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domingo, 18 de março de 2012

iPIM, o Parque Tecnológico de Manaus

O ex-ministro chefe da Casa Civil, no primeiro governo Lula, José Dirceu, escreveu, em 10.03.2012, no seu "Blog do Zé" o seguinte:

"Mudanças para levar a indústria brasileira ao século XXI

O diagnóstico da estagnação e dos riscos da indústria brasileira já está feito. A participação da indústria de transformação no PIB era, ao final de 2011, de 14,6%. Comparando o índice brasileiro com dados para 2010 da ONU, países como China (43,1%), Coreia (30,4%) ou mesmo Alemanha (20,8%) têm participação muito maior de sua indústria no PIB. São muitos os fatores que levaram a isso: os altos custos dos encargos da mão-de-obra (32,5% na folha); o alto custo do capital (juros e spreads" bancários); a apreciação do câmbio, que aumentou a concorrência, em nosso mercado interno, com produtos importados; os custos elevados dos insumos; a necessidade de investimentos na infraestrutura do país; a necessidade de uma política de inovação .
...
E, fundamentalmente, precisamos alimentar as raízes do futuro: fazer uma revolução na educação e na inovação. Só com uma mudança tecnológica efetiva na matriz de nossa indústria é que vamos concorrer no novo mundo do século XXI."
Vamos escolher umas keywords: "a necessidade de uma política de inovação", "fazer uma revolução na educação e na inovação", "mudança efetiva na matriz de nossa indústria."

E em 06.03.2012, José Dirceu havia publicado:

"Urge enfrentarmos os desafios da economia mundial
A queda dos preços das commodities e a desaceleração do crescimento da China, um dos nossos principais compradores de commodities, já eram esperados. E o eram, porque já haviam sido anunciados."
...
[Acrescento: isso não é novidade para ninguém, o crescimento das nossas exportações, nos últimos anos, ocorreu, em boa medida, graças ao crescimento extraordinário China, e a sua demanda pelas nossas commodities.

“Ocorre que o crescimento da participação de commodities na nossa pauta de exportações tem sido contínuo e significativo o que implica em menor remuneração aos exportadores, uma vez que tais produtos se diferenciam no mercado mercado internacional pelo preço baixo e não necessariamente pela qualidade percebida. Tal fenômeno tem ocorrido em decorrência ainda da grande participação da China no cenário internacional, que tem atuado de forma compradora em decorrência de sua transformação econômica.” [blog da Revista do Autor -link no post scriptum]

Continua o blog do José Dirceu:
...
Precisamos acelerar os investimentos na inovação,na educação e na infraestrutura, na integração Sul-Americana, inclusive, ainda, em toda nossa política comercial e de exportações, sem ilusões sobre a situação internacional.
Keywords: "investimentos na inovação, na educação e na infraestrutura"

Vamos juntar todas as palavras chaves:

“a necessidade de uma política de inovação”, "fazer uma revolução na educação e na inovação", "mudança efetiva na matriz de nossa indústria","investimentos na inovação, na educação e na infraestrutura", "* melhorar a qualidade da pesquisa","** ampliação do parque tecnológico e o reforço no investimento em pesquisa e inovação".

As frases (*) e (**) não constam no texto de Zé Dirceu, constam em matéria publica no jornal Em Tempo do dia 11.03.12, sobre o novo campus da UEA Assunto que abordado no post, A UEA e o seu Science Park",mas se enquadram muito bem no objetivo deste deste texto.

Mudança na matriz tecnológica

Em alguns textos aqui deste blog foi dito que a ZFM precisava de uma política de Estado, algo vindo lá de Brasília e, que se ela foi criada para ocupar a floresta, agora precisava ser inserida em uma nova política industrial, porque por mais que a Suframa se esforce, não vai conseguir implantar as mudanças necessárias, sem apoio político de todos, principalmente do Poder Central. E o que significa "precisamos" escrito por José Dirceu ? Acredito que todos nós, isto é, o Brasil de norte a sul, precisamos rever a nossa matriz industrial. E quem deve liberar esse processo é o governo federal; então, precisamos de uma política industrial inovadora, educacional de Estado.
Mas agora quem está falando em uma mudança da matriz industrial é um político importante da cúpula do PT, foi chefe dos ministros, e é do partido que governa o país.
Eu deixei meu comentário no Blog do Zé Dirceu. Já faz algum tempo que venho repetindo isso como um mantra. Há outras pessoas repetindo também, não sou o único, mas parece que finalmente a ficha caiu. E esse assunto nos diz respeito, e muito. O PIM faz parte do Brasil. Na sua existência reside a nossa sobrevivência.

Não vou ficar aqui repetindo eu disse, eu disse, eu avisei..., mas o perfil de nosso parque industrial precisa mudar, e mudar muito; de empresas de produção em massa para firmas de base tecnológicas, produzindo bens de maior valor agregado, maior produtividade, mais competitividade. A frase seguinte é perfeita para nós, aqui da ZFM: "Precisamos alimentar as raízes do futuro: fazer uma revolução na educação e na inovação. Só com uma mudança tecnológica efetiva na matriz de nossa indústria é que vamos concorrer no novo mundo do século XXI."
Não sejamos ingratos com as empresas aqui instaladas, e que nos propiciaram o padrão que hoje temos. Estamos falando de termos novas empresas, as chamadas empresas inovadoras, para saímos de um sistema regional de produção para um sistema regional de inovação. O que ficou claro nos excertos citados é a necessidade de sermos inovadores, e para tal precisamos de um novo parque industrial, nós precisamos de um science ou technology park, precisamos criar o Parque Tecnológico de Manaus.

Mesmo antes da existência deste espaço, em escritos em pdf, eu defendia a transformação do Polo Industrial de Manaus (PIM), num knowledge-based cluster; por essas bandas traduzido como cluster de base tecnológica, ou cluster tecnológico, ou cluster intensivo de conhecimento. Agora vou apresentar ao e-leitor outras denominações, science park ou technology park.

Talvez o meu approach estivesse um pouco equivocado, ao propor (várias vezes) a transformação do PIM, de distrito industrial (vou repetir aqui: um conceito alfred-marshalliano) para um cluster tecnológico (conceito michael-porteriano - (http://www.isc.hbs.edu). Estava propondo - mal comparando - transformar um televisor preto e branco (mesmo que de boa qualidade) em um televisor colorido, o que é impossível; ou o Vivaldão na Arena da Amazônia, o que seria extremamente trabalhoso, e sem garantia de êxito. A proposta agora, embora o resultado final seja o mesmo, é criar o Parque Tecnológico de Manaus ou Manaus Technology Park.

Parque Tecnológico

O site do Investe São Paulo - Agência Paulista de Investimento e Competitividade - define Parques Tecnológicos como "Mecanismos consolidados mundialmente como plataforma de desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação, os parques tecnológicos têm como objetivo promover e incentivar o desenvolvimento econômico e tecnológico, por meio da atração de investimentos e da geração de novas empresas intensivas em conhecimento" . Disse tudo.
É uma concentração de empresas inovadoras, high tech, com tecnologia de ponta ou estado-da-arte. Existem vários pelo mundo e são chamadas de science ou technology parks. O de Bangalore, por exemplo, sempre citado por mim, o seu nome oficial é Software Technology Parks of India, Bangalore.

Observe o e-leitor pouco a ligado no economês, que as economias pobres e com grandes populações (a China no passado) são chamadas de intensivas de mão-de-obra (barata); as ricas, de intensivas de capital. Agora ser intensiva de capital não é suficiente, embora necessária, é preciso ser intensiva de conhecimento.

Vamos abrir um parêntese aqui: a China causa medo, porque agora é intensiva de mão-de-obra e de capital, além de manter a sua moeda artificialmente desvalorizada. Não tem como competir com ela. Ela ainda vai fazer muitas empresas estrangeiras fecharem as portas. Fecha parêntese.

O Investe São Paulo acrescenta: "A partir da integração entre universidades, institutos de pesquisa, setor privado e órgãos públicos, busca-se assegurar o desenvolvimento de atividades intensivas em conhecimento e tecnologia, com a criação de um ambiente favorável ao surgimento de novas empresas de base tecnológica, à geração e difusão do conhecimento e ao fomento da capacitação tecnológica em setores-chave para o desenvolvimento nacional"[ou regional].
Releia com calma, você leu muito rápido. Preste atenção nas seguintes palavras: "integração entre universidades, institutos de pesquisa, setor privado e órgãos públicos", "desenvolvimento de atividades intensivas em conhecimento e tecnologia, novas empresas de base tecnológicas, fomento da capacitação tecnológica." Essa é a própria definição de cluster, visite o site de Michael Porter, professor de Harvard, citado acima.

Academic Gossip
(leitura opcional - pode ser pulada sem comprometer o entendimento do post)

Sou forçado pelas circunstâncias a abrir outro parêntese, e esse será um pouco mais longo. Ao ler a definição acima chego à conclusão que alguém está fazendo o dever de casa. Volte à primeira definição: "Mecanismos consolidados mundialmente como plataforma de desenvolvimento de C,T&I". Isso nada mais é do que um cluster tecnológico baseado no conhecimento ou de base tecnológica, várias vezes mencionado e defendido nesse blog. E daí?

Na VI Feira Internacional da Amazônia, realizada de 26 a 29 de outubro do ano passado, houve um seminário, coordenado pela SECT, com a presença de um pesquisador finlandês [já escrevi sobre isso, em "A ZFM acabou"
(http://nogueiraclaudio.blogspot.com/2011/11/zfm-acabou.html] que palestrou sobre clusters tecnológicos em diversos países. No mesmo seminário, palestraram antes e depois do finlandês, o casal José Cassiolato e Helena Lastres, conhecidos pesquisadores. E na sua fala, ela deixou evidente, o que é muito comum em alguns pesquisadores no Brasil, o desconhecimento (no que eu não acredito) e/ou a aversão ao conceito de Knowledge-based cluster (nisso eu acredito). O desconhecimento eu percebi, quando pesquisava para o doutorado, em textos de autores nacionais quando misturavam as coisas. O que a professora Helena fez, no seminário, foi mostrar indiferença ao dizer, que não entendia bem sobre o assunto, pois não entende bem inglês, pois o pesquisador finlandês falou em inglês. Ou ela mentiu na palestra ou mentiu na Plataforma Lattes, pois lá no seu CV ela diz que é doutora pela University of Sussex, na Inglaterra, e com certeza, ela, lá, não estudou em português.

O que desejo registrar, antes que o Vicente Nogueira me critique e diga que ela entrou no texto como Pilatos no Credo, é que alguns pesquisadores tupiniquins, como ela, torcem o nariz quando ouvem as palavras clusters tecnológicos, mas ainda assim os citam, misturando alhos com bugalhos. É que ainda estão com o conceito de "arranjos produtivos", o que é outra coisa. A propósito, ela apresentou-se - se não me falha a memória - como assessora ou coisa parecida, de arranjos produtivos do BNDES. Arranjo produtivo é arranjo produtivo, distrito industrial é distrito industrial, cluster tecnológico é cluster tecnológico. Vírus não é bactéria, nem vice-versa. Nem se tem virose a partir de bactéria. Mas há muito texto misturando as coisas: “... arranjos produtivos em Pernambuco”, para no mesmo texto chamá-lo de “aglomeração de empresas ou clustering)...” Fecha parêntese.

Manaus Science ou Technology Park

Parque tecnológico e muito mais que uma simples questão conceitual. Está umbilicalmente relacionado com o perfil da indústria instalado nele. Sua missão é atrair investimentos de tecnologia de ponta, propiciar a geração de empresas inovadoras através de incubadoras. São, na sua grande maioria (mas não necessariamente), compostos de empresas voltadas para a exportação. A agência ou instituição que administra o parque oferece uma gama de atrações, principalmente de infraestrutura (transportes, energia, IT&C,etc.). Alguns parks oferecem até mesmo instalações prediais. Produzem produtos de maior valor agregado. O que é isso ? Compare a evolução de features em uma motocicleta com um aparelho celular. O que foi que mudou em uma motocicleta, mesmo com a tecnologia mais avançada, nos últimos dez anos ? E o que mudou em um telefone celular ? Do tamanho de um tijolo, para uma coisa que cabe em qualquer bolso, tem mais de um chip, filma, faz download de música, tira foto, conecta-se a Internet, etc. etc.

Visite o site do Investe São Paulo e veja o que ele oferece como atração, algo muito mais do que terreno a preço baixo (lembre-se que o parque deles ainda não está consolidado - na realidade não é somente em um local). Nós oferecemos isso e isenção fiscal. O que pode ser (e tem sido) um grande diferencial. Mas não foi suficiente para atrair empresas de tecnologia de ponta, nem para trazer para o PIM a indústria de tabletes (prefiro o vernáculo) e nem impediu que empresa de duas rodas tenha preferido ir para o nordeste. Somos carentes de infraestrutura e de knowledge workers ( releia o post A Zona Franca acabou sobre os 40 PhDs), trabalhadores do conhecimento (termo muito usado nos dias atuais, mas que tem a minha idade. Foi cunhado por Peter Drucker, em 1959, no livro Landsmark of Tomorrow). Precisamos formá-los até termos uma massa crítica. Se a nova UEA for “se consolidar como uma das instituições de ensino mais importante do Brasil” , como diz o seu reitor, estamos no caminho certo.

Não obstante o fato do nosso parque industrial ter produzido US$ 41 bilhões no ano passado, e termos os incentivos fiscais prorrogados por mais 50 anos, isso não nos garante um lugar tranquilo no futuro. Por quê ? Porque "Só com uma mudança tecnológica efetiva na matriz de nossa indústria é que vamos concorrer no novo mundo do século XXI."

Em resumo, o que fazer ? Primeiro devemos ficar atentos para participarmos efetivamente, já que somos uns dos maiores parques industriais desse país, de uma possível política industrial visando mudar a matriz produtiva; vamos tentar nos inserir nessa revolução na educação, inovação e infraestrutura, proposta por José Dirceu. Para isso precisamos de todos os nossos parlamentares.
E como se inicia um parque tecnológico ou intensivo de conhecimento ? O mesmo que fizemos para atrair empresas para o nosso distrito industrial, mas agora o objetivo é atração de outro tipo de indústria. Fornecendo toda a infraestrutura necessária, de transportes, tecnologia de informação e comunicação (IT&C), empresas de venture capital (que andam de mãos dadas com firmas inovadoras) e institutos tecnológicos ou universidades (se tiver uma única muito boa, serve) em seu entorno produzindo conhecimento, transferindo-o para a indústria, fornecendo, sobretudo, uma massa crítica de mão-de-obra especializada. E isso não se consegue em curto prazo de tempo, obviamente que não. Vamos ver em breve e de forma detalhada, que o projeto CT-PIM - iniciado há dez anos, mas que anda a passos de cágado, por falta de recursos - pode ter sido o passo inicial de todo esse processo.
O primeiro passo é nos conscientizarmos do que precisa ser feito. Muitos autores aconselham a se procurar uma âncora (é essa a expressão. da mesma forma que se diz para uma grande loja num shopping center); se ela concordar em se instalar, ela trará uma dúzia de fornecedores satélites. Se ela der certo, competidores viram atrás, tanto quanto inovadores em outras áreas.

Eu ia citar alguns exemplos, mas sugiro ao e-leitor que entre no Google e procure por technology ou science parks, ou visite os sites daqueles que já citei aqui, em vários textos, diversas vezes. No Google você vai encontrar vários exemplos, inclusive o Techno Park Campinas (http://www.technopark.com.br), e surpreenda-se em saber que eles também oferecem incentivos fiscais.
Campinas e seu entorno é praticamente a única aglomeração industrial no Brasil que recebe o nome de Knowledge-based cluster dos pesquisadores estrangeiros, em livros e na literatura especializada.

O que este post propõe, em síntese, é a criação de uma nova área física, administrada pela Suframa, que chamaria (apenas uma sugestão) de Polo Tecnológico de Manaus.
Espero que o e-leitor não perca o foco, e pense que não tenho ideia do que isso significa. Simplesmente fico sugerindo coisas aqui como tivesse uma varinha mágica: diz para a Suframa fazer isso e pronto. Quando digo para não perder o foco, chamo atenção, que difícil ou não, não sou o único a pensar nesta necessidade. O que José Dirceu disse foi para a indústria nacional, e nós fazemos parte dela. E porque ele disse, é verdade ? Sim, porque ele não é o único a dizer isso.
Em debate realizado sobre o assunto no auditório do INPA, em setembro do ano passado, onde os palestrantes eram economistas, ex-secretários de Estados, empresários, pesquisadores, etc., todos mostraram apreensão quanto ao futuro da ZFM. Na ocasião - vou repetir o que já disse antes - ninguém soltou fogos, embora contentes, com a notícia de que a ZFM foi prorrogada por mais 50 anos, porque sabemos que isso não será suficiente para garantir a nossa competitividade, ou segurar empresas no PIM.
E quando digo da necessidade de Polo Tecnológico de Manaus, não estou me referindo somente à atração de indústrias de produtos eletrônicos de consumo, mas de farmacêuticos, de um polo de biotecnologia, ou de um polo de petroquímica. O jornal A Crítica noticiou em 14.03.2012: "Pesquisa desenvolve biocombustível a partir de espécies vegetais da Amazônia". Nós temos de identificar qual é a nossa vocação. Já escrevi antes: “Em 1995 a pequena Cingapura tinha 45% do mercado mundial de discos rígidos para computadores e o condado de Ringkøbing, na Dinamarca, com apenas 120 mil habitantes, no mesmo ano, possuía 60% do mercado mundial de turbinas eólica.”

Adjunta de Inovação Tecnológica

E para melhor desenvolver essa missão (opino na qualidade de cidadão, e palpiteiro de plantão, foi exatamente com essa intenção que criei esse blog), me parece ser necessário à criação de mais uma superintendência adjunta na Suframa, algo como adjunta de Tecnologia e Inovação. Uma adjunta menos voltada para as atividades meios, mas mais voltadas para as atividades fins, que trabalhe na missão de montar esse novo parque. Uma que coordene as atividades do CAPDA (em nível local, posto que ele é coordenado por um representante do MDIC) e fiscalize os incentivos da lei de Informática, dos recursos que trata o inciso II do § 4o do art. 2o da Lei no 8.387, de 1991 (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT); conectada ao CT-PIM, e ao CBA, que agregasse o departamento de Gestão Tecnológica, que faça um liaison com as universidades e centros de pesquisas, com instituições como a ANPEI, Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras; com ABIPTI, Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (ABIPTI), com as pesquisas da UEA, da UFAM e INPA, com a SECT, FAPEAM, com as incubadoras já implantadas (UFAM, FUCAPI, CIDE, IFAM), que criasse um fórum de debates permanente, coisa que Suframa nunca teve.

Exposição e Conferência Mundial
A Suframa, junto com outras instituições locais, vai participar, como convidada, da Expocomer, no Panamá, "O evento, que começa no próximo dia 21 [vai até o dia 26], no Centro de Convenções Atlapa, na Cidade do Panamá, contará com um Pavilhão Brasileiro promovido pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), com apoio da Câmara de Comércio Brasil-Panamá e da Embaixada do Brasil naquele país." Informa o site da Suframa.
Motivado por tal notícia ( obviamente que não é a mesma coisa), me empolgo e proponho que a Suframa seja a host city da 16th Annual Globol Conference sobre clusters, no mesmo período da VII Feira Internacional da Amazônia, em 2013. Essa conferência, coordenada pelo The Competitiveness Institute -TCI (http://www.tci-network.org), é o mais importante encontro mundial de debates sobre clusters. Onde pesquisadores, administradores de clusters, empresários, policy markers, etc. se encontram anualmente. Esse ano, sua décima quinta edição ocorrerá, de 16 a 19 de outubro, no país Basco, na Espanha. É muito comum em cada edição ela mudar de continente; ano passado, foi na Nova Zelândia, e em 2010, na Índia. Seria um muito bom para todos nós aprendermos como quem já passou por situações com a que nos encontramos (dê uma olhada no PS6). Seria um bom teste para a nossa cidade, receber um evento internacional desse porte, um ano antes da Copa do Mundo, no ano da Copa das Confederações. Acredito ser mais útil, para a Suframa e para a nossa cidade, uma conferência deste tipo, do que o encontro realizado no período da Feira, chamado Minapim, onde se discute "micro e nanotecnologia do Polo Industrial de Manaus".E isso existe ? Esse encontro tem sempre palestrantes internacionais, expondo nanotecnologia utilizada por eles. Pagos por quem ?
A inscrição para ser a host city está aberta:"Open invitation for proposals to host a TCI conference in 2013 (http://www.tci-network.org/news/card/395).

Finalizando

Termino com um texto de meu amigo Antônio Botelho ( o sujeito que mais publicou livros sobre a ZFM) escrito em 2003 para os seus alunos da CESF/FUCAPI na disciplina Política Industrial e Inovação Tecnológica.
A SUFRAMA tem um papel estratégico neste direcionamento, especialmente pela postura pró-ativa com que vem agindo desde que superou sua simples competência de administrar incentivos, agregando valor com a função promoção de investimentos, agora incrementada com os vetores da tecnologia e do comércio internacional.

A Suframa tem de liberar sim, mas sem o apoio de todos, dos parlamentares, da classe empresarial, dos sindicatos - considerando a enorme dificuldade da tarefa - ela não logrará êxito. E quando o assunto é a sobrevivência do PIM, ele não tem dono, é assunto que diz respeito a todos nós.

Cláudio Nogueira

Post Scriptum

PS1 - Mudanças para indústria brasileira ao século XXI:

PS2 - Urge enfrentarmos o desafio da economia mundial:
http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=14703&Itemid=2

PS4 - Sistema Paulista de Parques Tecnológicos - SPTec, criado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia:
http://www.investe.sp.gov.br/porque/porque_parques_tecnologicos

PS5 - International Association of Science Parks - IASP - Aqui você encontra definições em várias línguas:
http://www.iasp.ws/publico/intro.jsp

PS 6- Sugestão de leituras:
- Clusnet Final Report - Organising Cluster for Innovation: Lessons from City Regions in Europe:
http://www.tci-network.org/media/asset_publics/resources/000/004/170/
- Collective Goods for Reformatting the Rio de Janeiro Software Cluster into a Local Innovation System, por Antônio José Botelho, Alex da Silva Alves e Glaudson Mosqueira Bastos, capítulo 5 do livro From Agglomeration to Innovation - Upgrading Industrial Clusters in Emerging Economies, editora IDE-JETRO (Institute of Developing Economies e The Japan External Trade Organization), 2010.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Comida Japonesa. Evento Beneficiente - Entrada Franca

PARA QUEM GOSTA DE UMA BOA COMIDA JAPONESA, NESTE SÁBADO, 3 DE MARÇO, NO NIPPAKU, NA RUA TERESINA 95, EM ADRIANÓPOLIS, HAVERÁ UMA FESTA BENEFICIENTE COM ENTRADA FRANCA, BOA COMIDA E MUITA MÚSICA. NÃO PERCA.




domingo, 13 de novembro de 2011

NYTIMES: O Brasil assusta os vizinhos


Brasil, ou a República Federativa do Brasil, é o maior país da América do Sul em área e população, com cerca de 200 milhões de habitantes. Durante a última década tornou-se também uma das potências econômicas que mais rapidamente crescem no mundo.
O sucesso do Brasil é o resultado de uma confluência de sorte e tendências econômicas globais, com países como a China famintos por suas commodities, que incluem minério de ferro e soja, para não mencionar o petróleo recentemente encontrado em abundância no seu litoral. A onda de fazer negócios e da resiliência da moeda do Brasil, o real, tem atraído banqueiros e investimentos estrangeiros, gestores de fundos hedge e investidores de risco. Brasileiros qualificados estão voltando do exterior. Vantagens pagas a alguns executivos rivalizam-se com pagas em Wall Street.
Ascensão meteórica do país ocorreu sob a liderança tranquila de Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-trabalhador de uma fábrica de automóveis, que foi presidente do Brasil de 2002 até 2010. Popular, o Sr. da Silva - conhecido como Lula dentro do Brasil - presidiu o país durante um período de crescimento econômico significativo que solidificou o Brasil como o centro de gravidade na América Latina e um player cada vez mais importante no mundo.
O Sr. Silva fomentou este crescimento através de uma combinação de centro respeitando os mercados financeiros e focando em programas sociais, que tirou milhões da pobreza e diminuiu a grande diferença de renda entre ricos e pobres. Em outubro de 2011, foi anunciado que o ex-presidente tem câncer na garganta. A divulgação de sua condição veio em um momento quando ele ainda era admirado como o mais imponente líder político contemporâneo do Brasil.
Em janeiro de 2011, o Sr. da Silva foi sucedido por Dilma Rousseff, o primeiro (sic) presidente do país, do sexo feminino. Sua eleição foi vista como um chamado para continuar as políticas econômicas e sociais de seu popular antecessor. Dilma atuou como chefe de gabinete de Lula e ela é o seu 'candidato foi escolhido a dedo'.
Cada vez mais exercitando seu poder
Como domínio americano na região declina, o Brasil cada vez mais exercita seu recente poderio político e econômico, ele começou a experimentar as armadilhas desta função também: reação contra o poder crescente no hemisfério.
Mais de um século atrás, antes de se tornar uma república, o Brasil era um império com investidas ocasionais no território dos vizinhos, muitas vezes servindo como um árbitro em disputas na América Latina. O Brasil agora conta com um corpo diplomático sofisticado, aumentou os pagamentos de ajuda estrangeira, e os bolsos cheios do seu banco de desenvolvimento [BNDES] - um gigante financeiro que supera o volume de empréstimos feitos pelo Banco Mundial e tornou-se o principal meio para o Brasil projetar o seu poder na América Latina e mais além.
Mas os esforços do Brasil estão sendo recebidos com cautela em vários países da América Latina. Uma proposta, para construir uma estrada através da selva da Guiana até a sua costa, está parada por causa de temores de que o Brasil possa tomar conta do seu pequeno vizinho com a migração e comércio.
Na Argentina, as autoridades suspenderam um grande projeto por uma empresa de mineração brasileira, acusando-a de não contratar operários locais o suficiente. Tensão no Equador sobre uma usina hidrelétrica levou a uma difícil batalha legal, e protestos de índios Ashaninka na Amazônia peruana ter colocado em cheque, um projeto da represa brasileira.
Mas talvez nenhum projeto brasileiro na região provocou a ira tanto quanto um na Bolívia.
Financiado pelo banco de desenvolvimento nacional do Brasil [BNDES], o plano era construir uma estrada através do remoto território indígena boliviano. Mas provocou uma revolta de combustão lenta; centenas de manifestantes indígenas empreenderam uma extenuante marcha de 520 quilômetros desde das terras baixas centrais da Bolívia até La Paz, a capital, denunciando o seu ex-lider, o presidente da Bolívia, Evo Morales, por apoiá-lo.
Morales, primeiro presidente indígena da Bolívia e um ambientalista confesso, de repente viu-se em desacordo com uma parte importante da sua base política, defendendo um projeto brasileiro que poderia aumentar o desmatamento. Ele finalmente cedeu às exigências dos manifestantes e descartou a estrada.
O Brasil continua financiando uma variedade de planos na Bolívia, incluindo vários projetos hidrelétricos e de uma ambiciosa política antidrogas que envolve a implantação de aeronaves teleguiadas na fronteira, treinamento e fornecimento de equipamentos para as forças de segurança bolivianas.
Mas a disputa sobre a estrada colocou o Brasil em observação aqui.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A ZFM acabou

"As regiões são vistas como pontos nodais na sociedade de rede mundial globalizada. As fontes da competividade regional estão aparentemente mudando na era pós-fordista. Esse desenvolvimento é caracterizado por uma mudança da produção em massa para uma produção na direção da economia baseada no conhecimento."
Richard Florida, 1998, in Calibrating the Learning Region

 
Introdução
Três situações provocaram esse post: a declaração do superintendente interino da Suframa, Oldemar Ianck, ao jornal A Crítica, no dia 2 de novembro, dizendo que ZFM acabou; a palestra “Parques Tecnológicos x Sistemas Locais de Inovação” dada pelo finlandês, Martti Launonen, no seminário “Sistemas Locais de Inovação e Sustentabilidade”, dia 28 de outubro, dentro da VI FIAM, coordenado pela SECT; e a matéria do jornal A Crítica, de 7 de novembro: "Parlamentares afiam discurso em defesa da Zona Franca de Manaus".
A declaração do superintendente interino e a palestra têm uma forte ligação. O que o pesquisador finlandês disse, pode ser a salvação da lavoura. O seu conteúdo e prática estão intimamente relacionados com o que o PIM necessita. Isto venho repetindo há muitos anos: a necessidade da transformação do PIM de um parque de montadoras em um parque tecnológico de empresas inovadoras. Mas não se está sugerindo que a montadoras tenham que ir embora. Nem devemos permitir que isso aconteça. E estimular o desenvolvimento de empreendimentos endógenos, como disse o interino, é uma idéia muito boa, que deve ser perseguida, mas não é nova. O CIDE, Centro de Incubação e Desenvolvmento Empresarial; o Ayty, a incubadora do IFAM (Instituto Federal do Amazonas) e outras incubadoras, como a da UFAM, tem um papel importante nesse processo.

Muito mais que a prorrogação
No dia 15 de setembro deste ano, num auditório do INPA, aconteceu um seminário promovido pela Associação Panamazônia e pela Fundação da Defesa da Biosfera (FDB), onde os palestrantes, com várias intervenções da platéia, mencionaram as dificuldades que a ZFM enfrenta; as ameaças presentes e futuras (China, Medidas Provisórias, infraestrutura precária, contingenciamento de verbas, etc.). Realisticamente, embora contentes com a previsão, ninguém soltou fogos pela possibilidade do faturamento do PIM este ano passar dos US$ 40 bilhões de dólares. Qual o motivo?
Porque ninguém quer isso por pouco tempo; mas com o modelo que temos, e por causa de uma série de outras variáveis, as nossas vantagens comparativas estão diminuindo. Talvez por isso, e embora bem vindo, o anúncio, por parte da presidente Dilma Roussef de que os incentivos fiscais serão prorrogados por mais 50 anos, não provocou nenhuma queima de fogos; muito pelo contrário, não foram poucas as vozes dizendo que isso é pouco. Ou melhor, necessário, mas não suficiente. Agora o titular interino da Suframa afirma que a ZFM acabou. Isso é uma boa notícia. Se o PIM produz mais de 40 bilhões de dólares pagando impostos, isso é muito bom. A ZFM pode acabar; quem não pode acabar é o PIM. Sem a isenção fiscal, que é a nossa vantagem comparativa - e se não a temos mais, ou se ela está sendo reduzida - temos que agir imediatamente no sentido de perenizar o PIM sem os incentivos. Precisamos agora termos vantagens competitivas.
E qual é a solução? Possivelmente, não exista uma única, mas costumo apresentar a minha. Na realidade, ao e-leitor que já leu alguma coisa que escrevi (e isto já está ficando até chato, mas repito porque os meus cem novos alunos desse semestre não sabem disso), digo sempre que na minha tese de doutorado, eu apresento 12 propostas para que o PIM não precise mais de incentivos fiscais (no futuro), para ser perenizado. Isso leva tempo, obviamente (o projeto CT-PIM é um projeto de 20 anos). Por isso o quanto mais cedo começarmos, melhor.
Apresento quatro propostas a mais do que o canadense e estudioso de clusters, Roger Voyer. Ele ensina os “Oito Ingredientes para o Sucesso de um Cluster” que serviram de base para as minhas propostas. Mas não acreditem em mim, porque santo de casa não faz milagres, acreditem em vários autores e practitioners de clusters, como o finlandês, Marti Launonen, que apresentou a palestra e o seu livro “HubConcepts – The Global Best Practice for Managing Innovation Ecosystems and Hubs”. No seu livro - que ele trouxe um único exemplar, e meio a contragosto me presenteou - ele narra suas experiências e contribuições em concentrações industriais, além de vários casos na própria Finlândia. Os estudos de casos apresentados são os seguintes: na Coréia do Sul (3), na China (4), no Japão (3), na costa oeste dos Estados Unidos (2), na costa leste (1), na França (3) e no Reino Unido (1). Portanto, volto a dizer o que já disse antes: há empresas e especialistas – que já publicam as suas experiências, em livros e papers – que ajudam as concentrações industriais a se moverem para o próximo estágio, de aglomerações industriais para um cluster de base tecnológica. Nesse texto apresento algumas capas de alguns livros que contam essas experiências.

De Distrito Industrial a Cluster de Base Tecnológica
A declaração do sr. superintendente e a palestra do finlandês fizeram-me lembrar do texto "De Distrito Industrial a Cluster de Base Tecnológica", que escrevi em setembro e que deverá ser publicado em breve (aqui um excerto):
“O que precisa ser feito foge da expertise da Suframa, mas isso não a exime de continuar a exercer a liderança. Ela, que já teve uma autonomia maior, quando construía camp
i, hospitais e abria estradas vicinais, hoje tem receitas contingenciadas. Ela deverá trabalhar mais como o governo estadual, que tem uma responsabilidade maior nesse processo [no mínimo mais independência], devido às ações que pode e deve tomar [em breve apresento o post University Science Parks e o Novo Campus da UEA], bem como a pressão que pode exercer sobre o governo federal [a Suframa também é mais limitada nesse aspecto]. Os casos de clusters espontâneos (bottom up) são raríssimos [o PIM não vai se transformar sozinho], quase todos são do tipo top down, criados por iniciativas governamentais.
Na década de 90, a Suframa se propôs um planejamento estratégico onde não via a si mesma como mera fiscalizadora e concessora dos incentivos fiscais federais, mas como agência de fomento regional. Hoje, além da crise interna que passa [texto escrito antes da renúncia da superintendente], administra um polo industrial repleto de ruas esburacadas cercado de favelas [http://www.blogmarcossantos.com.br/2011/08/23/suframa-perde-r-69203-milhoes-por-polemica-no-asfaltamento-do-distrito-obras-usam-agora-recursos-proprios/].
A Suframa - cuja administração, em tempos idos, fazia sombra ao governo estadual - precisa de ajuda e de experts [como o finlandês, por exemplo] para o PIM sair da situação de um distrito industrial, que cresceu e amadureceu, e pode envelhecer em alguns setores, do ponto de vista da evolução e inovação tecnológica. É preciso ser intensificados os projetos como CBA, CAPDA, CT-PIM e CIDE . O novo PIM passa por eles [precisa deles]. Para isso, a Suframa precisa de apoio político"

E de dinheiro. A Suframa precisa de dinheiro até para pagar fornecedores. Eu questionava a não participação da Suframa em fóruns internacionais, como a Conferência Global anual promovida pelo The Competitiveness Institute , onde experiências sobre concentrações industriais são compartilhadas entre estudiosos, prefeitos, administradores de clusters, etc. Lembro também que esse ano, em Ouro Preto, MG, aconteceu a 6a Conferência Latino Americano de Clusters; e no mesmo período da VI FIAM, realizou-se na Guatemala, a XV Conferência de Zonas Francas Latinas (a décima foi realizada em Manaus em 2006). Hoje prefiro acreditar que a falta de dinheiro contribuiu para a ausência da Suframa nesses debates. Tendo isso em mente - falta de dinheiro - ainda não entendi a utilidade do Minapim, que é realizado pela Suframa no mesmo período “O evento tem como objetivo difundir a micro nanobiotecnologia no estado da arte com aplicações industriais e soluções para a sociedade, como para a medicina ou o meio-ambiente."
da Feira Internacional. Diz o site do Minapim:

O encontro convida palestrantes de instituições estrangeiras, que veem a Manaus expor o que o Primeiro Mundo faz com as nanotecnologias. Isso deve custar dinheiro. E qual a utilidade prática para nós aqui no PIM. Ficamos de espectadores ? Não estaríamos queimando etapas?

Se especialistas como Martti Launonen, o finlandês; Jukka Viitanen, Roger Voyer, Akifumi Kuchiki, Masatsugu Tsuji, Michael Porter, o mais famoso e respeitado de todos; Jorge Niosi, Richard Florida, Zoltan J. Acs, AnnaLee Saxenian, Ifor Ffowcs-Williams , Benget-Ake Ludvall, Philip Cooke, Christopher Freeman e outros podem nos dizer como foi que algumas concentrações industriais, onde atuaram e estudaram a fundo, passaram do estágio de distrito industrial para clusters industriais de base tecnológica ou baseados no conhecimento; podemos também, irmos direto as fontes e verificar como Cingapura; Bangalore (Índia) e a República da Irlanda, e regiões como Catalunha (Barcelona), Lombardia (Itália), Baden-Wuerttemberg (Alemanha), Rhône-Alpes (França), Ottawa-Toronto(Canadá) conseguiram em tão pouco espaço de tempo obter resultados tão significativos. O e-leitor que me acompanha sabe o que vou dizer agora: em apenas 25 anos de existência, o parque tecnológico de Bangalore conseguiu 2500 laboratórios de P&D. Igualmente extraordinários são os exemplos de Cingapura e da Irlanda. Cingapura monta um cluster, inicia outro.
Até nos anos 80, a Irlanda era um dos países mais pobres da Europa Ocidental. Repito:pobre. E em 2008, antes da crise que passa a zona do euro, o seu PIB per capita, segundo o CIA Factbook, era de US$ 41.700. Isso merece um post. Mas antecipo aqui alguns comentários sobre o cluster de tecnologia da informação e comunicação (ICT) desenvolvido a partir dos anos 90.
Segundo a Comissão Européia,“entre 1980 e 1991, mais de 200.000 irlandês foram tentar a vida em outros países. Mas Durante as duas últimas décadas [90-00], a Irlanda alcançou um notável transformação econômica – deixou de ser um dos mais pobres para se tornar em um dos Estados-Membros mais ricos da União Européia, quando medido pela renda per capita.” ."

Em outra fonte encontra-se:,“Durante a última década, a Irlanda experimentou a mais rápida taxa de crescimento da produção e emprego de qualquer país da OCDE , com o número de empregos em toda economia aumentando em 42% entre 1990-99. Embora o setor de serviços seja a principal fonte deste aumento, o emprego industrial também cresceu rapidamente em sua maior parte em atividades com alta agregação de valor, baseadas no conhecimento [knowledge-based activities]. A escala e a composição deste crescimento deu origem ao termo ‘Tigre Céltico’ e as dúvidas iniciais sobre a sua sustentabilidade foram todas desfeitas,alcançando a mudança estrutural cumulativa.
[O modelo irlandês ] é essencialmente voltado para a exportação, com mais de 55 por cento do PIB [US$ 172,3 bilhões, em 2010, pela paridade do poder de compra, e US$ 111,3 bilhões em exportações] vendido ao exterior e um crescimento médio no volume das exportações de 12% ao ano, durante toda a década de 90. A Irlanda tem consistentemente registrado um superávit comercial ao longo deste período superior a 10 por cento do PIB, principalmente devido ao impulso dado por um grande, globalizado e, cada vez mais sofisticados, setor de ICT. Recentes dados da OCDE indicam que a Irlanda tem a maior proporção de indústrias de alta tecnologia representada na sua fabricação de exportações de todos os países da OCDE.
Atividades de ICT na Irlanda foram caracterizadas principalmente nas fases iniciais de desenvolvimento pela fabricação e montagem de hardware, mas isso foi rapidamente ultrapassando pela produção integrada mais complexa e por operações de software, incluindo aqui empresas locais, pois as operações de montagem mudaram-se para países de mão-de-obra mais barata. Durante a década de 1990, as empresas locais alcançaram taxas anuais de crescimento de emprego de 11%, o valor das vendas aumentaram 25% ao ano e as exportações em quase 40%. Enquanto o setor de eletrônicos continua ser dominado por grandes empresas multinacionais, o emprego no setor de produtos de softwares e serviços é mais dividido entre estrangeiros e empresas locais, principalmente PMEs.”."

Knowledge Workers – 40 PhDs.
Se ficou na cabeça do e-leitor que tudo deve ser cobrado da Suframa, isso deve ser desfeito. É necessário que se diga que todas essa regiões têm uma coisa em comum: universidades ou institutos tecnológicos produzindo conhecimento e inovação. E o que chamamos de mão-de-obra qualificadíssima, eles chamam de knowledge workers. Sem eles não se vai a lugar nenhum. Portanto, nem tudo pode ser debitado na conta da Suframa.
Sobre a necessidade de knowledge workers no PIM, eu conto duas histórias que ouvi na II Semana de Economia, da UFAM, realizada recentemente. Duas palestras em dias e horários diferentes. Em uma palestra, o professor Admilton Salazar, gestor do CT-PIM, que mostrou-se conhecedor de conceitos e das necessidades de um cluster, contou que convidou uma

empresa francesa a se instalar em Manaus, e obteve como resposta, que com incentivos fiscais ou sem incentivos fiscais a empresa viria, desde que tivéssemos uns 40 PhDs em engenharia eletrônica. História similar, ouvi dos professores José Alberto Machado e Mauro Vieira e do empresário Wilson Périco, presidente da CIEAM, sobre a tentativa de trazerem uma empresa de semicondutores para o PIM. A empresa perguntou: Tem areia (óxido de silício)? Sim, responderam. Tem água? Muita. Tem uns 40 PhD em eletrônica?
Não é somente em eletrônica que falta mão-de-obra. O professor Salazar acrescenta:“Falta capital intelectual (PhDs) em eletrônica, em química fina, em micromecânica, entre outras. Mas faltam também investimentos em infraestrutura tecnológica e laboratorial em nível de prototipagem que permita a atração, absorção e retenção dessa mão de obra altamente qualificada, caso contrário os poucos que conseguirmos formar serão atraídos por quem ofereça condições (e salários) mais satisfatórios fora da nossa Região. Os incentivos do PIM são apenas um “plus”, um adicional interessante, mas o fundamental para a atração de investimentos de alta tecnologia é a oferta de Capital Intelectual altamente qualificado.”"


Instituições de Pesquisas
Com quem contam as regiões citadas, em termos de academia? Instituições seculares? Com 300 anos como a Harvard University ? Nada disso. Muitas foram recém criadas para fins específicos. Desde 2000 os indianos criaram sete institutos de tecnologias. Em Cingapura, a Nanyang Technological University (NTU) criou, em 2001, a Escola de Ciências Biológicas, dentro da Faculdade de Ciências; e a Escola de Engenharia Química e Biomédica dentro da Faculdade de Engenharia, para formar capital intelectual para o cluster biomédico (BMS), que teve início em 2000.
Cingapura é um hub e líder mundial na manufatura de produtos eletrônicos e de tecnologia de informação. Começaram exatamente como nós: com montadoras multinacionais, atraíndo DFI, investimento estrangeiro direto. Evoluíram de concentração industrial, para um cluster de firmas inovadoras. Mas partiram para outros clusters como, farmacêutico e o naval. Em 2000, decidiram iniciar o Singapore BMS cluster, e para isso “um fundo de US$ 1 bilhão foi inicialmente alocado para impulsionar o investimento público em várias áreas; para estimular o investimento em diversos novos institutos de pesquisas das ciências da vida (life sciences research institutes), para co-financiar novos projetos de P&D de empresas farmacéuticas globais, e para iniciar a construção de um novo complexo de ciências chamado Biopolis.”
Quem foi para lá ? Não dá para relacionar nesse espaço, mas eis algumas companhias: GlaxoSmith Kline, Schering-Plough, Wyeth-Ayerst, Aventis, Pfizer, Merck Sharp & Dohme, Novartis, Ciba Vision, Abbort, UpJohn, e mais umas cinqüenta empresas.
Antes da atração de empresas, foi criado, em 1987, o Institute of Molecular and Cell Biology (IMCB); em 1995, o Bioprocessing Technology Institute; em 1998, foram estabelecidos o Centre for Drug Evaluation e a Johns Hopkins University Singapore, campus avançado de uma das mais respeitadas universidade do mundo em ciências da vida. Em 2000 foi estabelecida a Agency for Life Sciences, Technology and Research (A*Star); em 2001, foi estabelecido o Bioinformatics Institute (BII); em 2003, a Biopolis foi inaugurada. É grande lista de instituições de apoio criadas. Então, senhor governador, o campus da UEA será construído nas margens direita do rio Negro? Vamos criar algo novo por lá, além de boas instalações prediais. Como escrevi no outro texto, cujo título é mencionado acima, precisamos de uma política educacional de Estado do tipo 50 anos em 5.

A grande diferença entre nós e eles, é que nós criamos a ZFM para ocupar a região, e acabamos preservando a floresta Amazônica Ocidental. Agora produzimos US$ 40 bilhões. Então está tudo muito bom, está tudo muito bem.
Precisamos de uma política de Estado. Brasília tem de ter interesse de transformar o PIM para um parque tecnológico, e ver os benefícios que isso pode trazer para todo o país. Até mesmo no futuro cancelar a política de isenção fiscal. Eu citei alguns exemplos, o pesquisador finlandês cita dezessete exemplos, e somente dois ou três oferecem incentivos fiscais. E ainda assim por período determinado, contando a partir da instalação da indústria. E por isso, por mais que a Suframa se esforce, não vai conseguir sozinha, se não convencer o governo central; e com um forte apoio e parceria do governo do Amazonas.
No que diz respeito a Suframa, cabe-lhe, na medida do possível, pressionar o governo federal (falar é muito mais fácil do que fazer). Mas poderia também fazer a sua parte, abrindo mão de querer que o CBA lhe pertença e permaneça sobre a sua jurisdição. Da forma que ele se encontra não vai atingir os objetivos pelo qual foi criado. E esse imbróglio jurídico tem de ser resolvido. O CBA não pode contratar ninguém. Nunca terá um quadro permanente de pesquisadores. Como é que vai empregar cientistas? Todos os seus colaboradores são bolsistas financiados pela FAPEAM. Sobre o CBA, em 2003, escrevi um texto de 30 páginas intitulado ‘Quem vai Gerir o Centro de Biotecnologia da Amazônia ? O texto continua atualíssimo até hoje. Houve quem tenha tentado levá-lo para o governo do Estado, mas Suframa permaneceu com ele, possivelmente, pelo fato de que entre todos os consignatários do documento que o criou , praticamente, somente a Suframa, cumpriu com os desembolsos acordados. Na realidade, desembolsou a sua parte e muito das partes dos demais sócios. Mas o CBA está muito longe de dar a sua contribuição ou prestar os serviços esperados. A sua gestão deve ser entregue a um profissional que o prepare para vôo solo, para que possa atingir todo o seu potencial e produzir conhecimento como fazem os diversos centros similares espalhados pelo mundo. Nada impede de ter o governo federal como o seu mantenedor, como o INPA, a UFAM, ou algo como a Embrapa. Continuar com está e perca de tempo. Ele não pode ser uma “anta branca no meio da floresta.”
Em tempo: O CBA não é tão importante para o PIM-eletrônico, mas é importantíssimo para o desenvolvimento da região, do uso da biodiversidade, e desta nos econegócios, na biotecnologia e química de produtos naturais, visando à transformação do capital natural em produtos de alto valor agregado;servindo como instituição âncora para o estabelecimento de outros laboratórios na região.

Outro projeto importante mantido pela Suframa é o CT-PIM. Iniciado em 2002, e desenhado para atingir a maturidade em 20 anos. Quem o conhece, e a que se propõe, sabe que é um projeto extremamente estratégico para a perenização do Polo Industrial de Manaus, mas também sofre com o contingenciamento de verbas que passa a Suframa. Portanto, embora tente manter-se dentro programado - por falta de verbas - encontra-se com o cronograma atrasado. O projeto não se encontra no estágio esperado para quase dez anos de funcionamento, embora seja previsto para breve ter a sua sede construída.
O projeto Centro Tecnológico do Polo Industrial de Manaus prevê a criação de um Parque Tecnológico de Microssistemas, que venha fomentar empresas de base tecnológica do cluster, estimular a formação de recursos humanos e promover competências, principalmente, voltadas para a fabricação de circuitos integrados.

A Prata da Casa
Somente os pesquisadores estrangeiros podem colaborar na evolução do PIM ? Nada disso. Fiz e desfiz – para não omitir ninguém - uma relação de mais de vinte profissionais (academia, governo e empresas) que aqui vivem, que podem dar sua colaboração apontando soluções para o PIM.
Poderíamos dividi-los em grupos de trabalho, para apresentarem soluções em: (1) Demandas de infraestrutura/logística; (2) Ameaças externas e internas; (3) Demandas educacionais específicas; (4) Demandas empresariais; (5) Incubadoras; (6) Legislação; (7) Região Metropolitana; (8) Venture Capital e fontes de financiamentos, etc. Obviamente isso é apenas uma idéia.
E que patrocinaria isso? A SUFRAMA, FIEAM/CIEAM, SEBRAE, FAPEAM, Governo do Estado, MCT, MDIC, ANPEI, FINEP, ABIPTI e outros.

Para finalizar gostaria de deixar um excerto do The Economist: “ A razão maior de se esperar mais clustering é que ele funciona... sucesso tende a ocorre em cluster” Citado por Alec Hansen em Introduction to Cluster (2004), onde nos lembra que: “Em 1995 a pequena Cingapura tinha 45% do mercado mundial de discos rígidos para computadores e o condado de Ringkøbing, na Dinamarca, com apenas 120 mil habitantes, no mesmo ano, possuía 60% do mercado mundial de turbinas eólica.” E acrescenta: “O mundo está tornando-se mais especializado, e todas as regiões econômicas precisam está prontas para esse tipo de competição”.
Preparemo-nos, senão não será somente a ZFM que vai acabar, mas o PIM também.
Cláudio Nogueira

1 - Link das reportagens citadas:
Superintendente interino da Suframa diz que a Zona Franca 'acabou': http://acritica.uol.com.br/manaus/Manaus-Amazonas-Amazonia-Superintendente-interino-Suframa-Zona-Franca_0_583141777.html

PS. O CBA é uma 'anta branca'. "Uma anta branca no meio da floresta. É o que parece o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) para o secretário de Política Tecnológica e Empresarial do Ministério da Ciência e Tecnologia, Francelino Grando. A razão da crítica é que o projeto foi concebido sem um modelo de gestão previamente definido, o que vem emperrando o início das atividades do centro.” Publicado no jornal A Crítica em 13 de maio de 2003,texto de Joubert Lima e Terezinha Torres. Também encontrado em: http://www.amazonia.org.br/noticias/print.cfm?id=67468







quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Vale do Silício é bem ali

Pré- texto de Vicente Gioielli para o UOL Tecnologia

Os estereótipos atribuídos ao sertão nordestino são dezenas e muito conhecidos. Os mais difundidos remetem à imagem de rostos e corpos magros, maltratados pela dura vida na seca que racha em milhares de pedaços o chão e os sonhos sertanejos. No entanto, uma pequena cidade encravada no Sertão dos Inhamuns, no Ceará, mostra uma realidade diferente daquela que estamos acostumados a ver e ouvir.

Tauá, município localizado a 340 km de Fortaleza, é pacata como tantos outros recantos do interior cearense. Ficou bastante conhecida pela produção de cabras, ovelhas e bodes, e há poucos meses foi surpreendida por uma novidade cujo nome foi inspirado pelos pastos locais: o Bodefone.

À primeira vista, trata-se de uma cabine telefônica de acrílico, que leva a imagem do caprino. Mas a tecnologia da telefonia deste "orelhão" exige grande conectividade em Internet banda larga - o que o município, surpreendentemente, possui. O sistema utilizado pelos Bodefones é o VoIP (Voice over Internet Protocol), que barateia muito os custos das ligações telefônicas.

Vale do Silício é bem ali
Publicado em 30 de outubro de 2011 no Diário do Nordeste
Por Mauro Oliveira - ex-sec. Telecomunicações do Ministério das Comunicações

Steve Jobs "partiu pra sua nuvem", recentemente, sem a autorização de seus 5 milhões de admiradores (youtube.com/watch?v=66f2yP7ehDs). "Menino danado" do Vale do Silício americano, ele se tornou um ícone de inovação tecnológica para os terráqueos cibernéticos. Entretanto, Malcolm Gladwell em seu instigante best-seller "Outliers" (Fora de Série) argumenta que o talento inato é apenas uma parte do sucesso. Segundo Gladwell, sem formação, oportunidade e ambiente cultural favorável, Steve Jobs, Bill Gates e outros famosos passariam, provavelmente, despercebidos no "international digital jet-set".

Ou seja, ser a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo e numa cultura favorável é fundamental para o "self-made man". Shakespeare, talvez não tivesse a mesma notoriedade se nascido na terra do Cafita, o querido animador da sociedade itapipoquense durante várias décadas e que inspirou a criação da RUI (www.maurooliveira.com.br), a primeira "rádio na Internet", em 1992.

O município de Tauá, no Ceará, dá ares de ter compreendido cedo o mundo de Gladwell.

O futuro de seus jovens talentosos será afetado pela cultura digital que o município inaugurou no início desse século, que já se vai rápido demais.

Tendo a universalização da Internet "no rumo da venta", Tauá tornar-se-á, em novembro deste ano, o primeiro município digital do Brasil com 100% de cobertura de Internet gratuita em seu território.

Não é por acaso que o item banda larga é um dos considerados pelo Fórum Econômico Mundial que avaliou a Suiça como o país mais competitivo do planeta. Na Finlândia, mais de 96% das residências têm banda larga (100 Mbps, assegurados por lei), o que certamente contribui para que ela seja a nação mais próspera do mundo, segundo o Legatum Prosperity Index de 2009, publicado na famosa Economist.

A primeira aplicação (uso) em grande escala do nosso Cinturão Digital deverá acontecer em Tauá, experiência que poderá ser reaplicada para o restante do estado.

Trata-se do projeto LARIISA, uma solução para apoiar a tomada de decisão na área da saúde cujo protótipo está sendo iniciado.

Antes, o município já tinha marcado presença no cenário eletrônico nacional com vários projetos de inclusão digital, tais como os quiosques digitais em lugares públicos e o Teletauá, popularmente conhecido como Bodefone, orelhões que permitem ao cidadão comum fazer chamadas telefônicas gratuitas, via computador.

A agenda Tauá 2020 prevê, em breve, o lançamento do conceito de cidade universitária em Tecnologia da informação (TI) com a instalação de cursos de graduação e mestrado profissional em TI.

Paralelamente, um parque tecnológico em TI se inicia com a consolidação de empresas do projeto Incubadoras Digitais e com a cooperação técnico-cientifica firmada com a Microsoft e com o LDS, Laboratório de Desenvolvimento de Software do IFCE (Instituto Federal Cearense).

Que a ousadia de Tauá em quebrar velhos paradigmas econômicos, por vezes ineficazes no semiárido, inspire outros municípios a investirem na democratização da TI como ferramenta de desenvolvimento socioeconômico.

Quem sabe, em 2020, quando "gringos" chegarem no Pinto Martins a procura do Vale do Silício Cearense, qualquer "cabra da peste" saiba responder: é bem ali, lá em Tauá!

Mauro Oliveira - ex-sec. Telecomunicações do Ministério das Comunicações

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Morte de um iGênio

Morreu ontem, dia 5 de outubro, aos 56 anos, o mais famoso garoto propaganda do mundo, Steve Jobs. Nessa função usava sempre uma única roupa: uma camisa preta, uma calça jeans e um tênis. Ninguém lançava um produto melhor do que ele. Steve Jobs era também o co-fundador e CEO, aquele que manda em todos, da Apple. Foi chamado para inovar em algum outro lugar. Sorte de quem vai recebê-lo.
Será, possivelmente, lembrado como uma das mais inventivas mentes do fim do século XX, e início do novo milênio; e como o homem que criou a intimidade do cidadão comum com a tecnologia digital. Segundo alguns, ele foi o homem que inventou o futuro.
Ele inventou coisas que não sabíamos que precisávamos como o personal computer, o Apple II; foi o primeiro a produzir o chamado all-in-one (todos componentes agrupados, como CPU, monitor, drive de CD, etc.), iMac, MP3, iPod, iPad, iPhone, computadores com menos de 1 cm de espessura, até chegar nos tablets. Inventou coisas que hoje não conseguimos viver sem elas. Foi também o primeiro a usar o mouse em um computador. Muito antes da internet ser criada, profetizou que os computadores nos uniria a todos em uma grande rede.
Não será difícil a Apple continuar inovando sem ele, mas acho difícil encontrarem alguém que pare a mídia mundial no lançamento de um novo produto como ele fazia. O mundo adorava ver o criador e a criatura juntos.
O que pouca gente sabe que a gravadora dos Beatles chamava-se Apple Records, e quando Steve Jobs e Steve Wozniak criaram a maça mordida, tiveram de pedir autorização da Apple Records, que concordou desde que a nova empresa não entrasse no ramo de gravação ou comercialização de discos ou records.
Abaixo tem um vídeo que se tornou famoso, onde ele fala dele mesmo em uma formatura na Stanford University, na Califórnia. É interessante por vários motivos. Mas antes do vídeo, temos algumas frases ditas por ele:

“Não me incomodo com o sucesso deles. Só me incomodo com o fato de que eles fazem produtos de terceira categoria”. -- Sobre a Microsoft, em 1996

Relações destrutivas não ajudam ninguém na indústria atualmente” -- Ao anunciar a parceria com a Microsoft, em 1997

“Não faz sentido olhar para trás e pensar: devia ter feito isso ou aquilo, devia ter estado lá. Isso não importa. Vamos inventar o amanhã, e parar de nos preocupar com o passado” -- Em 2007, comentando sua orientação aos funcionários da Apple em 1997, quando voltou à empresa:

“Se você faz algo de bom e tudo dá certo, acho que é hora de pensar em outra coisa e tentar adivinhar o que vem pela frente”: -- 2006, em entrevista ao canal NBC:

“Não penso muito em legado para as próximas gerações. Penso apenas em acordar de manhã e trabalhar com pessoas brilhantes para criar coisas que, espero, sejam tão apreciadas por outras pessoas como são apreciadas por nós”. -- Em 2007, em evento do Wall Street Journal

“Para se ter sucesso, é necessário amar de verdade o que se faz. Caso contrário, levando em conta apenas o lado racional, você simplesmente desiste. É o que acontece com a maioria das pessoas.” -- Em 2007, em evento do Wall Street Journal:

“Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao Paraíso não querem morrer pra estar lá. Mas, apesar disso, a morte é um destino de todos nós. Ninguém nunca escapou. E deve ser assim, porque a morte é provavelmente a maior invenção da vida. É o agente de transformação da vida. Ela elimina os antigos e abre caminho para os novos”. -- Em 2005, durante palestra na Universidade de Stanford, um ano após ter passado por cirurgia para retirada de um tumor no pâncreas.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Irmão Sol, Irmão Lua, Irmão Zé Alberto


 “O temor do Senhor é o começo da sabedoria” Salmo 110


Será que existe alguém que entende como funciona a cabeça de Deus ? Possivelmente, somente Ele mesmo e o Filho de Dele, o que é a mesma coisa.
José Alberto Barbosa partiu hoje, cercado pela esposa, filhos, cunhados, irmãs, parentes e amigos que o amavam muito. Partiu em paz , em clima de oração, todos orando serenamente em sua volta, cantando hinos de louvares. Partiu como poucos partem. Partiu às 18 horas, hora do Angelus.
Partiu dessa para melhor. Aí é que reside a questão. O Barbosa, como o chamavam uns, ou Zé Alberto chamado por outros, partiu para o Paraíso. Só não foi para lá se não quis. Portador de doença na próstata há uns seis anos, tendo nesse período vários momentos difíceis, teve oportunidade de sobra de se arrepender de seus pecados, condição simplória para se entrar no Paraíso.
A Fabiana sempre me questionou: Então basta o sujeito se arrepender no último minuto que está tudo perdoado? Exatamente. Não foi isso que aconteceu com o ladrão arrependido ao lado da Cruz de Cristo ?
- “Em verdade te digo hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” ( Lucas 23,43)
Pronto simples desse jeito.
- Então quer dizer que o sujeito pinta e borda, e no último segundo se arrepende, ele está salvo ? Pergunta ela.
-Exatamente, respondo eu. Só que tem um detalhe: há milhões de pessoas que morrem todos os dias que não se utilizam deste presente de Deus, por alguns motivos: não acreditavam em Deus; tinham outras religiões e não sabiam que isso era possível ou morreram tão rapidamente, inesperadamente.
E há os sujeitos que pintam e bordam, que não vão se lembrar de se arrepender no último segundo. Deus que é perfeito e conhece a cada um, vai permitir ou não que o sujeito se lembre de pedir perdão no último segundo. E uma doença prolongada, pode produzir um sofrimento aqui, justamente para que não haja sofrimento lá, e a pessoa tenha bastante tempo para fazer uma reflexão e se arrepender sinceramente de seus pecados. É sempre bom lembrar que a Deus ninguém engana.
Conheci um senhor que aprontou muito, várias mulheres, várias esposas ao mesmo tempo, filhos da mesma idade com mulheres diferentes. Fazia séculos que não entrava em uma igreja, um dia disse que tinha sonhado com Dom Bosco, e este lhe dizia  que se confessasse. Ex-aluno do Colégio Salesiano de Manaus, atendeu o pedido do santo. Se estava realmente arrependido, e tinha firme próposito de não mais repetir o que fazia de errado, se contou tudo para o padre, nunca saberemos; mas pouco mais de um mês depois veio a falecer.
Então, é Deus que conhece a cada um de nós. Se vamos ou não nos arrepender das nossas faltas no último segundo, isso será decidido por ele. Se deixarmos para a última hora, talvez isso não ocorra. Se o Barbosa tivesse deixado para a última hora, estaria em situação difícil, por que na última hora não estava mais acordado.
O perdão de Deus como consequência do nosso arrependimento é expresso na Bíblia de várias formas, como a do ladrão citada acima. Tem o perdão dado ao rei Davi, que pecou para ficar com a mulher de Urias;  Maria Madalena foi perdoada, e assim o Filho Pródigo. Existem várias outras passagens da Sagrada Escritura sobre a misericórdia de Deus.
“ O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência. Ele não está sempre a repreender, nem eterno é o seu ressentimento. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas.” (Salmo 102,8-10).

A Matemática da Fé e a Ausência de Lógica

Desde que o Zé Alberto adoeceu - este que já era uma pessoa muito religiosa, cercado de familiares e amigos religiosos - as orações foram intensificadas. Foram rezados centenas de rosários. Multiplicaram-se os encontros, várias noites de orações, vários pedidos, várias súplicas, muitos louvores e agradecimentos. Sem sobra de dúvida a doença do Zé serviu para sarar muita gente, e com certeza a ele mesmo. Somando-se  crença e fé com a inteligência, com certeza gerou o arrependimento. Em seis (ou sete ?) longos anos de dor, com o sofrimento e as orações o Zé Alberto se penitenciou, e ganhou um lugar melhor que esse. Mal ele sabia que seria justamente no dia do aniversário de sua mãe, Francisca, por causa do Francisco. Não pode ter sido coincidência.
Mas agora vem a pergunta que não quer calar: O José Alberto partiu para o Paraíso, mas em contrapartida deixou a esposa, ainda jovem, três filhos, mais jovens ainda, três netos e uma multidão de amigos sofrendo a dor da saudade. Isso tem lógica ? A primeira resposta é: Isso não foi feito para ter lógica. A fé é uma coisa irracional. Deus é que nem eletricidade, a gente sente mas não vê.
Vou repetir: O Zé Alberto partiu para o Paraíso e a Vânia ficou sofrendo. Sofrimento repetido, pois ainda adolescente passou por tudo isso com a doença do pai dela. Isso tem lógica ? Pare e pense quantas coisas na vida você entende como funciona. Muita gente não entende como é que a imagem da TV chega na sua casa, e várias outras coisas simples da vida, como é que vai entender isso ? Você entende como um óvulo é fecundado e sozinho, vai se multiplicando, se multiplicando e se transformando,  se transformando, até se formar um ser humano ? Aquele que deu a vida  gratuitamente  tem o direito de tirar quando bem lhe aprouver porque tudo a Ele pertence.
Quantas pessoas foram curadas pela doença do Zé Alberto, talvez, ele tenha sido chamado para outra missão, outra etapa de sua existência. Quem sabe a ele foi designado um grupo de pessoas por quem deve orar e pedir ao Pai constantemente, coisa que não faria se estivesse aqui, por motivos óbvios. Talvez o plano inicial era somente adoecer e ficar curado, mas tocou tanta gente, que foi premiado. Quem sabe... ?  Talvez... Nunca saberemos.
O que sabemos é devemos agradecer a Deus por termos tido ele em nossas vidas. Sempre muito prestativo,sempre disposto ajudar, sempre encabeçando, gerenciado ações de ajuda aos outros. Agradecer a Deus, como ele mesmo agradeceu, por tantos momentos felizes vividos com a sua família, com os amigos. As viagens, os churrascos dominicais na Vivenda, e muitos outros grandes momentos.
Talvez não tenha vivido como um santo, como nós também não vivemos, mas Deus na sua infinita misericórdia, fez uma caminhada com ele, e o preparou para a Sua Glória.
Vai ser muito difícil para a sua família viver sem ele, mas peço a Deus que lhes dê força nesse momento tão difícil.
Irmão Zé Alberto intercessada por nós, que estaremos aqui sempre intercedendo por vós.

Cláudio Nogueira