Ela afirmou a eles que eu estava roubando.

   Os policiais pediram que eu os acompanhasse até a delegacia, mas, para não chamar atenção, um iria à frente mostrando o caminho, enquanto o outro seguiria atrás de mim, sem demonstrar que eu estava sendo preso. Ao chegar à delegacia, colocaram-me em uma cela, deixaram a porta aberta e um deles pegou uma cadeira, sentou-se à minha frente e perguntou o que havia acontecido. Expliquei que, durante seis meses fazia isso em Fukuoka, que não estava roubando, que era bolsista e que queria que chamassem o meu orientador. Depois de conversa vai, conversa vem, eles me deram uma folha de papel e pediram que eu descrevesse os itens que estavam na bolsa. Depois, informaram o custo total, e eu paguei ali mesmo para eles. Ficamos conversando e rimos um pouco da situação. Quando o meu orientador chegou, os policiais explicaram o ocorrido e me liberaram.

   Fui para casa abalado, mas muito pensativo na forma como fui tratado. Fiquei impressionado com a preocupação dos policiais em que não tivesse a minha pessoa prejudicada publicamente, mesmo que acreditassem que eu estivesse errado.

  Meu orientador, meio que constrangido pelo ocorrido, no dia seguinte me deu uma bonita caneta de presente.

Kinkaku-ji - Pavilhão Dourado - Kyoto
Kinkaku-ji - Pavilhão Dourado - Kyoto
    No Japão fiquei profundamente admirado com a honestidade e a educação dos japoneses. Desde a forma como as pessoas se cumprimentam até o cuidado com o espaço público. A honestidade é um valor central: é comum encontrar objetos perdidos sendo devolvidos intactos ou entregues às autoridades.         

  Eu realmente acreditava na honestidade dos japoneses, e eles não me decepcionaram. Em julho de 1989, minha mãe veio me visitar. Encontrei-me com ela em Tóquio, onde ficamos em um hotel bem em frente à estação principal de trens.

   Além de visitarmos o Palácio Imperial, andamos pela Ginza Dori -  apelido da famosa avenida Chuo-dori (中央通り), que é para Tóquio o que a Quinta Avenida é para Nova York; subimos na Torre de Tóquio... fizemos todos os passeios tradicionais.

  No nosso último dia na cidade, decidi levá-la à Disneylândia. Saímos do hotel e nos dirigimos à estação em busca de um guarda-volumes. Todos os armários estavam ocupados. Escolhi uma coluna e encostei nossas malas ali. Eu disse: Vamos embora. Quando voltarmos, se elas não estiverem aqui, eu as pegarei nos achados e perdidos.

   É claro que o susto dela foi grande; ela pensou que eu estava fazendo uma maluquice. Fomos e voltamos, e as malas estavam exatamente no mesmo lugar. Hoje seria muito raro algo assim acontecer. Depois do 11 de setembro, o mundo não é mais o mesmo. Duas malas abandonadas em um local público por várias horas seriam apreendidas.

   É óbvio que houve momentos emocionalmente difíceis. Além da “prisão” já mencionada, o período que chamamos de festas de fim de ano foi um deles.

   Kumamoto estava toda enfeitada. O feriado começaria no dia 1º de janeiro e terminaria no dia 4. Mas, apesar da ornamentação, a noite de 24 e o dia 25 de dezembro tinham tudo para serem como qualquer outra noite do ano. Registrei:

   Os dias que antecedem o Natal têm sido meio tristes, apesar de ter vários amigos aqui no Kaikan, em Kumamoto e Fukuoka. A saudade do Brasil nessa época do ano é difícil de superar.

  Enfeitei meu quarto com guirlandas natalinas, Papai Noel e outros enfeites típicos. Coloquei uma guirlanda na porta, pelo lado de fora, o que despertou a curiosidade do Ali kun, o amigo muçulmano, que me perguntou o que aquilo significava.

  Gravei uma fita cassete com um álbum de músicas natalinas de Whitney Houston e as ouvia ininterruptamente por horas. Até hoje, ao ouvir essas músicas, minha mente retorna àquele quarto.

O mais difícil era ouvir a música I’ll Be Home for Christmas, Eu estarei em casa para o Natal. A primeira parte era especialmente tocante:  “Estou sonhando esta noite com um lugar que amo/Mais do que normalmente costumo amar/E embora saiba que o caminho e volta seja longo/ Eu lhe prometo/ Estarei em casa no Natal... ao menos nos meus sonhos."

Felizmente, o dia 24 era um sábado, então não houve escola. Eu costumava ir à missa, em inglês, todos os domingos, às 15 horas, na Igreja Nossa Senhora do Japão, em Tetori, no centro da cidade. Antes da missa, almoçava sempre no Shakey's Pizza, onde tinha um cartão de fidelidade que dava direito a um rodízio grátis na décima visita. Naquela véspera de Natal, fui à missa das 19 horas, e em japonês. Foi uma celebração bonita.

Depois da missa, fui ao Coco Banana, um bar que era o point dos estrangeiros. Em uma sala pequena, de vinte metros quadrados, recebia o triplo de sua capacidade; lá, nós dançávamos e conversávamos. Em um desses dias, no bar, tocou uma música brasileira - um brega daqueles! Este espaço me proíbe de transcrever a letra, mas dei muitas risadas. Curioso, perguntei ao DJ onde ele tinha conseguido aquilo, e ele respondeu: “Foi presente de um brasileiro que estudou aqui.”

Tóquio. No dia do enterro do Imperador Hiroito.

Sou de uma família enorme que sempre comemora o Natal com entusiasmo. Em 1988, foi diferente: naquele ano o Papai Noel não veio. Mas, no dia 25, fui a uma festa que começou às 10h e da qual só saí às 22h - e soube que ela se estendeu noite adentro.

Um grupo de amigos de vários países - Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Nova Zelândia -, todos professores de inglês, reuniu-se para celebrar o Natal. Cada um trouxe comida e bebida, e seus alunos fizeram o mesmo. Eu era o único estrangeiro presente não anglófono.

Na noite anterior, senti muita falta da festa com a família - muitas crianças e adultos, com todos falando ao mesmo tempo - que acontece todos os anos. Também senti saudade do almoço com todos no dia de Natal, mas a animação do dia seguinte amenizou um pouco.

O Ano Novo, este sim, foi bastante diferente. Os amigos viajaram. Eu, Ali Kun e uma amiga polonesa, Diana san, saímos na noite do dia 31 em busca de diversão no centro da cidade. Fomos inicialmente ao Coconut Banana, mas estava fechado. De repente, nos demos conta de que a cidade e os bares - que nunca fechavam - estavam todos de portas cerradas. O motivo era o estado grave de saúde do imperador Hirohito. Voltamos para o Kaikan e cada um foi para o seu quarto. Dormi mais cedo para que o dia acabasse mais rápido. Acordei no dia seguinte com a triste notícia na TV do desastre do Bateau Mouche, que fazia um cruzeiro de Réveillon na Baía de Guanabara.

No dia 7 de janeiro 1989, o imperador faleceu, sendo sepultado em 24 de fevereiro. Nesse dia, eu já estava há um mês em Tóquio, fazendo um curso de Fortran 77 para microcomputadores no Instituto de Tecnologia de Tóquio. 

Morre o Imperador

    Como milhões de pessoas nas ruas, movimentei-me de um lugar para outro sob a chuva e o frio, procurando o melhor ângulo para assistir à passagem do cortejo fúnebre. A cidade estava tomada por uma atmosfera pesada e solene. O itinerário do funeral seguia uma sequência rigorosa: o corpo deixou o Palácio Imperial em um luxuoso carro fúnebre, seguindo em procissão até o Jardim Shinjuku Gyoen, onde foram realizadas as cerimônias religiosas e oficiais com líderes mundiais. De lá, o cortejo partiu para o seu destino final no Mausoléu Imperial de Musashino, em Hachioji, para o sepultamento. A importância do evento era monumental: quando George Bush pai confirmou presença, diversos outros presidentes decidiram comparecer, inclusive o nosso, José Sarney.

São muitas histórias; isto é apenas a ponta do iceberg. Quero lembrar, com gratidão, das amizades que construí - amigos que me ensinaram a admirar ainda mais os japoneses. Visitavam-me com frequência, orientavam-me com generosidade e esclareciam minhas dúvidas. Meu orientador e, sobretudo, o aluno doutorando que dividia a sala comigo demonstraram enorme dedicação e paciência no laboratório de eletrônica.

Guardo com carinho os amigos nikkeis brasileiros e latino-americanos, a convivência nas aulas de japonês e os laços profundos que criamos na residência coletiva.

Ainda em Fukuoka, na igreja, conheci Stephanie Weston - então cônsul dos Estados Unidos e hoje professora da Universidade de Fukuoka - e a chilena Mônica Nanjo, grandes amigas que me apresentaram seus amigos japoneses. Juntos e misturados, viajamos e acampamos na ilha de Amakusa com suas famílias, e depois com minha mãe, em experiências que permanecem vívidas na memória.

Não posso deixar de mencionar minha amiga inseparável, Graciela, matemática argentina; seu compatriota Eusebio Paloque, bacharel em computação; o americano Richard Elbaum, respeitado advogado na região da Nova Inglaterra; o arquiteto paraense Ivan Domingues das Neves e americana Nancy Arne, missionária luterana.

São lembranças que ainda hoje me envolvem em grande nostalgia.

Mais de três décadas se passaram, e essas lembranças continuam vivas em mim. Guardo até hoje uma página de jornal com minha foto jogando futebol no time dos estrangeiros. A reportagem destacava a existência da equipe de gaijins (外人). Eu sou destaque em uma foto grande, não pelas minhas qualidades futebolísticas inexistentes, mas pelo fato de eu jogar calçado com um tênis Bamba - quem se lembra dele? - pouco convencional para a prática esportiva.

Algum tempo depois, ao sentir fortes dores na coluna, ouvi de um médico que, para o meu peso e altura, aquele calçado era totalmente inadequado.

Não esqueço o castelo de Kumamoto, nem o jardim-bosque Suizenji Jojuen da cidade, para onde eu levava todos os visitantes. Guardo também na memória os castelos de Osaka, Nagoya e de Himeji.

Recordo o Castelo de Kyoto e o Pavilhão Dourado - 金閣寺 (Kinkaku-ji) -, as pagodas de Nara e seus bambis passeando livremente entre as pessoas; a ilha artificial no porto de Kobe; as regiões de Shinjuku e Harajuku, em Tóquio; e a Exposição Ásia-Pacífico - Fukuoka 1989, também conhecida como Yokatopia.

Tenho uma história engraçada sobre essa exposição. Como já mencionei, estudei os primeiros seis meses em Fukuoka, mas, quando a exposição começou, eu já morava em Kumamoto. Para os estudantes de Fukuoka, o ingresso tinha 50% de desconto. Na bilheteria, resolvi requerer esse direito.

Aí é que está o interessante: por uma questão de educação, os japoneses não dizem “não” diretamente. É claro que eu sabia disso.

- Eu morava em Fukuoka até poucos meses atrás, posso pagar meia-entrada? - perguntei ao rapaz da bilheteria.

Em qualquer outra parte do mundo, a resposta seria “sim” ou “não” direto. Ali, a resposta era nitidamente “não”, mas ele não queria pronunciar a palavra. Em vez disso, ele disse:

- Saaa! Musukashii desu, ne?

O “Saa” - com quantos “as” você quiser - é uma interjeição. Não tem um significado literal; é como o nosso “Humm...”. Já “Musukashii desu” seria algo como “está difícil ou complicado”. No Japão, essa expressão é frequentemente usada de forma polida para indicar que algo é impossível ou que a pessoa não pode atender a um pedido.

Resumindo: a conversa durou vários minutos. Eu argumentava que, até recentemente, era morador de Fukuoka e, ao final, perguntava se podia comprar com desconto. Isso parecia deixá-lo cada vez mais constrangido. Parei porque um amigo disse: “Deixa de brincadeira! Você quer ouvir ele falar ´não`, mas ele não vai. Compra logo esse ingresso!” Ele comentou que ficaríamos o dia inteiro ali naquele impasse.

Esse tipo de história é perfeita para ilustrar o conceito japonês de Honne (本音 - o que a pessoa realmente pensa) e Tatemae (建前 - o que ela diz para manter a harmonia social).

Entre outras reminiscências que me vêm à cabeça, lembro-me também das cerimônias, em agosto de 1989, relativas ao 44º aniversário dos lançamentos das bombas atômicas, a que assisti com minha mãe em Nagasaki e Hiroshima. É impactante visitar o Museu Memorial da Paz de Hiroshima, onde se vê o que a bomba fez com a cidade e com a população.

Domo de Hiroshima,
também conhecido como Memorial da Paz.

O espaço é pequeno para escrever tudo de que gostaria de me recordar e de também mencionar a minha segunda ida pela JICA. Isso vai ficar para outra oportunidade, embora o meu diário esteja cheio de histórias e me implorando para contá-las.

Para finalizar, gostaria de expressar minha profunda gratidão ao governo japonês pela oportunidade única de estudar no Japão, por meio das bolsas concedidas. Essa experiência ampliou meus horizontes acadêmicos e me proporcionou um crescimento pessoal e cultural. A generosidade e o apoio do governo japonês foram fundamentais para que eu pudesse vivenciar uma educação de excelência e integrar-me à rica e fascinante cultura do país. Agradeço por essa oportunidade transformadora, que certamente influenciou não apenas minha trajetória profissional, mas também a minha vida pessoal. 

Cláudio Nogueira

 

Notas explicativas.

Kaikan: Creio que deu para perceber que se trata de dormitórios ou alojamentos.

Gaijin é estrangeiro. Na realidade, a palavra completa é Gaikokujin, que literalmente significa “pessoa de um país estrangeiro”. Eu a traduzo como "gringo".

No japonês, é muito comum fazer a redução das palavras. Vimos que Kumamoto Daigaku, Universidade de Kumamoto, também é dito Kumadai.

O próprio nome do Ministério, Monbukagakushō, é frequentemente reduzido para Monbushō.
Os japoneses, ao citarem o nome de uma pessoa, acrescentam a palavra san, seja homem ou mulher. Mas em contextos informais ou ao se referir a pessoas mais jovens, podemos dizer kun, como em Ali kun, o libanês. No caso do meu orientador, ele é chamado de sensei, que deve ser utilizado quando nos referimos a professores, doutores ou mestres.

Caboclo é um termo brasileiro que originalmente designava a pessoa de origem mista indígena e europeia, especialmente portuguesa, e que também passou a significar alguém do interior, ligado à vida rural, à terra e às tradições locais, ou originário da Amazônia.

Música brega: há muitas décadas, as músicas "bregas" jamais seriam tocadas em ambientes familiares devido ao teor de suas letras — geralmente histórias de amor que não acabaram bem. O gênero também era chamado de "dor de corno". Com o passar dos anos, as letras mudaram e surgiu o 'brega chique', que passou a ser consumido por uma grande parcela da sociedade. Recentemente, mantendo o tom de amor sofrido, desfeito ou não correspondido, mas com uma abordagem mais romântica, o gênero assumiu o nome atual de "sofrência".

Kyushu: O Japão é constituído por 4 ilhas principais e uma bem pequena: ao norte fica Hokkaido, famosa pelo clima frio; logo abaixo está Honshu, a maior e mais populosa, onde se localiza a capital Tóquio e o importante eixo central com Osaka, Kyoto e Kobe; a menor das ilhas centrais é Shikoku; ao sudoeste situa-se Kyushu, que abriga as cidades de Fukuoka e Kumamoto; e, mais ao sul, o arquipélago de Okinawa

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Triste Advento

    No dia 12 de dezembro do ano passado, enviei duas cartas ao Vaticano: uma ao Cardeal Arthur Roche, Prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e outra ao Papa Francisco, pedindo que a oração do “Glória” não fosse retirada das missas dominicais no Advento. Recebi resposta de ambos.
  Dia 4 deste mês, escrevi minha "tréplica" — desta vez por e-mail — dirigida a vários cardeais, organizados em três grupos, com cartas em português, inglês e italiano. O primeiro texto abaixo é o e-mail enviado na semana passada; o segundo é a carta. 

O Email.

Prezados Pastores, boa tarde !

Em 12 de dezembro do ano passado, enviei, por carta, o texto em anexo — redigido em três línguas, português, inglês e em italiano — à Sua Santidade Papa Francisco e ao Cardeal Arthur Roche, Prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, expondo as minhas motivações e solicitando que o “Glória” também fosse rezado nas missas dominicais durante o período do Advento, visto que ele é suprimido nesse tempo litúrgico.
   Da parte do Cardeal, recebi uma resposta, via e-mail, do Monsenhor Enda Murphy, seu chefe de gabinete; e, em nome de Sua Santidade, recebi uma correspondência não assinada da Conferência Episcopal Portuguesa. A ambos agradeço a gentileza das respostas.
    A mensagem do Monsenhor, enviada em português, após descrever o meu pedido, dizia:
   “Tomamos em consideração quanto nos foi comunicado e agradecemos a sua preocupação e amor à sagrada Liturgia. De facto, como V. Ex.ª bem sabe, não se reza o Glória não apenas no Advento, mas também na Quaresma e nas celebrações feriais. Tal acontece tendo em conta a normativa litúrgica bem fundamentada [o destaque da frase foi dado por mim] e estabelecida a partir da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.
   Para estas e outras questões semelhantes, deverá dirigir-se ao Serviço Litúrgico Diocesano ou à Comissão para a Liturgia da Conferência Episcopal do seu país.”
   Da parte dos bispos portugueses, a resposta, em resumo, foi esta: procure a orientação de um sacerdote.
     Ao comentar o assunto com um padre amigo, ele me disse:
   “A Quaresma é um tempo de preparação, oração, jejum e penitência para a Páscoa; por isso, a Igreja recomenda uma atitude mais silenciosa e introspectiva, em contraste com a alegria festiva do Glória.”
    O Advento é tempo de quê?
   É tempo de alegria, de festa, de celebrarmos a vinda do Salvador — o Deus que se fez carne e veio habitar entre nós.
   Esse raciocínio para mim não está fazendo muito sentido. Esse ano, dia 19 de março, dia da festa de São José, foi dentro da Quaresma; e nesse dia o “Glória” foi rezado.
   São José é mais importante que a atitude mais silenciosa e introspectiva em relação à Paixão de Cristo? Nada contra São José, muito pelo contrário.
    As missas que antecedem o nascimento de Cristo deveriam ser momentos de grande alegria.
   Todos sabem como é o carnaval no Brasil. A festa atinge o seu auge nos cinco dias que antecedem a Quarta-Feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma — o que pode ocorrer em fevereiro ou março.
   A partir das festas de Ano Novo, começam os bailes de carnaval em diversos clubes e casas noturnas, principalmente nos fins de semana que antecedem os dias oficiais da folia.
  E o que acontece? Por mais animados que sejam esses bailes pré-carnavalescos, eles não apagam o brilho nem a euforia do verdadeiro carnaval. Muito pelo contrário: servem como um aquecimento e ajudam a aumentar a expectativa e a ansiedade pela chegada da grande festa.
   Assim deveriam ser os domingos do Advento.
   Essa questão parece corroborar o que me disse outro sacerdote, para minha surpresa:
  “Isso é apenas a ideologia do Papa. Não há nada de dogmático nisso; é apenas uma questão de opinião sobre como deve ser.” Talvez ideologia seja uma palavra forte.
   Ele acrescentou que nunca se preocupou particularmente com o assunto e nem sabia ao certo se a decisão partira de um Papa ou de um cardeal.
  Fico imaginando se, antes do Concílio Vaticano II, alguém tivesse proposto uma mudança — como faço agora — que a missa fosse celebrada no vernáculo. É muito provável que uma ideia assim fosse considerada uma aberração, um absurdo, uma tentativa descabida de alterar uma prática milenar da Igreja. Talvez até uma heresia.
   Entretanto, o Papa Paulo VI teve a coragem de promover uma mudança profunda com o Novus Ordo Missae, reformando uma tradição de séculos. Posteriormente, o Papa Bento XVI, em 2007, com o documento Summorum Pontificum, permitiu a celebração da missa em latim segundo o Missal de 1962 — a chamada Missa Tridentina — declarando que qualquer padre poderia celebrá-la sem necessidade de autorização episcopal.
   O Papa Francisco, por sua vez, adotou posição diferente ao restringir, motu proprio, a celebração da missa em latim. Contudo, há poucas semanas, o Papa Leão ofereceu a Basílica de São Pedro para a celebração da Missa Tridentina.
  Quem, afinal, está certo e quem está errado? Se não se trata de um dogma de fé, tudo pode ser mudado.
  Se alguém tivesse solicitado ao Papa Francisco que suspendesse a Missa Tridentina por considerá-la contrária às decisões do Concílio Vaticano II, provavelmente teria recebido — e a carta com o pedido nem chegaria às mãos do Papa — a resposta de que a decisão de Bento XVI em permitir sua celebração estava “bem fundamentada”.
  Peço aos senhores que leiam a carta em anexo e, se possível, colaborem para que ela chegue até ao Santo Padre. Quem sabe, talvez ele concorde com o meu pedido.
  “Orai sem cessar. Em tudo dai graças.” (1 Tessalonicenses 5,17-18)
  A oração e o louvor não conhecem medida, pois quanto mais se eleva o coração a Deus, mais se cumpre a Sua vontade.
   Desejo a todos um abençoado Advento.
Cláudio Nogueira

A Carta - o pedido

Porto, Portugal, 12 de dezembro de 2024
A Sua Santidade Papa Francisco,
A Sua Eminência Reverendíssima Cardeal Arthur Roche

 Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados.

É com profunda tristeza que percebo a supressão do “Glória” nas missas no período do Advento. Se não me engano, o argumento para essa prática - tanto agora quanto na Quaresma - é que, ao rezá-lo novamente no Natal, o celebraremos com mais entusiasmo. Se essa lógica se aplica, por que não retirar também o “Aleluia” antes da leitura do Evangelho? Geralmente ele é cantado com grande entusiasmo.

Se esse for o real motivo, estaríamos diante de uma situação curiosa: a ideia de que uma oração teria mais valor quando rezada apenas uma vez do que quando repetida várias vezes. É como se a parte fosse maior que o todo.

Alguém, em sua sabedoria, tomou essa decisão, mas ela deveria ser reconsiderada. O que é isso, afinal? Uma fórmula para ajudar na nossa salvação?

O mais interessante é que, no Dia de Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro - que este ano aconteceu em um domingo, mas que mesmo quando é em dia de semana - o "Glória" volta a ser rezado.

- “Mas é um dia especial. É o dia da Mãe de Deus.”

- Sim. Mas todo domingo é o dia do Senhor. E é muito bom proclamar: Nós Vos louvamos, nós Vos bendizemos, nós Vos adoramos, nós Vos glorificamos, nós Vos damos graças por Vossa imensa glória." Já estava na hora de acrescentarmos: Nós Vos amamos.

Esta oração, tão rica e bela, é mais do que um simples canto litúrgico; ela é uma expressão profunda de louvor e contrição que nos conecta diretamente com a essência da fé cristã. Para mim, é mais importante até mesmo do que o salmo. No “Glória”, todos rezamos juntos, nos expressamos; no salmo, na missa, apenas repetimos o refrão. O pior é quando, ao rezar o salmo, tornam a forma mais importante do que o conteúdo, mesmo em detrimento do entendimento.

O “Glória” não é apenas um louvor, mas também um reconhecimento da nossa pequenez diante da grandeza divina. Ao proclamarmos: “Nós Vos damos graças por Vossa imensa glória, tornamos a Eucaristia um verdadeiro momento de ação de graças. Estamos louvando a Deus por Sua majestade infinita.

As Escrituras nos ensinam repetidamente a louvar o Senhor em todas as circunstâncias. O Salmo 150, para citar apenas um exemplo, é um hino de louvor que nos convida a glorificar a Deus:

 “Louvai ao Senhor! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento do seu poder.” (Salmo 150:1). E onde é o santuário de Deus ?

Além disso, São Paulo exorta os cristãos a manterem uma atitude constante de louvor:
Cantando e louvando de coração ao Senhor, sempre dando graças por tudo a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Efésios 5:19-20)

Embora o “Glória” seja, em essência, um hino de louvor, ele também carrega um pedido de misericórdia. Quando dizemos: “Vós que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós”, pedimos perdão, reconhecendo que somos pecadores. Não podemos perder/retirar essa oportunidade, muito menos dentro de uma missa: “Estai vós também preparados; porque, numa hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.” (Mateus 24:42-44). Pedir perdão ajuda nos prepararmos: “Mas Deus lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:20)

Ao pedirmos perdão reconhecemos nossa necessidade de redenção e o poder salvífico de Cristo. O nosso pedido iguala-se ao clamor do cego Bartimeu no Evangelho, que pediu:
 -  “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” (Marcos 10:47)

Retirar o “Glória” da celebração significa privar os fiéis de um momento essencial de encontro com Deus: o louvor que nos eleva espiritualmente e o pedido de misericórdia que nos redime. Esta oração não é um simples ritual, mas um convite à comunhão com o céu, onde os anjos proclamam incessantemente:

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados.” (Lucas 2:14)

Preservemos, portanto, este tesouro da nossa liturgia, recordando sempre que o louvor e a contrição caminham juntos na jornada da fé.

Da minha parte, continuarei rezando silenciosamente o “Glória”. Tenho certeza de que se eu não for para o céu, não será por causa disso.

Outra observação que gostaria de fazer diz respeito aos paramentos. O Advento é um tempo de esperança, mas utiliza-se uma cor litúrgica associada ao luto, semelhante à da Quaresma. Há, contudo, uma exceção especial, como no dia de Nossa Senhora da Conceição e o terceiro domingo do Advento, conhecido como Domingo Gaudete, o domingo da alegria, que celebra a proximidade do nascimento de Cristo. Assim, todos os domingos deste período deveriam ser marcados por alegria e felicidade, refletindo a esperança pela chegada do Menino Jesus.

Vem Senhor Jesus ! Nossa Senhora de Guadalupe, rogai por nós.

Reze por minha família, que eu rezo por vós.

 01/12/2024. Primeiro domingo do Advento.

 Cláudio Nogueira

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

São Martinho

   Ontem foi um dia tenso para São Martinho, muito diferente dos outros 11 de novembro, que costumam ser o melhor dia da sua morte. Ele ama essa data.
     Em todas as missas, o seu feito - cortar a capa ao meio com a espada e dar a metade a um mendigo para que se protegesse do frio - é lembrado.
      Ele adora isso. Fica ansioso para que chegue logo esse dia.
    Mas ontem foi diferente. Ao olhar para baixo, levou um susto. Logo ao amanhecer, havia nuvens escuras e outras cinzentas. Nenhum sinal do sol.
     Desesperado, correu à sala de São Pedro e disse:
     -  Pedro, que nuvens são essas? O que está a acontecer?
     Com um olhar meio vaidoso, acrescentou:
     -  Hoje é o dia do Verão de São Martinho, percebes? É o dia em que toda a gente...
(aqui sua voz perdeu força, o semblante entristeceu um pouco)
...toma vinho e come castanhas. Esqueceste, pá?
    São Martinho era um soldado romano que, numa noite fria de novembro, dividiu a sua capa ao meio    com um mendigo para o proteger do frio. Diz a lenda que, nesse momento, o clima mudou, surgindo    um breve período de sol, que os seus devotos passaram a chamar de Verão de São Martinho. As chuvas constantes do outono dão, neste dia, uma trégua ao sol e deixam-no brilhar.
    Nessa época, terminam as colheitas de outono: as uvas viram vinho novo, as castanhas estão maduras e prontas para assar, e toda a gente celebra a fartura e a generosidade. É por isso que, nesse dia, se prova o vinho novo e se comem castanhas assadas, em festa e memória do santo.

    -  Pedro, no dia de São Genaro, o sangue coagulado dele torna-se líquido novamente, e no meu dia não chove, é como se fosse um dia de verão. Que nuvens escuras são essas?
    - Acontece que, este ano, me distraí e choveu muito pouco no mês de outubro. Foram vários dias de sol, um verão prolongado. Preciso recuperar. Há muita nuvem que precisa ser descarregada, e não posso dispensar mais nenhum dia, comentou São Pedro.
    -  Não posso acreditar no que estou a ouvir! Logo no meu dia queres mandar chuva para a terra? Não podes deixar isso para amanhã? Queres acabar com o meu prestígio?  — perguntou São Martinho.
   Depois de um breve bate-boca, chegaram a um acordo: às 10 horas o sol brilhava. Mas, à tarde, São         Pedro estava meio impaciente e colocava nuvens sóbrias, ofuscando o sol.
   São Martinho, ao ver isso, murmurou:
   -  Pedro... calma-te. Não me obrigues a pedir ajuda ao “Chefe”.
   São Pedro respondeu:
   - Está bem! Mas assim que escurecer, mando a chuva. O que não consegui enviar hoje, mandarei amanhã.
    Promessa feita. Promessa cumprida.

    Cláudio Nogueira

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

𝐇𝐚𝐥𝐥𝐨𝐰𝐞𝐞𝐧 𝐞́ 𝐏𝐞𝐜𝐚𝐝𝐨 ?

 Carta aberta aos Bispos do Brasil

Ainda sob o espírito sinodal que inspira o diálogo e a escuta, escrevo esta carta para pedir ajuda em uma dúvida que me inquieta: afinal, o Halloween é pecado?

A origem da minha pergunta — ou melhor, da minha dúvida — vem da experiência que vivi durante alguns anos nos Estados Unidos e no Canadá, tanto sozinho quanto com a minha família. Nesses países, a festa realizada na véspera do Dia de Todos os Santos é amplamente celebrada também por comunidades cristãs.

Falo com conhecimento de causa: nas igrejas católicas, por exemplo, é comum ver o padre, ao final da missa, dirigir-se à porta do templo para cumprimentar os fiéis com um cordial “Happy Halloween!”. O mesmo ocorre em diversas denominações cristãs, e disso sou testemunha ocular nas cidades em que vivi ou passei uma temporada: Miami e Gainesville (Flórida), Atlanta (Geórgia), Baton Rouge (Louisiana), White Plains (Nova York) e Ottawa (Canadá).

Faço essa observação antecipando-me a uma possível objeção de que o Halloween seria uma celebração restrita a certas regiões ou contextos específicos. Mesmo entre familiares que residem em Chicago e Los Angeles, regiões tão distintas, percebe-se o mesmo costume.

Devem estar se perguntando, então, onde está a dúvida. A razão dessa incerteza nasce da quantidade de vídeos que circulam nas redes sociais, em que padres brasileiros afirmam, com todas as letras, que o Halloween é pecado.

Diante do exposto a minha pergunta é: como eles chegaram a essa conclusão ?

Seria, por acaso, um pecado regional? Não é pecado no hemisfério norte, mas passa a ser no hemisfério sul?

E por falar em “norte”, parece-me que é um direcionamento que está faltando. Por isso, espero que os senhores sejam essa bússola a nos orientar.

A palavra Halloween tem origem na expressão inglesa antiga All Hallows’ Eve, que significa literalmente “Véspera de Todos os Santos”. O termo “Hallow” é uma forma arcaica de “santo”, derivada do inglês antigo halga, enquanto “Eve” quer dizer “véspera”, como em Christmas Eve (véspera de Natal). Com o passar do tempo, a expressão All Hallows’ Eve foi sendo abreviada na linguagem popular: primeiro transformou-se em All Hallows Even, depois em Hallowe’en e, finalmente, na forma moderna Halloween. Assim, a própria etimologia da palavra revela seu vínculo direto com a tradição cristã, pois designa o dia 31 de outubro, a véspera da festa de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro.

A Eternal Word Television Network (EWTN) publicou (https://ewtnvatican.com/articles/true-origins-of-halloween-a-celebration-steeped-in-catholic-tradition-1788 ) um artigo com dois títulos: The Origins of Halloween: A Catholic Celebration Rediscovered” (As Origens do Halloween: Uma Celebração Católica Redescoberta) e Is Halloween a Catholic Feast?” (O Halloween é uma Festa Católica?).

Após abordar as origens da festa e da palavra, o último parágrafo do artigo diz:

Abraçando o Halloween com Intenção Católica

O Padre John Wauck, professor de literatura na Pontifical University of the Holy Cross (Pontificia Università dela Santa Croce), em Roma, encoraja os católicos a reivindicarem o Halloween como um dia conectado à sua fé. “O Halloween deveria ser celebrado em toda a sua inocência”, diz ele. “Não há nada de errado em se fantasiar e ir pedir doces (trick-or-treating); na verdade, é uma coisa encantadora. Mas não devemos esquecer a sua conexão com o Dia de Todos os Santos. É importante lembrar, especialmente para as crianças, que o Halloween é uma vigília de uma grande festa.”

Enquanto católicos em todo o mundo se preparam para o Halloween, as palavras do Padre Wauck nos lembram de abordá-lo com reverência por suas origens, ensinando as crianças a celebrarem não apenas com diversão, mas também com fé.

No site da Holy Trinity. Catholic Church and School (Santíssima Trindade. Igreja e Escola Católica (https://holytrinitydm.org/happy-hallowtide/) encontramos Happy Hallowtide !

“Hallowtide” (ou All hallow tide) é um termo usado na Igreja Católica e em outras tradições cristãs para se referir ao período litúrgico de três dias, conhecido como Tríduo das Almas, que se foca na comunhão entre a Igreja triunfante (os santos), a Igreja sofredora (as almas no Purgatório) e a Igreja militante (os vivos).

Neste site, em um texto assinado pelo padre Mark Neal, que também começa explicando a etimologia da palavra Halloween, pergunta e responde:

É verdade que a celebração Católica do Halloween tem algumas raízes pagãs?

O Halloween é uma festa católica. Não tem origens no paganismo, Samhain, festivais druidas, ocultismo ou Satanismo. Este equívoco comum é relativamente novo, com raízes que remontam à Reforma Protestante, e não tem base em fatos históricos.

Poderia, com base em várias citações de sites católicos, afirmar que não há nada de errado em celebrar o Halloween — muito pelo contrário. Nesses dias, diversas paróquias publicam convites para a festa das vésperas do Dia de Todos os Santos.

Abaixo seguem apenas dois exemplos. Mas existem vários: 

A paróquia de St. Peter the Apostle (São Pedro Apóstolo), localizada na cidade de River Edge, em Nova Jersey, publicou um convite para “Festa de Halloween do Grupo de Jovens” no dia 26 de outubro de 2025, para o seu grupo de adolescentes.

Exorcist Warns Parents: 4 Things to Know About Halloween as a Catholic –  EWTN Great Britain

Coisas que um Católico Deve Saber sobre o Halloween

1. Halloween tem sido uma celebração Cristã desde o início do século 8. O Papa Gregório III a instituiu pela primeira vez.

2. “Halloween” vem de “All Hallows' Eve” (Véspera de Todos os Santos), referindo-se à noite anterior ao All Hallows' Day (Dia de Todos os Santos).

3. Allhallowtide (Tempo de Todos os Santos) é o período de três dias da All Hallows' Eve (Véspera de Todos os Santos/Halloween), All Hallows' Day (Dia de Todos os Santos) e All Souls' Day (Dia de Finados). Este é um tempo para honrar os santos e orar pelos mortos.

4. É possível celebrar o Halloween de uma forma divertida, segura e doutrinalmente sólida!

Na América do Norte, o Halloween é uma festa que possui duas características marcantes. A primeira é que as crianças batem nas portas das casas dos vizinhos do bairro pedindo guloseimas, o famoso “trick or treat”, ou seja, “nos dê algo doce ou faremos travessuras”. E as pessoas já estão preparadas para isso.

A segunda característica é que os participantes estejam fantasiados de qualquer coisa, e quem mais se diverte são as crianças. Além dessas tradições, a festa inclui comidas, bebidas e atividades para os pequenos, podendo ocorrer tanto em ambientes fechados quanto ao ar livre.

Em Ottawa, em 2007, ao final da missa dominical, o padre desejou um feliz Halloween na porta da igreja e distribuiu um panfleto indicando a hora e o local da festa: First United Church. Isso mesmo! O padre sugeriu que os fiéis se dirigissem para onde aconteceria a celebração: em uma igreja evangélica. Isso que é ecumenismo !

Já em Gainesville, em 2013, participamos de um evento similar no zoológico da cidade.

No Brasil, alguém inventou a ideia equivocada de chamar a data de “Dia das Bruxas” e associá-la a algo satânico. Portanto, alguns afirmam que o Halloween é pecado. Não tem absolutamente nada a ver. Por conta disso, há quem veja o que não existe: coisa do diabo, etc., etc. Só se for um Halloween tupiniquim.

Não seria melhor verificar antes de generalizar? Pelo que sei, a Igreja Católica no Brasil não condena o carnaval. Se há carnaval que é festa da carne, há carnaval que é uma festa familiar. Distorções sempre existirão. Quem diz que a festa do Halloween é pecado, será que algum dia participou de uma? 

Diante dessas visões tão distintas, recorro aos senhores, Pastores da Igreja no Brasil, pedindo uma palavra de discernimento. Gostaria de compreender, à luz da fé católica, se essa celebração — que em tantos lugares assume um caráter familiar, comunitário e cultural — realmente contradiz os valores cristãos, ou se pode ser vivida de forma saudável, sem ferir nossa fé.

Peço, portanto, humildemente, que esta questão seja acolhida como expressão sincera de quem busca viver a comunhão e a verdade do Evangelho, evitando julgamentos precipitados e desejando apenas agir com reta consciência diante de Deus.

Pelas minhas vivências e experiências, ainda não percebi onde estaria o pecado. Por essas mesmas experiências e pelas bênçãos da Igreja Católica nos lugares onde ocorreram, recuso-me a aceitar que seja pecado, até que se prove o contrário.

Com respeito e fraternidade em Cristo.

Cláudio Nogueira


Meus filhos no Halloween no zoológico de Gainesville, Flórida, em 2013


Em Ottawa, Canadá, em 2007


                                        

Em Ottawa, em 2012