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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Eleição Presidencial 2026: A direita ajudou a eleger o Lula.

Como faço desde 2002, depois do resultado da eleição presidencial, gosto de mostrar um pouco do que dizem os números e de como eles se comportaram. Comento os números tanto do primeiro quanto do segundo turno. Ao término do primeiro, faço uma previsão de um possível vencedor no segundo, tudo baseado nos números. Desde então, esta é a sexta eleição e um total de doze turnos.

Até que tenho acertado, com uma pequena margem de erro. Houve uma eleição da Dilma Rousseff em que previ, com muita proximidade, o número de votos que ela teria no segundo turno. Mas, neste ano, não fiz nenhuma análise depois do primeiro turno. Por quê? Não conseguia ver quem ganharia. Eu não era o único. A última previsão de resultado divulgada pelo Datafolha era de 50% para cada candidato.

Terminada esta eleição, faço uma pequena análise estatística dos resultados. São coisas que os números informam, mas que nem todo mundo percebe.

Nesta eleição, fui presidente de seção eleitoral aqui no Porto, Portugal. O total de eleitores registrados era de 796. Logo percebi que o segundo turno era diferente do primeiro, não somente pelo fato de que o número de eleitores que compareceram aumentou, mas também porque havia muito mais eleitores de Lula. As roupas mostravam isso.

Resumindo: quando a eleição acabou, ficou constatado aquilo de que eu desconfiava. Lula passou de 333 votos para 404, um acréscimo de 71 votos, enquanto Flávio passou de 75 para 97, aumentando em 22 votos. Assim, a diferença entre os dois aumentou.

Embora isso esteja anos-luz de distância de uma amostragem, desconfiei que poderia ser uma pequena demonstração de que eleitores de Lula que não foram votar no primeiro turno, depois do susto, resolveram sair de casa em proporção maior do que os eleitores de Flávio Bolsonaro.

E os números comprovaram isso. No segundo turno, compareceram às urnas 4.781.485 eleitores a mais do que no primeiro. O acréscimo dos votos pró-Lula foi de 10.376.694, enquanto o de Flávio foi de 3.721.528. Ou seja, para cada voto a mais que recebeu o Flávio, Lula recebeu quase três.

De onde vieram esses votos ? Alguns números são impressionantes. 

Vamos ver isso com mais detalhes.

Há evidências de que até a direita votou no Lula.

Como o crescimento de Lula, entre os dois turnos, foi de 10,37 milhões de votos, e o total gerado pela entrada de novos eleitores (redução da abstenção) foi de apenas 4,78 milhões, a matemática eleitoral demonstra de forma incontestável que mesmo se todos os novos votantes fossem para Lula, ainda faltariam mais de 5,5 milhões de votos para explicar o seu crescimento. Esse saldo veio obrigatoriamente da migração direta de eleitores que votaram em candidatos de direita e centro-direita no primeiro turno - como Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Zema e outros - e que optaram por transferir seus votos para o candidato petista na etapa final.

Quantos milhões de votos a direita deu para o Lula ? 

Total de votos de candidatos de direita eliminados no 1º turno: 9.316.747 votos

Acréscimo do número de eleitores no segundo turno: 4.781.485 votos

1. O cálculo da fatia dos novos eleitores recebida por cada candidato.

Para calcular quantos votos dessa nova base foram para cada candidato, aplicou-se a proporção final apurada nas urnas (51,79% para Lula e 48,21% para Flávio Bolsonaro):

Total recuperado da abstenção: 4.781.485 votos

Parcela de Lula (4.781.485 × 51,79%): 2.476.472 votos

Parcela de Flávio Bolsonaro (4.781.485 × 48,21%): 2.305.013 votos

2. A migração real dos candidatos do 1º Turno

Sabendo que Lula teve um crescimento total de 10.376.694 votos entre os dois turnos, fazemos a conta para isolar o valor recebido dos candidatos de direita:

Crescimento total de Lula no 2º turno: 10.376.694 votos

(−) Parcela vinda da abstenção: 2.476.472 votos

= votos vindos dos candidatos de direita: 7.900.222 votos

Dos 9.316.747 dados para Cury, Caiado, Renan, Zema e outros e disputados por Lula e Flávio, Lula capturou 7.900.222 votos, o equivalente a 84,8% de toda a migração desses candidatos, e Flávio Bolsonaro recebeu os 1.416.525 votos restantes (9.316.747 - 7.900.222), o equivalente a 15,2% dessa migração.

Assim, do seu acréscimo total de 10.376.694 votos no 2º turno, Lula obteve 76,1% via migração dos candidatos derrotados – isso é muito significativo, porque todos eram de direita -  e 23,9% via resgate de abstenções.

A diferença entre Lula e Flávio foi de: 64.256.232 - 59.826.041 = 4.430.191 votos.

O que é bem menor que 7.900.222. A direita deu a vitória ao Lula.

Obviamente, se a disposição dos eleitores de Lula de sair de casa no segundo turno foi bem maior do que a dos eleitores de Flávio, esse número pode ser bem menor. Contudo, mesmo que 80% (um valor muito alto) dos votos dos 4.430.191 fossem para Lula, a contribuição da direita ainda seria de 6.551.506 votos.

O Flávio Bolsonaro precisava de apenas mais 2.215.096 para ganhar a eleição. Ou seja, a metade da diferença entre ele e o Lula, mais 1 voto.

Lembre-se de que toda vez que você tira um voto do adversário, a diferença diminui em dois votos. Você tem 40 votos e o oponente 36. Diferença é 4. Você rouba um dele; ele fica com 39 e você com 37. A diferença cai para 2. Capice?

Essa tabela mostra a disposição dos eleitores de Lula para sair de casa no segundo turno. -

Mesmo nos estados do sul e sudeste onde Lula tradicionalmente tem menos votos, o acréscimo entre os dois turnos foi impressionante: Lula aumentou sua votação em 6.133.179 votos nas duas regiões, e Flávio Bolsonaro teve acréscimo de 2.811.637 votos.



Conclusão

Os números desta eleição mostram que o resultado do segundo turno não pode ser explicado apenas pela redução da abstenção ou pela entrada de novos eleitores nas urnas. O crescimento expressivo da votação de Lula, inclusive nas regiões Sul e Sudeste, indica que houve uma movimentação eleitoral muito mais ampla, que ultrapassou os limites tradicionais de sua base de apoio.

Pelos cálculos apresentados, mesmo adotando uma hipótese bastante favorável a Lula quanto à participação dos novos votantes, uma parcela expressiva de seu crescimento ainda precisa ser explicada pela transferência de votos de candidatos derrotados no primeiro turno. Isso sugere que uma parte importante do eleitorado que havia optado por candidatos de direita e centro-direita acabou contribuindo para sua vitória.

A grande lição desta eleição é que, no segundo turno, nem sempre os votos seguem a lógica das alianças políticas ou das posições ideológicas declaradas. O eleitor tem suas próprias razões, e os números permitem identificar movimentos que, à primeira vista, poderiam passar despercebidos. Afinal, uma eleição não se explica apenas por quem deixou de votar ou por quem voltou às urnas, mas também por quem mudou de escolha. E, nesta eleição, essa mudança pode ter sido decisiva para definir o vencedor.

 Cláudio Nogueira


https://nogueiraclaudio.blogspot.com/