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terça-feira, 19 de março de 2013

Cruzadas


Meu querido Babá.

Eu leio os teus textos, que alguns erradamente dizem ser anticlerical (El Che Papa). Eu não concordo com isso. Eu sou da mesma idade que o Públio Caio. Na realidade, sou exato dois meses mais velho. Eu falei mamam e papa, antes dele. Nossa participação, quando jovens na Igreja, se deu conjuntamente, no nosso clube de jovens da igreja Nossa Senhora Aparecida. Portanto, sendo contemporâneo dele, sou formado, como disseste, pela doutrina do papa gordo e bonachão. Consequentemente, sou pós-Vaticano II, também, mais condescendente com as pessoas que não rezam pela nossa cartilha, a Bíblia; ou não rezam de forma nenhuma. Acompanho a tua caminhada de libertação... Esse assunto mal resolvido que deve estar preso no teu coração todos esses anos.  E ao invés de pagares 200, 300 reais por uma consulta com um terapeuta, compartilhas conosco os teus sentimentos, ou fantasmas: "Eu fiquei mais amargo, rancoroso e ressentido." Conte sempre comigo, pois se escreves e divides conosco, certamente, esperas que entendamos as tuas ideias e pontos de vista; que sabes muito bem, que não é uma verdade universal, e nem é compartilhado por todos. Mas estamos aqui para te entender. Esse é o dever de todo cristão: amar e tentar entender o próximo, mesmo quando não concordamos com suas ideias, mas vamos tentar ter um pouco de empatia. Santo Agostinho orava: “Ajudai-me Senhor a suportar o que o próximo tem de incômodo.” Isto é, nem sempre o que os outros dizem nos agrada. "É que Narciso acha feio o que não é espelho."
Em muitíssimas coisas avançaste com o tempo. Evoluíste do rádio a válvula, com muita estática, para a Internet. Em outras coisas avançaste mais que o tempo. Espero que esses textos cuja figura central é o Papa ou a Igreja, (O PAPA NO BECO DA BOSTA: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=1020) te ajudem a avançar também. Te ajudem a colocar pra fora, a desbloquear a tua mente, na figura papal, ou no papa da tua infância, e consigas, como conseguistes em outras áreas, passar para o estágio seguinte... ou para o papa seguinte, o bonachão.
Escreve, continua escrevendo, e conta com as minhas orações. Se lembrar da Cruzada te causa um certo mal estar, te liberta dela. Nós somos pessoas diferentes, e absorvemos as coisas de forma diferente. Meus quatro filhos me mostram isso todos os dias. Eu ensino as mesmas coisas aos quatro, e cada um reage de uma forma totalmente diferente. Lamento que a Cruzada tenha sido para ti uma coisa desastrosa; espero e rezo que essa experiência negativa desapareça da tua mente. Felizmente, nem todos que dela participaram têm o mesmo sentimento, nem todos a consideram " uma aberração, que usava crianças para o exercício da intolerância."
Quando éramos crianças e estudávamos no Colégio Nossa Senhora Aparecida, todas às vezes que encontrávamos com um aluno do Grupo Escolar Cônego Azêdo, digo, Cônego Azevedo, nós praticávamos o que hoje se chama de bullying. Será que estávamos sendo usados por alguma freira (que nem se encontrava por perto) e não sabíamos? Ou era apenas traquinagens e peraltices infantis ?
 Seja como for,  todos devem respeitar a tua experiência; e talvez um possível trauma que isso possa ter te causado. Provavelmente muitos dos teus e meus irmãos e irmãs, e amigos vossos que dela participaram, gostariam muito de voltar aos tempos da Cruzada na Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Muitos relembram com água nos olhos, as orações, os cânticos, a inocência e os amigos. Mas todos têm que respeitar, se o teu sentimento não é o mesmo. Ah! Como eles adoraram terem sido enganados pelo Papa. Azar deles de não terem a tua inteligência. Ou seria paradoxalmente sorte deles? Porque até hoje não tiveram a percepção de que foram enganados, e assim sendo não sofrem, mas vivem de uma lembrança que muitos consideram uma infância feliz.
Hoje é um lindo dia: “O dia que o Senhor fez para nós”. Dia de São José, meu santo favorito. Patrono Universal da Igreja Católica e Padroeiro do Canadá. O dia começou lindo, todo branco. Em dois dias estaremos, aqui no hemisfério norte, na primavera; para muitos a mais linda das estações; aí, vocês, no outono. E na nossa querida Manaus, a continuação do chuverno. Dia lindo, frio e muita neve. Pneu furado. Estou trocando o pneu numa situação terrível, digo, um dia lindo e abençoado. Um sujeito, um vizinho do nosso prédio, que nunca vi mais magro, para o carro, abre a mala, tira um macaco hidráulico, uma parafusadeira elétrica, e me ajuda a trocar o pneu. E diz: “às 17 horas eu volto do trabalho, eu levo esse pneu na borracharia de um amigo, e consertamos o pneu.” Ele vai embora e a tempestade de neve continua.
Um dia lindo, dia do glorioso São José. Em Montreal encontra-se o maior templo do mundo dedicado ao santo. Grandioso, no alto do Mont Royal, ou Mont Real. Na base do monte, o seminarista Manoel Bessa Filho estudou.
Juntei tudo isso: A solidariedade daquele homem e as palavras do Pope Francis ou François (por essas bandas ele é chamando assim) ditas hoje: "Hoje em meio a tanta escuridão precisamos ver a luz de esperança e sermos homens e mulheres que TRAZEM ESPERANÇAS PARA OS OUTROS. Proteger a criação, proteger cada homem e cada mulher, olhar por eles com ternura e amor, é abrir um horizonte de esperança, é deixar um raio de luz atravessar nuvens pesadas." Por isso decidir me solidarizar contigo.

Gostei muito desse Papa Chiquinho. Olha aí de novo: percepções diferentes da mesma realidade. 
Ops ! No terceiro milênio Francisco não é mais Chico, é Fran; me corrigiu no face, a Ângela Dile Bessa Freire. Mas quando penso na Igreja, não é na figura papal que me apego (tão somente). Penso no glorioso São José, em madre Tereza de Calcutá, irmã Dulce, São Francisco de Assis, em João Paulo II, que ajudou a derrubar o Muro de Berlin (como escreveu seu fiel escudeiro e biógrafo, Cardeal Dziwisz). Penso em Puebla e Medellin com suas opções preferenciais pelos pobres. Penso no Brígido Nogueira, na Eliza Bessa Freire. Penso naqueles que se fizeram cabocos e abandonaram o Primeiro Mundo há mais de sessenta anos atrás para viver no Quarto Mundo, cheio de  mosquitos e carapanãs, tudo para ir até os confins do mundo pregar o Evangelho. Penso na irmã Nete, amiga nossa que se mandou para morar na África, num vilarejo que não tem absolutamente nada além de malária. Penso numa religião exigente, de um Cristo exigente; que não me deixa fazer o que eu quero. O Cristo que manda que eu ame os meus inimigos. Penso num Cristo que diz: “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no reino do céu, mas quem faz a vontade do meu Pai que está no céu.” Penso numa Igreja que errou muito (nada pior que a Inquisição) constituída de homens santos e pecadores, mas cujos pecados, não servirão para eu negociar com Cristo a redução da minha pena. Penso numa igreja fundada por Pedro, Paulo e apóstolos. Numa Igreja que tem de fazer tudo que o seu Mestre mandar; como disse Maria nas Bodas de Caná. Penso numa Igreja, que veio com um manual de instrução; desta forma, gostemos ou não, alguns preceitos são inegociáveis.Penso numa religião monogâmica (isso não tem o menor sentido na era do Viagra). Penso em me tornar muçulmano. Penso numa Igreja que diz “ Deus nunca cansa de nos perdoar, nós é que cansamos de pedir perdão.” Numa Igreja que divulga o perdão ao Filho Pródigo (Evangelho de 9.3.13), uma Igreja que diz: “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra.” ( Evangelho de 16.3.13). Penso em Cristo vivo na Eucaristia, e definitivamente penso na mãe dele, na nossa mãe, em Maria Santíssima. 
Babá Jesus te ama, eu te amo e o Fran (vixe ! vixe !) também.
Uma abençoada Quaresma, e uma feliz Páscoa.

Cláudio.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Renúncia de João Paulo II


Erro de digitação

Possivelmente o(a) prezado(a) e-leitor(a) deve estar pensando: Ele se enganou e digitou João Paulo II ao invés de Bento XVI. Porque, hoje 28 de fevereiro de 2013 - dia dos 77 anos da minha querida tia Damiana Queiroz, a Dadazinha, que eu amo muito - quem renunciou às 20 horas em Roma, foi o cardeal Ratzinger. Contudo, meus amigos e minhas amigas, vos afirmo que o texto é sobre a renúncia de João Paulo II. Espere somente um pouco que  logo chego lá.

Dois Papas
Considerando que o assunto é renúncia papal, vamos registrar o que o Vaticano divulgou essa semana: Bento XVI terá o título de Papa Emérito. Bento XVI não deixará de existir; e o Cardeal Joseph Ratzinger não voltará a tomar posse daquele corpo. Ele continuará a ser chamado de sua santidade. 
Isso é uma novidade muito grande. Teremos dois papas, e desta vez não vai ser um em Avignon, na França e outro em Roma, como da última vez. Os dois morarão no Vaticano. Bento XVI não será ex-Papa, ele será um Papa aposentado.
Quando um bispo completa 75 anos, ele tem que se aposentar compulsoriamente; isto é, ele deixa de ser o administrador de sua prelazia, diocese ou arquidiocese, e é substituído por outro; mas, todavia, contudo, não obstante, não deixa de ser bispo. Torna-se o bispo emérito da sua diocese. Assim, teremos um papa e um papa emérito pela primeira vez na história da Igreja, considerando que há seiscentos anos atrás, quando o último papa renunciou, os bispos, exatamente como os papas, morriam no cargo. Bento XVI será não somente o primeiro papa emérito, como o primeiro bispo emérito de Roma. Isto eu já havia afirmado no post abaixo, muito antes do Vaticano se pronunciar a respeito.  Na realidade, o bispo de Roma, é o primus inter pares, o primeiro entre iguais, e por ser o bispo de Roma, sucessor de São Pedro é que se torna papa 

Dom Paulo Evaristo Arns pede a renúncia 

No texto do post abaixo "O Pastor Alemão ou Non Habemus Papa".http://www.nogueiraclaudio.blogspot.ca/2013/02/o-pastor-alemao-parte-ii-ou-non-habemus.html
sobre a renúncia de Bento XVI (que os seus desafetos na impressa gostam de chamá-lo de Rottweiller de Deus), creio ue de certo modo ficou subentendido que a renúncia por questões de idade e/ou saúde poderá ser uma rotina entre os futuros papas, como é com os bispos. Bento XVI deu o exemplo. Talvez não seja bem assim. Talvez ele tenha recebido esse exemplo de João Paulo II. Como ?



Escrevi no post abaixo:  “Os bispos têm de renunciar aos 75 anos de idade, por razões físicas, mentais, etc. Os cardeais com 80 anos não votam nem podem ser votados no Conclave (= com chaves = trancados). E por que o Papa não deve renunciar? Esse argumento já foi usado por D. Paulo Cardeal Arns quando João Paulo II estava na reta final. Ele sabia que quando um Papa está debilitado, a Igreja é administrada pela Cúria Romana. Na época achei um absurdo, uma falta de respeito, desumano, até mesmo falta de fé? Quem não acharia até segunda-feira desta semana ? Todo mundo achava.”

Vamos dar oportunidade para o próprio Dom Paulo Evaristo Arns se explicar. Em 2004, ele fez a seguinte declaração: "Sim, chegou a hora do papa renunciar para que a Igreja possa continuar respondendo às mudanças históricas e para este momento crítico que estamos passando”.  João Paulo II faleceu em abril do ano seguinte.
Muito antes disso, declarou: “Eu falei com ele [João Paulo II] sobre isso com toda a simplicidade. Indiretamente, perguntei-lhe se não era demais para ele [as obrigações que tinha]. Esta foi a sua resposta: ‘Paulo, daqui até aqui (apontando do peito até a cabeça) eu me sinto bem. Eu sou a mesma pessoa que era quando fui eleito para o papado. Eu não vejo qualquer razão para renunciar porque minha cabeça, meu coração e meus órgãos estão todos bem’"
Esse encontro ocorreu quando o Cardeal Arns ainda ia a Roma regularmente, como arcebispo de São Paulo. Dom Paulo Arns se aposentou das suas funções em 9 de abril de 1998, aos 76 anos. "O papa tinha alguma dificuldade para andar, mas nós andamos para cima e para baixo no corredor. Nós falamos em alemão. Ele fala alemão claramente, e eu também, pois era a minha segunda língua em casa.”
Mesmo sugerindo a renúncia D. Paulo Arns dizia na época, que o Papa estava ciente de suas responsabilidades:  "Esta consciência tem a ver com o espírito de fé, de inteligência e das coisas que estão acontecendo ao nosso redor...Se ele acha que nem tudo está em ordem, então é provável que ele continue a aguardar até que o nome de um novo papa comece a germinar nos corações dos cardeais". Será que Bento XVI acredita que  esse nome já germinou ?

A Possibilidade de Renúncia

Em 1998, João Paulo já tinha 78 anos, e desde de 1991 tinha Mal de Parkinson e a renúncia já tinha passado pela sua cabeça. Com esse idéia em mente convocou  alguns auxiliares, entre eles o Cardeal Ratzinger. Quem nos narra esse episódio é o Cardeal Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia, Polônia, que por quarenta anos foi o secretário particular de Karol Wojtyla: “Sobre a questão da renúncia. Eu gostaria de destacar que João Paulo II realmente lidou com essa questão mesmo antes do ano de 2000 [Ano do Jubileu]. Paulo VI tinha decidido excluir os cardeais acima de oitenta da eleição papal. Similarmente, João Paulo II se perguntava se o Papa não estaria obrigado a deixar o cargo quando chegasse aos oitenta, ou, como ele pois no seu testamento, se o seu aniversário de oitenta anos não significaria que a hora tinha chegado [ele fez oitenta anos em 2000] ‘para dizer como Simeão da Bíblia, Nunc dimittis.’” “Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, segundo a tua palavra (Lucas 2: 29).
“O Santo Padre, portanto, decidiu consultar os seus colaboradores mais próximos, entre eles  o Cardeal Ratzinger, prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. E, depois de refletir e examinar os documentos deixados por Paulo VI sobre o assunto, ele chegou a conclusão que ele deveria se submeter a vontade de Deus – isto é, que ele deveria permanecer no cargo pelo período que Deus desejasse mantê-lo lá. ‘Foi Deus que me chamou. Ele vai me chamar de volta, também, de acordo com a sua vontade.’
“Ao mesmo tempo, João Paulo II  trabalhou em um procedimento de renuncia caso ele não mais fosse capaz de exercer sua missão papal. Você vê, que ele realmente teve sérios pensamentos sobre a possibilidade de renunciar. E ainda assim, ele decidiu  fazer a  vontade de Deus até o fim. Ele aceitou sua cruz. Ele queria seguir o exemplo de Cristo e carregar seu fardo até o fim de sua vida.”
Talvez por isso a impressa tenha dado destaque as palavras do Cardeal Dziwisz, sobre a renúncia do Papa Bento XVI, causando um certa controvérsia: “Você não desce da cruz.” Essa expressão parece ter sido editada, ou dita dentro de um contexto, porque em uma entrevista para EWTN – Global Catholic Network News, ele disse:  Nós devemos aceitar a vontade de Deus. A decisão foi cheia de oração, reflexão e o Santo Padre certamente não pode ter feito isso facilmente.[Eu] Estando  por muitos anos perto de João Paulo II, eu sei que essas decisões custam muito. E esta decisão foi difícil, mas corajosa.”

 Idade é problema ?

João Paulo II foi papa até completar 85 anos, 1 mês e 16 dias. Bento XVI até hoje, com  85 anos, 10 anos e 12 dias. Então de agora em diante os papas vão renunciar quando completarem 85 anos? Não exatamente. Já foi dito repetidas vezes que os bispos se aposentam  compulsoriamente aos 75 anos de idade. Na realidade, ao completar essa idade, o bispo tem que apresentar a renúncia da administração da Igreja local que é o pastor, mas cabe o papa aceitá-la ou não. Dom Paulo Arns foi arcebispo de São Paulo até os 76 anos e meio. O sucessor do Cardeal Karol Wojtyla na arquidiocese de Cracóvia ficou no cargo até os 78 anos de idade. Só saiu após a morte do Papa João Paulo II, para ser substituído pelo Cardeal Dziwisz. Mas o campeão de permanência no cargo pós-75 anos foi o Cardeal Kazimierz Świątek, que foi arcebispo de Minski-Mohilev, na Bielorússia até a sua morte aos 96 anos, em 2011. É a inversão da regra, bispo morrendo sem se aposentar, papa se aposentando sem morrer.
Contudo, o primeiro passo foi dado, ou o primeiro exemplo. Agora já temos Papa emérito, só falta agora os filólogos criarem o coletivo de papas.

Cláudio Nogueira