A Missa no Barco.
Navegávamos pelo rio Solimões; era sábado, 22 de julho de 1978. Saímos de Manaus com destino a Coari. Estávamos indo para a ordenação episcopal de Gutemberg Freire Régis, padre redentorista (CSsR), que após quatro anos, desde a sua escolha, finalmente seria sagrado bispo prelado de Coari. Iria suceder a Dom Mário (Robert) Emmert Anglim, missionário americano naturalizado brasileiro, primeiro prelado de Coari, que havia morrido há cinco anos.
Eu tinha
dezenove anos. Todos os outros passageiros tinham mais que o dobro da minha idade;
a bordo vários leigos e muitos religiosos. Eu estava ali graças a dona Edina
Freire, "secretaria-em-chefe" da paróquia de Nossa Senhora Aparecida,
conduzida pelos padres da Congregação do Santíssimo Redentor, sede da vice-província
de Manaus. Eles tinham paróquias em Manaus (5), Manacapuru, Anamã, Anori,
Codajás e Coari, no Amazonas; e em Belém, no Pará.
A bordo tinha um padre muito simpático com quem conversei algumas horas. E em determinado momento de nossa conversa, ele lhe disse: estou ouvindo que na semana que vem vai ser a sagração do novo bispo de Itacoatiara. Ele comentou: "Sou eu e você está convidado".
Era o padre Jorge Eduardo (George
Edward) Marskell, canadense, padre da Sociedade de Scarboro para as Missões Estrangeiras, SFM. Foi bispo prelado de Itacoatiara de 30
julho de 1978 até sua morte em 2 de julho de 1998. Ambos seriam os segundos prelados de suas respectivas prelazias.
Devido a minha
pouca idade, na hora das refeições, eu ficava, num canto, recolhido a minha
insignificância. Só me aproximava da mesa, que as pessoas se serviam, e
procurava um lugar para me sentar, quando todos já estavam almoçando.
Percebendo que corria o risco de ficar com fome, dona Teresa Paixão me adotou.
Ela servia um prato e me entregava. Acertava com precisão o tamanho do meu
apetite. Nunca me esqueci disto; e após a sua morte, tento retribuir a
gentileza rezando por ela.
À noite, escuridão total. Só as luzes do barco na imensidão da selva amazônica. Nada de luzes da cidade ofuscando a visão. Era deslumbrante olhar para o céu e ver trilhões de estrelas. O barco correndo ofegante, subindo o rio amarelo, cercado de verde por todos os lados. Ia margeando a mata para fugir da correnteza mais forte no meio do rio. Por isso o caminho de ida, subindo, era mais longo e muito mais demorado do que o de volta. E quando o Solimões se encontra com as águas um pouco mais escuras do rio Purus forma-se um mundão de água, com direito a linha do horizonte, como se no mar estivéssemos. Os dois correm juntos por alguns quilômetros sem se misturarem. Depois de ter criado aquilo, Deus viu que isso era bonito.
Acordar num
(meio) ambiente assim dava-nos uma paz e a noção da nossa pequenez diante da
exuberância da obra do Criador. O dia começara com o café, seguido pela missa
celebrada por D. Tomás Guilherme (Thomas William) Murphy, ex-missionário
americano redentorista que um dia trabalhou na vice-província de Manaus.
Naquela data ele era bispo auxiliar de Salvador, Bahia. Havia sido o primeiro
bispo de Juazeiro, de 1962 a 1973, também na Bahia.
O evangelho do dia, era o mesmo deste sábado, 23 de março de 2019. Na
hora da homilia, ele pergunta se alguém gostaria de comentar alguma coisa. E
num dado momento, vira-se para mim e diz: "Você quer dizer alguma coisa
?" What !? You got to be kidding. Deve estar de brincadeira comigo, eu
pensei. Como é que ele espera que eu vá falar no meio desse povo que olha para
mim e pensa: "O que é que esse menino está fazendo aqui?"
Respondi com vergonha: não.
Por muito
tempo pensei nisso. Acreditava que Dom Tomás ao me fazer aquela pergunta
pensou: "Esse aí é filho do Brígido. Deve ter o meu nome. Vai dizer
alguma coisa interessante." Não. O Thomaz Afonso, uma homenagem, dos
meus pais, ao padre-pároco amigo, agora bispo ali na minha frente, e ao santo fundador da Congregação, é o meu
irmão. Não sou eu. Por todos esses anos eu fiquei pensando: se não fosse pego
de surpresa, o que é que eu diria?
Todos os anos
quando ouço o evangelho do Filho Pródigo, lembro-me da missa no barco e da
pergunta do bispo. Nos encontramos, novamente, em 1993, quando esteve em Manaus
para as comemorações do cinquentenário da chegada na Amazônia dos primeiros
padres redentoristas da província redentorista de St. Louis, no Estado de
Missouri. D. Tomás Murphy faleceu dois anos depois. Há um processo no Vaticano
defendendo a sua beatificação. Hoje, 41 anos depois, aqui vai a minha
resposta.
O Filho Pródigo e o Pai Misericordioso.
O texto é do Evangelho de São Lucas (15, 1-3.11-32), onde Jesus Cristo utiliza-se de uma parábola para, mais uma vez, nos dizer o quanto o Pai é misericordioso. Deus Pai está sempre disposto a nos perdoar. É Ele que nos diz: "Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados." (Isaías 43:25). Vivo com essa esperança: que ele já não se lembre mais dos meus pecados.
Tudo que
precisamos é ter um "coração quebrantado e contrito" (Sl. 51:17);
arrependimento verdadeiro e o firme propósito de não repetir o pecado.
Há várias
passagens na Bíblia mostrando a ligação entre o arrependimento e o perdão por
meio da misericórdia divina. Foi assim com David, Maria Madalena, São Paulo, o
ladrão arrependido, Santo Agostinho e muitos outros.
Veja a alegria
e a felicidade do Pai pelo filho arrependido:
"Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda
estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao
encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai,
pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas
o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu
filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho
gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava
morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram
a festa." (Lc 15, 20-24).
Assim é o Senhor. Faz uma grande festa quando nos arrependemos, porque eterna é sua misericórdia. Ele "é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor...Não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniquidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem." (Sl 102:8,10,11).
Essa é a boa nova: a santidade está ao alcance de todos. Independentemente do que tenhamos feito, ela pode começar hoje
A revolta do filho mais velho.
"O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa,
ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que
estava acontecendo. O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai
matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’.
Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com
ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais
desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me
deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu
filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho
cevado’.
Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é
meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão
estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado.” (Lc 15,25-32)
O filho mais velho não entendeu o feito, porque não compreende como
funciona o amor do Pai, que se alegra muito mais por um pecador arrependido do
que noventa e nove justos que não precisam arrepender-se.
Então Jesus lhes contou esta parábola (Lucas 15, 3-7):
"Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não
deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente nos
ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz:
'Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida'. Eu digo que, da mesma
forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por
noventa e nove justos que não precisam arrepender-se."
O filho mais velho não entendeu a misericórdia do Pai. Quem é mais santo: São Pedro ou São Paulo? O primeiro estava com Cristo desde o início e o segundo perseguia os cristãos e estava presente no martírio de santo Estevão. Quem é mais santo: Santa Teresa de Calcutá ou Santo Agostinho, que precisou de muita oração de Santa Mônica para abandonar a vida errada que tinha ?
Essa é a boa
nova: a santidade pode começar hoje; independente do que fizemos até agora.
Independente de quando decidimos aderir ao projeto de Deus. Não é quando
aderimos, mas a intensidade com que fizemos a adesão. Antiguidade é posto
somente na carreira militar, não na misericórdia divina.
E é isso que
Jesus queria nos dizer quando nos contou a parábola dos trabalhadores da vinha
(Mateus, 20, 1-15): "Porque o reino dos
céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a
assalariar trabalhadores para a sua vinha..." Trabalharam horas
diferentes; uns bem mais que os outros, mas todos foram remunerados igualmente.”
O pai poderia ter perguntado ao filho mais velho: "Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom." (Mateus, 20:15)
A parábola do Filho Pródigo ou parábola da Misericórdia Divina nos enche de esperança e nos informa o tamanho da alegria no coração de Deus quando nos arrependemos dos nossos pecados; e quão grande é a sua misericórdia. Isso nos traz uma esperança muito grande.
Uma abençoada Quaresma a todos.
Cláudio Nogueira
PS1. Dom Jorge Eduardo (George Edward) Marskell teve uma atuação muito expressiva com respeito as questões indígenas e de terras na Amazônia. Sendo por isso agraciado, quando vice-presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), com o "Prêmio Nobel Alternativo", em Estocolmo, Suécia, concedido à CPT e ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, pela Fundação Right Livelihood Awards."
PS2. Meu pai, Brígido Nogueira, era oblata redentorista.
Fui a sagração de D. Mário como bispo de Coari tinha também na época dezessete ou dezoito anos, fomos no motor Lord Kelvin cedido pelo dono amigo dos padres, mas tinha que pagar a passagem por causa dos custos da viagem, ganhei a passagem por ter ganho o concurso de miss filha de Maria, na viagem além dos paroquianos foi também o nosso padre Pascoal
ResponderExcluirFoi uma viagem inesquecível pois foi a primeira da minha vida, era muita alegria com as Feitosas cantando, por sinal fizeram uma música com o motivo da viagem.
O seu Tufir era comandante do barco ��♀
Se o Lord Melvin na encalhar eu chego lá ��
Rema, rema seu Tufir quero chegar depressa em Coari
Se eu chegar depois do sol raiar não encontro D. Mário lá
( com a música se a canoa não virar)
Ângela (Dile) Bessa