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terça-feira, 8 de março de 2022

Putin e o Novo Holodomor


 O Holodomor, assim como o holocausto nazista contra os judeus, consistiu em um genocídio contra a população da Ucrânia, quando morreram de fome mais de 7 milhões de ucranianos por terem seus alimentos confiscados até morrerem por ordem de Stalin. 

Introdução

O principal argumento de Putin para invadir um país soberano, livre, vizinho, e causar a carnificina que está causando, é que se a Ucrânia entrasse na OTAN a segurança da Rússia estaria ameaçada. Uma hipótese, uma suposição, uma probabilidade, mas nada realmente concreto. A desgraça que ele está causando e as atrocidades que está cometendo, não são suposições; é uma tragédia real. É a destruição de uma nação inteira.

Ele não está só. Tem muita gente boa, entre eles vários amigos, dizendo que foi um erro dos Estados Unidos expandir a OTAN depois do fim da URSS. Por isso apoiam as ações de Putin. Por esse motivo escrevi esse texto. Para deixar para os meus netos o que penso de tudo isso. E responder os questionamentos dos meus filhos.

Quando Joe Biden (“velho gagá”, segundo alguns) disse várias vezes que Putin iria invadir a Ucrânia, ele e seu chanceler repetiam o mantra de que o Biden estava criando pânico. Biden estava certo. Muito provavelmente ele recebeu informações dos serviços de inteligência americano e europeu. 

Eu escrevo baseado em vídeos que vi, no que li em várias fontes, em diversas línguas, até em russo. Hoje isso é muito fácil. Sou googleglota. Essas são as minhas fontes. E acredito que os meus amigos que apoiam o Putin também tenham essas fontes disponíveis. E, também, não disponham de informações privilegiadas de serviços de inteligência. Então estamos iguais.

Os onze ministros do STF leem a mesma Constituição brasileira, mas, muitas vezes, tem interpretações diferentes. Assim somos nós.

Há quem defenda os atos de Putin e use argumentos opostos aos meus, após ter lido e visto as mesmas coisas que li e vi. É similar a situação do copo com água pela metade. Duas pessoas olhando, uma diz que ele está quase cheio, outra que está quase vazio.
David Magalhães escreveu na Folha de São Paulo, “Invasão da Ucrânia Racha Grupos Bolsonaristas”.[1] Faltou acrescentar ao título: e a esquerda também; mas acrescentou: “Tem uma esquerda que entende que, independentemente da natureza do regime, qualquer tipo de resistência ao imperialismo e aos EUA é válida.”

Há pessoas que pensam assim há muito tempo: “Se o governo americano está envolvido, apoio a outra parte.” Outros são a favor do Putin “Porque os Estados Unidos boicotam Cuba; bateu de frente com Hugo Chaves e Putin está dando apoio ao Maduro”; e armas também. A afirmação de David Magalhães está difícil de ser contestada.

Poderia começar listando um monte de coisas erradas feitas pelos americanos. Vou lembrar só uma que ouvi: “George Bush Jr. invadiu o Iraque baseado na mentira espalhada por ele: que os iraquianos tinham armas químicas”. Mentira comprovada. Mas uma canalhice não justifica outra. Além do que Saddam Hussein era ditador que já havia matado muita gente; inclusive um genro. Ainda que o pretexto fosse falso, os americanos não bombardearam o povo do Iraque, mas deram fim a uma ditadura.
Para dar uma equilibrada na geopolítica, na parte que nos cabe nesse latifúndio, eu gosto bastante da união e participação do Brasil no BRICS (união econômica informal movida por interesses comuns composta pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). E dizia (pretérito): por que não “alugar”, com transferência de tecnologia, a Base de Alcântara[2] ou a Barreira do Inferno[3] para a China e não para os Estados Unidos? Por que temos de nos alinharmos sempre com os americanos? Assim teríamos como barganhar com eles. Devemos aprender com o presidente turco.

Os americanos não são santos. Eles têm culpas no cartório. Mas cada caso será julgado separadamente. No momento que escrevo isto, os russos atacam hospitais, maternidades, famílias, escolas, prédios residenciais, civis e uma usina nuclear na Ucrânia; correndo-se o risco de se ter uma tragédia muito maior que Chenobyl. Toda essa agressão a uma nação soberana. Quase dois milhões de pessoas desabrigadas. Milhares de famílias desfeitas, crianças foram para a Polônia sem os pais; homens de 18 a 60 anos não podem deixar o país. Milhares de mortos dos dois lados. Toda essa guerra baseada em suposições (ou desculpas esfarrapadas) de Putin; não dá para concordar. Antes da minha preferência política, vem minha opção cristã.

A culpada é a OTAN que está se espalhando na Europa para invadir a Rússia? Vamos ver que se quisesse fazer isso já teria feito há muito tempo.
Por que depois de trinta anos do fim da Guerra Fria a OTAN continuou a se expandir? Abordaremos isso também.

Motivos Putinianos para a Guerra.

O argumento principal de Vladimir Putin era de que a entrada da Ucrânia na OTAN ameaçava a segurança da Rússia. Isso precisa ser comprovado. Essa afirmação é apenas para camuflar o real motivo? Algum outro motivo?

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, na quarta-feira, 3 de março, acusou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, um judeu, de presidir “uma sociedade onde o nazismo está florescendo”. Nazismo praticado por um judeu? Ele apenas repetia o que o seu chefe disse na TV para justificar a guerra contra Ucrânia:

 "Tomei a decisão de realizar uma operação militar especial. Seu objetivo será defender as pessoas que há oito anos sofrem perseguição e genocídio [???] pelo regime de Kiev. Para isso, visaremos a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia."[4] 

 De que ele está falando? Ele está se referindo do direito de Kiev de defender o seu território contra forças separatistas apoiadas por Moscou?

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Sem moral. Dê uma olhada no Google sobre a posição de Putin quando Kosovo queria se separar da Sérvia em 2008. Ele disse que “somente deveriam meter-se nesse assunto as duas partes envolvidas: Belgrado e Pristina”. Anotaram isso? Anotem isso aqui também [5]:

 "O reconhecimento da independência do Kosovo seria ilegal e imoral", disse Putin, que advertiu que o reconhecimento do novo Estado trará o retorno da instabilidade aos Balcãs. [Ops! Putin falou em “reconhecimento” e “instabilidade.”?]

A Rússia declarou que nunca reconhecerá a independência kosovar sem o beneplácito de Belgrado, o que intensificará seu atual atrito com o Ocidente em temas de segurança e solução de conflitos.

Após recuperada a autoestima pelo renascimento econômico, Moscou aparece agora como o porta-bandeira do direito internacional, da inviolabilidade das fronteiras dos Estados e da luta contra os separatismos. 

“É a primeira vez que se aborda a saída de uma região de dentro de um Estado soberano. O Kosovo será um precedente para quase 200 regiões e Estados do mundo", advertiu o ministro de Exteriores russo, Serguei Lavrov.

Agora junte tudo o que foi dito acima com que o Putin falou no dia 21 de fevereiro. É igual juntar água e óleo; não combinam. Putin anunciou o reconhecimento das autoproclamadas “repúblicas populares" de Donetsk e Lugansk, no leste da Ucrânia. E não esqueça que ele também apoiou a regiões separatistas Abecásia e Ossétia do Sul na Geórgia, contra quem esteve em guerra em 2008. 

Interessante é que de 1994 a 1996 a Rússia lutou para evitar a independência da Chechênia.  Nenhuma nação decente ou indecente reconhece uma região que deseja se desmembrar sem que o governo separatista tenha assumido total controle sobre o novo país. Até hoje nenhum governo reconheceu a República da Chechênia que se separou da Rússia.

Vou abrir um parêntese aqui. A pergunta que não quer calar é a seguinte: a China vai reconhecer as “repúblicas” do Donbass? E se a Europa e os Estados Unidos reconhecerem a independência de Taiwan, que é um país de fato e de direito há mais de 70 anos? Fecha parêntese.

Putin, que segundo assessores, não usa creme de barbear, mas óleo de peroba, disse que estava entrando nessas “repúblicas” como “força de paz”. Por que estou admirado? Falar a verdade não é seu forte. Ele trouxe 150 mil soldados para a fronteira com a Ucrânia para darem um passeio? Pegar um ar fresco em outro lugar? Joe Biden dizia: “Ele vai invadir.” Putin contestava: “Os americanos estão causando pânico.” Joe Biden dizia. “Depois da Olimpíadas [de inverno em Pequim] ele vai invadir.” Putin dizia: “Os americanos estão espalhando pânico.”

Os russos para mostrarem que não iriam invadir, divulgaram um vídeo onde vários tanques eram postos em um trem e indo, supostamente, embora. Na realidade, hoje se sabe que aqueles tanques estavam com problemas.

Desde a invasão da Ucrânia Putin vem prendendo manifestantes russos que se opõem a guerra. Mandou fechar jornais e canais de TV. E determinou que as notícias fossem retiradas apenas das informações oficiais fornecidas. Proibiu o uso da palavra “guerra”. Tem de ser chamada de “operação especial.” Um dos últimos jornais independente, Novaya Gazeta (novayagazeta.ru), não foi fechado ainda, talvez, porque o seu editor chefe, Dmitry Muratov, é um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz de 2021. 

O Verdadeiro Motivo

Mas voltemos ao discurso do Putin em 21 de fevereiro, três dias antes da invasão, onde sem meias palavras - não foi ato falho - ele foi direto ao assunto. Segundo Putin a Ucrânia não tem direito de existir como nação independente, livre e soberana. A Ucrânia pertence a Rússia: "A Ucrânia moderna foi criada inteiramente pela Rússia, mais precisamente pelos bolcheviques, a Rússia comunista.” Disse com uma convicção de quem demonstra parecer ter o mesmo sangue que corria nas veias de Stalin.


A Ucrânia moderna não foi "criada" pela Rússia, uma vez que o Estado nacional ucraniano independente, a República Popular da Ucrânia, existiu por cerca de dois anos antes de ser tomada pelo Exército Vermelho em 1920. Antes já havia sido dominada e dividida pelos seus vizinhos, incluindo a Rússia imperial; pelo Império Austríaco-Húngaro e pelo Império Otomano; mas em 23 de junho de 2017 nascia a República Popular da Ucrânia.

 "A Ucrânia virou uma colônia de marionetes [não é marionete o ditador da Bielorrússia, que com ajuda de Moscou está no cargo desde 1994] Os ucranianos desperdiçaram não só tudo o que nós demos a eles durante o tempo da União Soviética, mas tudo o que eles herdaram do Império Russo. Mesmo o trabalho de Catarina, a Grande", disse Putin.[6]

 Não escondeu que para ele a Ucrânia tem de ser tutelada pelos russos. Eles é quem sabem o que é melhor para os ucranianos:

 "Portanto, em 1991 [após o colapso da União Soviética], ela optou por uma imitação imprudente de modelos estrangeiros que nada têm a ver com a história ou com as realidades ucranianas."[7]

Será que Putin já ouviu falar em autodeterminação dos povos? "Isso é bobagem." 

O site Mundo Ao Minuto[8] comentou as palavras de Putin sobre a Ucrânia:

Perante este cenário, confrontados com diversos movimentos nacionais, os primeiros dirigentes bolcheviques tentam e conseguem integrá-los na União Soviética, fundada em 1922, mas permitindo que mantivessem a sua identidade, e uma estrutura interna de tipo estatal.

Mas houve comunistas ucranianos que pretendiam mais poder, não queriam o estatuto de república autónoma, antes um Estado soberano. Foi uma interessante abordagem; em resultado disso a propaganda soviética aceitava praticamente a entidade separada ucraniana. Mas depois tentaram castrá-la, aproximar a língua ucraniana da língua russa. Mas a língua mais próxima do ucraniano é o bielorrusso, seguido do polaco, e o russo apenas surge em seguida.

Exato. Esta semana vi na CNN americana um professor polonês comentando sobre isso: “É dito que russo e ucraniano são tão parecidos quanto o português e o espanhol. Mas não são. Lembra mais o português e o francês.”

Portanto, a Ucrânia moderna não é uma criação de Lenin e dos bolcheviques. Depois da afirmação de Putin, duas dezenas de historiadores provaram por a+b que ele estava errado e viram qual era o seu real interesse em negar o direito da existência de uma Ucrânia livre.

E ainda que fosse verdade. Toda essa argumentação é ridícula. Em 24 de agosto de 1991, a Ucrânia declara ser novamente uma nação independente retirando-se da URSS. Foram mais de 30 anos como nação soberana. Putin sempre sonhou em tomá-la de volta, por isso é que, mesmo sem pertencer a OTAN, ele contestava a aproximação da Ucrânia com o resto da Europa. 

Se essa moda pegar, a Colômbia vai querer o Panamá de volta, que se desmembrou dela em 1903; o México a Califórnia, território que era seu e onde o espanhol é amplamente falado; o Brasil vai invadir o Uruguai, que se separou de nós em 1828. Singapura teria de voltar para Malásia. A Europa, então, seria o caos total. O mapa da Europa mudou muito, e não é preciso ir muito longe, basta vermos os séculos XIX e XX, quando alguns países tiveram os seus territórios aumentados e outros diminuídos: Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e até mesmo a Ucrânia, para citar apenas alguns. Vamos ressuscitar a Prússia? Sem falar no Império Otomano que o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, ditador-em-treinamento, frequentemente relembra com nostalgia. Esse de tolo não tem nada. Apesar de ser membro da OTAN, analistas internacionais dizem que ele faz, devido a posição geopolítica da Turquia, com que Estados Unidos e Rússia não discordem dele. Está introduzindo gradualmente a ditadura na Turquia e ninguém diz nada.

A Volta da URSS?

Seriam atos individuais de alguns soldados o fato de que alguns tanques que invadiram a Ucrânia tivessem bandeiras da antiga URSS?

Em 2005, no Parlamento russo, Putin disse que “o colapso da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século 20". Como não ter medo desse saudosismo? Finalmente depois de vários séculos os ucranianos estavam passando pela experiência de terem um país livre.

Os discursos do Putin provam que os ucranianos estavam certos em procurar proteção na OTAN. Percebiam as verdadeiras intenções do líder russo. Não queriam ser dominados novamente. Eles não esquecem Holodomor, o holocausto de Stalin contra o povo ucraniano. Veja o vídeo no final do texto. Está em inglês com legenda em português.

O genocídio praticado por Stalin, conhecido como A Fome Ucraniana, ou Holodomor, aconteceu no inverno de 1932-1933. Ao contrário de outras fomes na história causadas por pragas ou secas, esta foi causada deliberadamente por Stalin que queria substituir as pequenas fazendas da Ucrânia por coletivos estatais e punir os ucranianos de mentalidade independente que representavam uma ameaça à sua autoridade totalitária.

Stalin confiscou todos os alimentos domésticos e grãos da população até que morressem de fome; e proibiu o deslocamento para que não fossem buscar ajuda em outros lugares. Milhões de ucranianos morreram de fome; uma catástrofe em tempos de paz sem precedentes na história.

Em 10 de novembro de 2003 a ONU registrou através de uma Declaração Conjunta, assinada por muitos países, o septuagésimo aniversário deste genocídio ocorrido na Ucrânia no inverno de 1932-1933[9].  

Na antiga União Soviética, milhões de homens, mulheres e crianças foram vítimas das ações e políticas cruéis do regime totalitário. A Grande Fome de 1932-1933 na Ucrânia (Holodomor), que tirou de 7 milhões a 10 milhões de vidas inocentes e se tornou uma tragédia nacional para o povo ucraniano. A este respeito, notamos as atividades em observância do septuagésimo aniversário desta Fome, em particular organizadas pelo Governo da Ucrânia.

Em homenagem ao septuagésimo aniversário da tragédia ucraniana, também comemoramos a memória de milhões de russos, cazaques e representantes de outras nacionalidades que morreram de fome na região do rio Volga, norte do Cáucaso, Cazaquistão e em outras partes da antiga União Soviética, como resultado da guerra civil e da coletivização forçada, deixando cicatrizes profundas na consciência das gerações futuras.

Expressando solidariedade às vítimas da Grande Fome, conclamamos todos os Estados Membros, as Nações Unidas e suas agências especiais, organizações internacionais e regionais, bem como organizações não governamentais, fundações e associações a prestar homenagem à memória daqueles que pereceram durante aquele trágico período da história.

Reconhecendo a importância de conscientizar o público sobre os trágicos eventos da história da humanidade para sua prevenção no futuro, deploramos os atos e políticas que provocaram a fome em massa e a morte de milhões de pessoas. Não queremos acertar as contas com o passado, ele não pode ser mudado, mas estamos convencidos de que expor as violações dos direitos humanos, preservar os registros históricos e restaurar a dignidade das vítimas através do reconhecimento de seu sofrimento, orientará as sociedades futuras e ajudará a evitar catástrofes semelhantes no futuro. Precisamos que o maior número possível de pessoas conheça esta tragédia e considere que esse conhecimento fortalecerá a eficácia do Estado de direito e aumentará o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais.

Some a este holocausto as declarações recentes de Putin; e alguém ainda tem dúvidas que a Ucrânia precisa ser membro da OTAN para se proteger da Rússia? Possa parar por aqui ou ainda preciso continuar?

Alguém tem dúvidas de porque os ucranianos, civis e militares, estão lutando tão bravamente por seu país, para continuarem livres? Se ucraniano fosse, eu lutaria para a Ucrânia entrar na OTAN e ficar o mais longe possível da Rússia.

A Ucrânia Perdeu a Oportunidade

Paradoxalmente os ucranianos estão pagando hoje por não terem entrado na Organização. Desde o discurso de Putin, em 2005, lamentando o fim da URSS, eles já deveriam ter entrado.

Quando as pequenas repúblicas bálticas se associaram a OTAN, em 2004, a Rússia ainda ensaiou uma reação, mas estava sem condições e logo desistiu. Duas dessas repúblicas fazem fronteiras com a Rússia. Elas serão invadidas pelo Putin? Serão não companheiro. Ele é genocida, mas não é idiota. Se tocar nelas vai ter de se entender com os 30 países que compõem a OTAN. Assim determina o seu Artigo 5o“Um ataque contra um Aliado é considerado um ataque contra todos os Aliados”. Por isso invadiu a Ucrânia enquanto ela ainda não entrou na aliança militar. Ele invadiu a Ucrânia ciente que a OTAN não se meteria diretamente com armas e soldados. Como os governantes dos Estados Unidos, França, Inglaterra e todos os demais membros iriam justificar para a sua população mortes e destruição no seu território por uma guerra que não lhes pertence? Joe Biden terá em novembro a chamada eleição na metade do mandato e Emmanuel Macron, em abril próximo, vai concorrer a reeleição na França. Se até eu sei disso, imaginem o Putin.

O que a OTAN está precisando é de uma desculpa do tipo Pearl Harbor. O presidente Franklin Roosevelt, em 1941, prometeu ao povo americano que não se meteria diretamente no conflito europeu, os japoneses lhe deram a oportunidade que desejava. Será que Putin vai fazer o mesmo? Estônia e Letônia fazer fronteira com a Rússia e são membros desde 2004 da OTAN. Ele vai invadí-las usando o mesmo argumento de que isso põe em risco a segurança da Rússia? Já respondi essa pergunta um pouco acima. A resposta é não.

O medo da Ucrânia era compartilhado por outros países da Cortina de Ferro. Mas esses não esperaram como a Ucrânia esperou. Foi por isso que a República Tcheca (1999), Polônia (1999), Hungria (1999), Romênia (2004), Eslováquia (2004), Bulgária (2004) todos invadidos, dominados e controlados por Moscou, antes ou após a Segunda Guerra Mundial, e mais a Estônia (2004), Letônia (2004) e Lituânia (2004) ex-países da URSS e as repúblicas da Croácia (2009), Macedônia do Norte (2020) e Montenegro (2017), que faziam parte da Iugoslávia, entraram de bom grado na OTAN. Todos esses países faziam parte do Pacto de Varsóvia, aliança militar dos países comunistas, que se desfez junto com a desintegração da URSS. Eles viam na OTAN uma garantia de que jamais seriam subjugadas e dominadas pelos russos novamente.

A Hungria em 1956, a Tchecoslováquia em 1968 (Primavera de Praga) e a República da Geórgia em 2008 foram duramente reprimidas quando tentaram sair do domínio russo.

Semana passada, antes da invasão, Putin advertiu (proibiu?) a Suécia e a Finlândia sobre a entrada delas na OTAN.

Esta semana a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Mirella Marin, disse que a Rússia está forçando seu país a entrar na OTAN. E a da Suécia, Magdalena Andersson, afirmou que a Suécia é soberana para decidir sozinha.

A Ucrânia Pagou pela Indecisão.

A Ucrânia é um país parceiro da OTAN desde 1999; e a partir de 2004 ela procurou estreitar laços com a União Europeia. Em 2008, iniciou um processo para se tornar membro efetivo. Contava com os benefícios econômicos que viriam de uma possível adesão. Observava o que tinha acontecido com ex-países comunistas que tinham aderido. Em 2014, quando estava tudo preparado para firmarem acordos, o então presidente ucraniano Viktor Yanukovych (2010-2014) a pedido de Putin não assinou. Mas obteve de Moscou um empréstimo de bilhões de dólares. Esse posicionamento causou protestos nas ruas com repressão policial. E toda aquela confusão foi amplamente divulgada. A chamada Revolução da Dignidade, também conhecida como a Revolução Maidan, ocorreu em fevereiro de 2014, no final dos protestos do Euromaidan, quando confrontos mortais entre manifestantes e as forças de segurança na capital ucraniana, Kiev, culminaram na deposição do presidente. 
O resultado das manifestações pró-ocidente resultaram na anexação da Crimeia pelos russos. De lá para cá a Ucrânia se aproximou mais do Ocidente. Putin se fingia de morto de vez em quando; reclamava aqui e ali, e com isso ia ganhando tempo enquanto se armava cada vez mais; até achar que o momento chegou. 

Isso é um resumo extremamente simplificado. O site Ukraine-NATO relations[10] mostra com riqueza de detalhes e com todas as fontes das citações mencionadas, como a OTAN tem lidado com as (in)decisões da Ucrânia em aderir ou não a Organização. Desde junho de 2002 há pesquisas mensais de opiniões públicas investigando se Ucrânia deveria ou não entrar na OTAN. A adesão teve uma maioria de 53% de apoiadores, contra 34% de opositores, em outubro de 2014. Em dezembro de 2016 subiu para 71% a favor e 23% contra. Em junho de 2019 era 53% a favor e 29% contra. E em dezembro de 2021 era 59% pela adesão e 23% contra. A partir daí Putin começou a falar mais grosso. Em janeiro deste ano foi 64% a favor e 17% contra. Aí Putin pirou e decidiu invadir.

A Expansão da OTAN/NATO

Se houvesse interesse da OTAN de invadir a Rússia isso teria sido feito quando esta estava bastante debilitada. Quando as pequenas Estônia, Letônia e Lituânia informaram que estavam saindo da URSS (antes também pertenceram ao Império Russo), a falida Rússia não teve força para impedi-las. Portanto, não procede a desculpa para invadir e destruir uma nação baseado em suposições. Viu-se que a adesão a OTAN era apenas desculpa. O motivo real acabou sendo revelado pelo próprio Putin. Deve ter tomado doses extras de vodca. A verdade escapou-lhe pelos lábios.

A expansão veio de encontro, entre outros motivos, para abrigar ex-países comunistas que queriam uma proteção contra uma Rússia que perdeu a Guerra Fria e um dia tentaria se recuperar

A aliança militar ocidental não deixou correr riscos depois do fim da URSS. O saudosista-imperialista Putin, que não para de expandir o seu arsenal bélico desde 2010, disse em um discurso há uns dois anos que a Rússia tinha uma arma destruidora como nunca se viu antes. Pode estar blefando. Então que aguente as consequências. A invasão da Ucrânia não vai trazer nenhuma tranquilidade para a Rússia; muito pelo contrário. Além das sanções econômicas que já fizeram o rublo depreciar em quase 100% desde o início da guerra; a Alemanha anunciou que irá dobrar os seus gastos militares. Ano passado ela gastou 53,2 bilhões de euros, ou 1,5% do PIB. O primeiro-ministro alemão, Olof Scholz, logo após a invasão russa anunciou que os gastos com defesa subiram para 100 bilhões de euros, ou 2,8% do PIB.

Em 2020 só os Estados Unidos gastaram US$ 778 bilhões e a Rússia US$ 62 bilhões com as suas Forças Armadas. O total de gastos dos países da OTAN, em 2021, foi 1,2 trilhões de dólares. Dá para Rússia competir? Uma das causas da falência da URSS foi justamente o alto valor da corrida armamentista. Esse é o principal motivo pelo qual Putin reclama da expansão da OTAN. Ele não terá fôlego para acompanhar. Mas para a OTAN o inimigo não era ele; embora, o mantenham sobre observação constante.

Vi na TV e faz muito tempo que a preocupação da OTAN não era a Rússia, mas o maluco da Coreia do Norte, que tem por esporte favorito lançar ao espaço foguetes intercontinentais; e mais o Irã, que odeia os Estados Unidos, Israel, etc. e tem muita vontade de fazer uma bomba atômica. Durma com esse barulho. 
Há um o motivo mais forte para a NATO não parar de expandir: em 2022 a China gastará US$ 229 bilhões com as suas Forças Armadas (algumas fontes consultadas dizem ser US$ 252 bilhões). Ela tem mantido um acréscimo anual mínimo de 6,6% nos últimos 30 anos. E a Rússia acha que o problema é (só) com ela e que tem direito de dizer se a OTAN pode se expandir ou não. Segundo a revista Foreign Affairs, em uma década China adicionou a sua Marinha, um volume de armas e navios o equivalente ao que possui toda a Marinha francesa.
Costuma-se responsabilizar os Estados Unidos por todos os atos da OTAN, como se os demais países fossem meros membros sem poder de contestação. Vale lembrar que os Estados Unidos se opuseram a construção do gasoduto Nord Stream 2 que traria gás da Rússia até a Alemanha vindo pelo mar Báltico. O Nord Stream1 passa pela Ucrânia. A alegação dos americanos era que aumentaria a dependência da Europa ao gás russo. Apesar do protesto, Angela Merkel decidiu bancar a iniciativa.

Pode-se demonstrar facilmente como a Rússia se recuperou economicamente com ajuda dos investidores externos, principalmente, americanos e europeus. Quase todas as grandes multinacionais americanas e europeias estão na Rússia. São os principais membros da OTAN que compram e vendem para eles. E estariam planejando atacá-los?

Eu acredito que no futuro a OTAN vá mudar de nome para que outros países, como Japão, Austrália, asiáticos, africanos e sul-americanos façam parte. Ela precisa de combatentes. A Europa tem um crescimento vegetativo, na média, negativo ou próximo de zero. Vai faltar jovens.  Vão ter de importar soldados, também conhecido como mercenários. Por isso vão precisar de novos membros.

Pela autodeterminação dos povos; por tudo que a ela sofreu nas mãos dos russos; pelo direito de ser uma nação livre e soberana, a Ucrânia tem todo o direito de buscar proteção sobre o guarda-chuva da OTAN. Hoje ela paga um preço por ter sido lenta, com idas e vindas, nessa decisão.

Espero que as sanções impostas a Rússia surtam efeito e o Putin, o genocida, saia do poder mais breve, seja preso e condenado pela destruição de uma nação inteira.

Rezemos pela paz na Ucrânia.

Cláudio Nogueira

 

 [1] Folha de São Paulo. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/02/invasao-da-ucrania-racha-grupos-bolsonaristas-afirma-especialista.shtml

[2] Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), anteriormente conhecido como Centro de Lançamento de Alcântara, é um espaço porto da Agência Espacial Brasileira no município de Alcântara, localizada na costa atlântica norte do Brasil, no estado do Maranhão.

Boicote estadunidense ao foguete brasileiro em 2009

Em 2011, o WikiLeaks revelou que o governo dos Estados Unidos quer impedir a criação de um programa de produção de foguetes espaciais brasileiros. Por isso as autoridades estadunidenses pressionam parceiros dos brasileiros nessa área (como a Ucrânia) para não transferir tecnologia do setor ao país. A restrição dos Estados Unidos está registrada em telegramaque o Departtamento de Estado enviou à embaixada em Brasília, em janeiro de 2009, onde escreve: "Não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil. ... Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil" Os Estados Unidos também não permitem o lançamento de satélites norte-americanos (ou fabricados por outros países mas que contenham componentes estadunidenses) a partir do Centro de Lançamento de Alcântara, "devido à nossa política, de longa data, de não encorajar o programa de foguetes espaciais do Brasil", conforme outro documento confidencial divulgado.

Acordo com os Estados Unidos em 2019

Em outubro de 2019, a Câmara dos deputados aprovou o acordo no qual os Estados Unidos  utilizam a área para pesquisa cientíca e lançamento de foguetes, espaçonaves e satélites que utilizam tecnologias norte-americanas a partir da base brasileira. Em novembro de 2019 o Senado Federal publicou o decreto aprovando o texto sobre salvaguardas tecnológicas relacionadas a participação dos Estados Unidos da América em lançamentos a partir da Base de Alcântara.


[3] Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) ou simplesmente Barreira do Inferno é uma base da Força Aérea Brasileira para lançamentos de foguetes. Fundada em 1965, se tornou a primeira base de foguetes da América do Sul.

[4] Putin announces a ‘military operation’ in Ukraine as the U.N. Security Council pleads with him to pull back. Disponível em https://www.nytimes.com/2022/02/23/world/europe/putin-announces-a-military-operation-in-ukraine-as-the-un-security-council-pleads-with-him-to-pull-back.html

[5] Rússia não reconhecerá independência do Kosovo e prevê onda separatista. Disponível em: https://g1.globo.com/noticias/mundo/0,,mul302263,00-russia+nao+reconhecera+independencia+do+kosovo+e+ preve + onda +separatista.html

[6] Putin ataca a Otan e diz que Ucrânia nunca foi um Estado verdadeiro. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/putin-ataca-a-otan-e-diz-que-ucrania-nunca-foi-um-estado-verdadeiro.shtml

[7] As falsas declarações de Putin sobre a história da Ucrânia. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/as-falsas-declara%C3%A7%C3%B5es-de-putin-sobre-a-hist%C3%B3ria-da-ucr%C3%A2nia/a-60907021

[8] Putin considera que não existe uma identidade específica ucraniana. Disponível em: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1937480/putin-considera-que-no-existe-uma-identidade-especifica-ucraniana


[9] United Nations Digital Library. Disponível em: https://undocs.org/pdf?symbol=en/A/62/235

[10] Ukraine - NATO relations. Disponível em: 

https://en.wikipedia.org/wiki/Ukraine%E2%80%93NATO_relations

PS. 11.03.22. Guerra: 1.200 corpos são enterrados em vala comum em Mariupol. Trabalhadores locais cavaram uma vala de 25 metros de comprimento. Disponível emhttps://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2022-03-11/guerra-1-2-mil-corpos-enterrados-vala-comum-em-mariupol.html



sábado, 5 de março de 2022

Quem quer o gás do Putin ?

Que a Europa é dependente do gás e petróleo fornecido pela Rússia, isso todo mundo sabe. Que essa dependência era um dos trunfos de Putin. Isso também é do conhecimento de todos. Por esse motivo não foram bloqueados, nas sanções econômicas impostas aos russos, os caminhos que levam o dinheiro que vai do comprador ao fornecedor. Inclusive na sua mensagem, The State of Union, essa semana, ao povo americano, Joe Biden deixou claro que o boicote ao fornecimento de energia estava descartado.

O primeiro downsizing na aparente vantagem que Putin tinha nesta área ocorreu com a mega desvalorização do rublo em apenas cinco dias. O que o obrigou a aumentar a taxa básica de juros, a Selic deles, em mais de 100% (de 9,5% para 20%), para atrair capital estrangeiro.

Para assegurar o preço da moeda russa por meio do aumento da oferta da moeda americana, o Banco Central russo vendeu dólares. Desta vez a Rússia está numa situação muito mais confortável ao que estava na crise cambial de 1998, quando pediu moratória ao FMI; e fez estragos em várias economias emergentes, inclusive, e principalmente, o Brasil.  Hoje suas reservas passam de US$ 600 bilhões; dando melhores condições de defender sua moeda. Contudo, as sanções impostas congelaram uma parte significativa das reservas de ouro e de divisas depositadas fora da Rússia,

De qualquer forma, considerando o expressivo aumento da demanda pela moeda americana, receber dólares do exterior é muito importante para evitar uma maior depreciação do rublo. Assim, cortar o fornecimento de gás e petróleo para a Europa, traria uma dor de cabeça também para a Rússia. Além do que foi divulgado que a Alemanha, um dos principais compradores, tem reserva de gás, para utilizar nos aquecedores domésticos, até o próximo inverno. O atual acaba em pouco dias.

Joe Biden e os europeus não querem deixar de comprar dos russos, embora tenham o plano B para comprar de outras fontes, porque na medida que eliminariam um fornecedor do mercado, os demais restantes aumentariam o preço. Na realidade, no médio prazo, haveria uma troca de quem vende para quem. A China, muito dependente de gás e petróleo externo, poderia passar a comprar dos russos.

O que ninguém contava, nem Biden, nem Putin, era que várias empresas ocidentais parassem de comprar petróleo dos russos por livre e espontânea vontade. Coisa que nem o governo americano desejava pelos motivos expostos acima. O preço da gasolina nos postos nos Estados Unidos, mesmo antes da guerra da Ucrânia, estava batendo recordes; e os Estados Unidos sofre uma inflação como não era visto há décadas. O aumento do preço do petróleo iria trazer mais inflação.

A salvação do consumidor americano pode vir dos exportadores russos. Com a redução da demanda forçou os russos a baixarem o preço. O governo russo já sente a pressão por essa situação:

“A segunda maior empresa de petróleo da Rússia rompeu com o presidente Vladimir Putin. Lukoil, empresa russa, que tem postos [também] nos Estados Unidos, e produz mais de 2% do petróleo bruto do mundo e emprega mais de 100.000 pessoas, pediu o fim da guerra da Rússia na Ucrânia. O conselho de administração da empresa disse em comunicado aos acionistas, funcionários e clientes que estava exigindo o término mais rápido do conflito armado".

A Shell acaba de anunciar que comprou o barril do óleo ural cru por US$ 28. Ural é uma marca de óleo de referência usada como base para a precificação da mistura de óleo de exportação russa. È uma referência importante para o mercado de petróleo bruto médio na Europa.

Esse é um valor absurdamente baixo. Essa semana o barril chegou a US$ 116 e era esperado que subisse ainda mais. Esse aumento era a salvação da Rússia. Com a moeda desvalorizada, quando o exportador trocasse seus dólares por rublos, teria a sua receita/perda compensada.

O que parece é que a redução da demanda pelos importadores neutralizou a vantagem que os russos tinham devido a dependência que a Europa tem em relação como provedor de energia para o Velho Continente.

E agora Putin ? 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A Invasão da Ucrânia II ou A Segunda Guerra dos Seis Dias


 A pergunta que todos querem saber é como vai acabar essa guerra na Ucrânia. Seria o início da Terceira Guerra Mundial? Essa resposta só Deus sabe. Mas como palpiteiro profissional autônomo, o meu palpite é que, felizmente, não resultará em guerra nenhuma. Digo isso porque a reação dos  ucranianos não conseguirá deter a superioridade dos russos. Não está havendo uma guerra. O que está havendo é a Rússia tomando posse da Ucrânia, como fez com o Afeganistão em 1979. Vai parar por aí ? Vai. A Ucrânia vai passar a ser um anexo “sem armas” da Rússia. Esta vai colocar um presidente fantoche no cargo; que será como o Putin, reeleito “democraticamente” infinitas vezes. (Veja o PS3)

Os países de OTAN não vão guerrear com a Rússia. A Ucrânia não é membro da Organização; e todos eles sabem que seria uma guerra que ninguém é capaz de prever as consequências. E nem Putin vai atacar qualquer país da OTAN. O que ele queria já conseguiu.

Resta a fazer o que Joe Biden, Boris Johnson e outros estão fazendo: impor sanções econômicas a Rússia. Cortá-la do sistema financeiro internacional. Não terá como paga ou receber dinheiro das importações e exportações. Esse é o caminho: causar prejuízo econômico a Rússia. Mas não vai surtir efeito a curto prazo. Mas o caminho é por aí. Biden também congelou os recursos financeiros que alguns bilionários russos têm na América. O bolso é a parte mais sensível do corpo. Se a economia entrar em colapso -  e é o que se espera - o sonho é que Putin sofra oposição dentro da Rússia.

Uma coisa é certa. Agora ficou claríssimo o que já se desconfiava-se: Putin sonha com a volta do Império Soviético. Ele já havia dito que o fim da URSS foi "a maior catástrofe geopolítica do século 20".

Ficou claro para o Ocidente que a Guerra Fria voltou e com ela, possivelmente, uma nova corrida armamentista. Será que Biden vai defender o que Trump defendia? Que os membros europeus da OTAN gastem mais com suas defesas. É muito provável. 

Ficou transparente que a Rússia há muito tempo estava se preparando para isso. Inclusive eles mesmo alegam que não tem medo das sanções econômicas impostas porque estão preparados para elas.

Vamos ter de esperar para ver se isso é verdade. Verdade não é o forte dos russos. Semana passada, quando Biden dizia que a Ucrânia seria invadida a qualquer momento, Putin e seu chanceler diziam que não era verdade e que o presidente americano estava provocando pânico.

A grande incógnita é como vários países da Europa, dependentes do gás que vem da Rússia, vão viver sem ele. A Alemanha, por exemplo, é altamente dependente desse gás. Estão até construindo um segundo gasoduto ligando os dois países. Desta vez pelo mar Báltico. O existente atravessa a Ucrânia. Creio que os alemães estão cientes que a Rússia pode, em caso de uma guerra, parar o fornecimento. Se isso acontecer no inverno, a situação vai ficar muito complicada.

A Europa depende da Rússia para cerca de 40% de seu suprimento de gás natural e, apesar da expansão das energias renováveis nas últimas duas décadas, essa dependência está aumentando à medida que os países mudam para o gás, e abandonam o uso do carvão.

Embora Putin tenha essa carta na manga; ele só a usará como arma de guerra quando julgar extremamente necessário. As exportações da Rússia dependem muito do gás natural (maior exportador do mundo) e do óleo cru. Petróleo e gás são responsáveis por mais de 60% das exportações da Rússia e fornecem mais de 30% do produto interno bruto (PIB) do país.

Em resumo. De concreto o que se sabe mesmo é que a partir de agora a Rússia e os países da OTAN são inimigos declarados. Até que ponto as sanções econômicas vão produzir resultado esperado, só o tempo dirá.


Diferente das diferenças entre Estados Unidos & aliados e a URSS em tempos idos, é que naquela época os comunistas soviéticos e chineses não se entendiam. Hoje eles são amigos desde criança. E a animosidade entre americanos e chineses está em alta. Além do que, mesmo que a Rússia fique em uma situação econômica difícil, ela vai continuar se armando cada vez mais. Não é isso que faz Coreia do Norte ? E é claro que a China está por trás disso. Entre pão e canhão, Putin vai optar pelo último.

Meu palpite é que depois dessa invasão o mundo jamais será o mesmo. Ou até que alguém confiável para o Ocidente, assumir o lugar do Putin. Contudo, acredito que em uma semana essa guerra acabe, porque a Ucrânia já estará totalmente dominada.

 Do nosso correspondente no Porto, Cláudio Nogueira


PS1. A Guerra dos Seis Dias ocorreu de 5 a 10 de junho de 1967 entre Israel e alguns países árabes.

PS2. Putin alegava - antes de falar a verdade e dizer que a Ucrânia pertence a Rússia - que a Ucrânia não podia ser membro da OTAN porque teria armas da Organização muito perto do seu território. Mas desde 2004 os países bálticos são membros da OTAN. E um dia após o início da invasão da Ucrânia, a Estônia disse que vai enviar armas para ajudá-la. E agora José ? A Rússia vai invadir a Estônia, país membro da OTAN ?

PS3. 26.02.22."Digo isso porque a reação dos  ucranianos não conseguirá deter a superioridade dos russos. " Mas os ucranianos estão resistindo bravamente. Os russos estão tendo mais dificuldades do que esperavam.

PS4. 28.02.22. Em relação ao primeiro parágrafo deve ser dito que errei ao dizer que não haveria uma guerra. E devo acrescentar que hoje é o seu quinto dia e os ucranianos estão resistindo heroicamente; causando muitas baixas no Exército russo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A Invasão da Ucrânia, a Infiel

 Em junho de 2000, após dez anos, eu voltava a estudar no Japão. Desta vez era um curso de curta duração sobre desenvolvimento econômico oferecido em Tóquio pela JICA (Japan International Cooperation Agency). O curso foi um pouco menos de dois meses. Éramos uns vinte “alunos” de  diversos países.

Fui e voltei em voo de primeira classe. Isso logo chamou a minha atenção. Chegando lá, no primeiro dia de aula, após as apresentações, percebi que o único peão ali era eu. Todos os outros tinham cargos importantes em diversos ministérios de seus governos. Lembro-me bem de um russo, que de dia falava alegre da nova Rússia livre e a noite chorava lamurias e mal dizia Mikhail Gorbachev que “acabou” com a poderosa URSS (União da Repúblicas Socialistas Soviéticas).

O sujeito queria o melhor dos dois mundos. Queria uma Rússia na qual podia-se sair e entrar a hora que desejasse; e ninguém corria o risco de ir para cadeia só por achar o secretário geral do Partido Comunista feio, e o mesmo tempo reclamava que a Rússia não era mais uma superpotência militar respeitada e admirada.

Superpotência militar ainda era, mas não era mais temida. A URSS não existia mais.

Com os constantes manifesto da população em Berlim oriental; quando mais de um milhão de pessoas foram mais de uma vez as ruas e, em 9 de novembro de 1989, marcharam até o Muro de Berlim e decidiram derrubá-lo, os regimes comunistas nos países de Cortina de Ferro acabaram.

Antes disso, com uma Rússia falida, sem condições de acompanhar a corrida armamentista com o Ocidente (leia-se OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte), Mikhail Gorbachev, inicialmente secretário geral do Partido Comunista, depois presidente da Rússia, implantou o que foi denominado Glasnost, abertura política, e a Perestroika, reformar do sistema econômico e político para tirá-la da estagnação que se encontrava. Esses movimentos não tinham como objetivo acabar com o comunismo na União Soviética, mas torná-lo mais eficiente.

A queda do Muro de Berlim foi sentida na Rússia. A Estônia já havia se declarado estado independente dentro da União em 1988. Mas foi a Lituânia o primeiro país a se declarar fora da URSS, em 1990. Isso em outra época seria motivo para serem invadidas; mas a situação de falência do regime comunista era tão acentuada que a Rússia não teve força para reagir. No final 1991 os líderes das três repúblicas maiores e fundadoras da URSS, Rússia, Ucrânia e Bielorrússia declararam que esta não mais existia. Estava extinto o regime implantado com a revolução de 1917. Em seu lugar nascia a Comunidade de Estados Independentes. Era o fim da Guerra Fria.

Em 2004 os estados bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia, que fazem fronteira com a Rússia, e a maioria dos antigos estados do Pacto de Varsóvia tornaram-se parte da União Europeia e aderiram à OTAN.

A OTAN literalmente chegou na fronteira da Rússia. Mas ainda faltava a Ucrânia que desde a década de 90 demonstra interesse em ser membro da OTAN e ser membro da União Europeia. Deveria ter entrado quando as repúblicas bálticas entraram. Com certeza a Rússia teria protestado, mas no estado que essa se encontrava, estava sem muitas forças para resistir.

Mikhail Gorbachev foi posto para fora do cargo e, em 1991, Boris Yeltsin foi eleito presidente Rússia; reeleito ficou no cargo até 1999. Sendo o responsável pela implantação do capitalismo na Rússia.

Apesar dos esforços de Yeltsin para recuperar a economia, em 2000, o PIB da Rússia era 195,9 bilhões de dólares. Para se ter uma ideia, em 1988, quando estava em andamento a restruturação de Gorbachev, que já achava a situação crítica, o PIB russo era de 554,7 bilhões de dólares.

Embora, a situação econômica fosse desastrosa, a paz reinava com o fim da Guerra Fria. Os russos podiam, em seu território, tomar Coca Cola e comer Big Mac.

Sai Boris Yeltsin e entra em cena o tough guy, o macho man, ex-agente e tenente-coronel da KGB, Vladimir Vladimirovich Putin, para restaurar o orgulho russo. Aquele orgulho que o meu colega de curso no Japão sonhava em ser restaurado.

Putin foi, em 1999 e 2000, o primeiro-ministro do governo de Boris Yeltsin. Em seguida foi eleito presidente, ficando no cargo de 2000 a 2008. Impedido de concorrer um terceiro mandato consecutivo, ele inverteu a posição nos cargos, de 2008 a 2012, seu ex-primeiro-ministro, Dmitry Medvedev, tornou-se presidente, e Putin o primeiro-ministro.  

Em 2012 Putin foi eleito presidente novamente; numa eleição cheia de protestos e acusações de fraude. Resumindo: Putin deseja ficar no cargo a vida inteira e mais seis meses. “Daqui não saio. Daqui ninguém me tira”. Conseguiu mudar a lei. No momento ela lhe permite ficar no poder, se reeleito, até 2036.

Nos seus dois primeiros mandatos o PIB subiu muito. Chegando a 1,661 trilhão de dólares em 2008. Em 2013 o PIB era de 2,293 trilhões de dólares. Sendo o maior valor obtido até hoje. Nos últimos anos o PIB russo tem decrescido. Mas isso não impediu de russos se considerarem uma nação importante novamente, graças ao nacionalismo imposto por Putin. Há dois anos, em um pronunciamento à nação, disse que a Rússia possuía uma super arma. Algo jamais fabricado. Capaz de destruiu qualquer inimigo.

Estava tudo numa relativa paz até a Ucrânia começar a namorar a Europa Ocidental. Putin considerou isso traição. Foi ciúme mesmo. “O lugar da Ucrânia é junto com a Rússia.” Se não disse, pensou. Aí a Ucrânia, a infiel, demonstrou interesse em ser membro da OTAN. Isso foi provocação demais para os russos.

Quem não se lembra a confusão, no início dos anos 60, quando a URSS quis colocar misseis em Cuba? É claro que os Estados Unidos não poderiam permitir uma aproximação tão grande de forças soviéticas ao seu território. Agora imaginem se a Rússia colocasse armas no México, que tem ligação territorial com os Estados Unidos. É isso que a OTAN quer fazer. Se a Ucrânia se tornar membro da Organização, a Rússia vai ter na sua fronteira armas do “inimigo.”

A pergunta que não quer calar é: Por que a Rússia não permite que a Ucrânia seja parte da OTAN, mas os países bálticos são membros de Organização e fazem fronteira com a Rússia ?

Terceiro porque a Rússia vê a Ucrânia como uma parceira que tem de ser ligada a ela e não ao Ocidente. Putin acredita que laços culturais, históricos, linguísticos, fazem com que a Ucrânia e a Bielorrússia devam se unir a Rússia.  E, primeiro, porque a Ucrânia tem o quarto mais poderoso Exército do mundo, atrás do dos Estados Unidos, Rússia e França. 

Trump adotou o slogan “Make America Great Again”; ou “Tornar a América Grande Novamente.” Quando Trump vem como o milho, o Putin já está tomando café com pamonha. Tornar a Rússia um importante e respeitado player novamente sempre esteve na cabeça dele. Lembro-me que li há mais de quatro anos um analista de política internacional dizendo porque o Putin se metia na guerra da Síria. A resposta é porque o governo sírio pedia ajuda a ele; e ele gostava disso. Isso era muito importante para ele mostrar ao povo da Rússia e ao mundo,  que ela era respeitada no cenário internacional. E por isso que ele foi na Venezuela dá o seu apoio ao Maduro. É por isso que ele recebeu o Bolsonaro. Nesse caso foi uso mútuo. Ambos queriam mostrar como são importantes para seus eleitores.

Há dois dias o presidente da França propôs um tête-a-tête, um olho no olho, entre Joe Biden e Vladimir Putin. Um analista da CNN escreveu que Putin está criando essa situação toda para “restaurar o prestígio” que os russos tinham na Guerra Fria. E acrescenta que embora a Rússia tem ainda um respeitável arsenal atômico, sua força hoje é muito mais reduzida. O que ele deseja é sentar-se com Biden e discutir, como nos velhos tempos, o destino do mundo. Só que agora não existe mais a URSS, que era poderosa, temida e constituída por muitos países.

Putin tem culpa no cartório. Ao anexar a Criméia em 2014 ele estava fazendo um balão de ensaio. Queria ver como seria a reação caso invadisse a Ucrânia. Mas dessa vez a reação foi bem diferente.

“Os russos estão exigindo uma garantia de que a Ucrânia nunca será autorizada a ingressar na Otan e querem que a aliança retire armas e tropas de Estados membros que já estiveram atrás da Cortina de Ferro, como Polônia, Hungria e Romênia. Essa condição é inegociável para o Ocidente, que diz que cabe às nações decidirem seus destinos.” (CNN americana online)

Há quem diga que ele tinha razão em tomar a Criméia porque ela um dia pertenceu a Rússia. Se todo mundo pensar assim, vai ser guerra para todos os lados. Nos últimos dos séculos, sem irmos muito longe, os territórios de vários países, principalmente na Europa, mudaram de tamanho, uns cresceram, outros diminuíram devido uns Estados se apossarem de terras de outros. Como ficaria Portugal e Espanha ? Áustria e Alemanha ? As terras tomadas por Israel na Guerra dos Seis Dias ?

Eu acredito que a invasão da Ucrânia pela Rússia e, consequentemente, o início da guerra, transmitida pela TV, com uma audiência maior que a entrega do Oscar, não vai acontecer. Putin já viu as consequências desse ato. Embora não se consiga imaginar a catástrofe que seria, analistas têm uma certa ideia do que aconteceria com a economia da Rússia se entrarem em vigor as punições que os países da OTAN imporiam a ela.

Quando a Rússia invadiu o Afeganistão em 1979. Os Estados Unidos protestaram, reclamaram, mas de concreto mesmo foi apenas o boicote americano as Olimpíadas de Moscou de 1980.

Agora os tempos são outros. Putin colocou 150.000 soldados cercando a Ucrânia, mas devido a reação que teve a esse ato, não creio que vá invadir. Ele diz que são exercícios regulares da Forças Armadas e que já retirou milhares de soldados e armas. Mas até agora ninguém acreditou nisso.

Talvez ele precise desse encontro com o presidente americano; para ficar bem na foto com o povo dele.

No momento muito há propaganda dos dois lados. Vamos esperar para vermos esse desfecho.

 

Cláudio Nogueira

 

PS1. A Rússia acaba de reconhecer as regiões que desejam se separar da Ucrânia, causando indignação geral. E diz que vai entrar nessas regiões com uma força de paz. Acredite se quiser !

PS2. O que foi dito aqui se confirmou. Putin disse na TV: "Enfatizo mais uma vez que a Ucrânia para nós não é apenas um país vizinho. É parte integrante da nossa própria história, cultura, espaço espiritual. São nossos camaradas, parentes, entre os quais não somos apenas colegas, amigos, ex-colegas, mas também parentes, pessoas ligadas a nós por laços de sangue, parentes." Putin disse que a Ucrânia não tem direito de existir como nação independente. Ela pertence a Rússia, segundo o pensamento dele. Disse que a Ucrânia era uma invenção de Stalin.

PS3. Nas primeiras horas do dia 24 de fevereiro a Rússia invadia a Ucrânia.

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

A Dama da Carolina

Eu sempre achei que deveríamos escrever alguma coisa sobre a vovó Eliza. Nós quem? Nós, filhos de Brígido e Glória Nogueira. Acho que o momento, ainda que tardio, chegou. Seus filhos, recentemente, preparam um livro-homenagem intitulado “A Dama da Carolina, Afetos e Sabores.”

Começo assim para dizer que o título deste post já tem dono. Copy@right dos Bessa Freire.

A vovó morou por muitos anos, depois de ter habitado em outros endereços, na rua Carolina das Neves. Por isso ela é chamada a Dama da Carolina. Na realidade, hoje ela seria dona de si mesma, depois da sua partida, a rua passou-se a chamar Eliza Bessa Freire.

Há duas imagens da vovó Elisa que ficaram na minha cabeça. A primeira é de quando éramos criança. Ao avistá-la no início do beco onde morávamos, beco da Indústria, na Aparecida, eu já chorava antecipadamente. Isso quando percebia que estava vindo com a sua “latinha” de enfermeira. Dentro tinha seringas de vidro, que ela  trazia, a pedido do papai, para dar-nos umas injeções; para erradicar a gripe na família. Naquela época as seringas eram de vidro e as agulhas não eram descartáveis. Eram reutilizáveis; para isso tinham que ser fervidas. E fervidas num fogo feito pela queima de álcool, em um estojo de metal. O cheiro que exalava eu tenho na mente até hoje.

Quando eu a via de longe, dizia, embora bastante gripado: papai, eu já estou bom. Nunca funcionou. Na realidade nem doía; era apenas um medo desnecessário que logo passava. Talvez por isso essa lembrança, embora forte, não seja uma lembrança triste, mas apenas de algo que marcou.

A imagem que recordo com mais frequência é ela andando na rua Xavier de Mendonça, da qual a Carolina da Neves é afluente, a caminho da missa diária das 18 horas, na paróquia que ajudou a fundar em 1943. Não existe escola sem aluno e nem igreja sem fiel. Por esse motivo a Congregação do Santíssimo Redentor, em reconhecimento aos seus preclaros serviços prestados a comunidade, concedeu-lhe o título de Oblata Redentorista, pessoa, que mesmo sendo leiga, é membro, digamos, honorário da Congregação.

Lá vai ela, corpo pequeno, não mais que um metro e cinquenta, com cabelos branquinhos, sempre bem arrumados, olhos menores ainda, bem azulzinhos, e muito cheirosinha.

Vocês conhecem aquela música: “Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim” ? Assim era a vovó. Quem a via indo toda arrumadinha para a sua missa diária, não tinha a menor noção do que ela havia passado. Ela pertencia a um seleto grupo de pessoas que trabalham... e como trabalham; como se fossem ateias: nada cai do céu. Lutam... e como lutam; contra a pobreza e as dificuldades de quem se encontra nessa situação. E rezam... e como rezam; como se tudo dependesse de Deus. Teve sua recompensa. Porque Deus é fiel.

Até chegar esse dia, do andar tranquilo, corpo perfumado, perseverança na fé, foram muitos anos com dias difíceis, de muita labuta e resiliência. Perdeu um filho ainda bem criança e ficou viúva com onze filhos; com 48 anos de idade. A filha mais velha tinha vinte quatro e a caçula três anos. Criou muito bem criado todos eles. Alguns são professores universitários, outros exercem atividades diversas. Eu, que tenho apenas quatro, como uma situação financeira muito melhor, me pergunto como isso é possível. Não estou falando simplesmente de alimentá-los; o que por si já uma coisa bastante difícil, mas de dar um direcionamento a todos eles. Por mais que os mais velhos já estivessem de alguma forma ajudando materialmente, o direcionamento, manter a família unida a valores morais e religiosos, era responsabilidade dela. Quarenta e oito anos e onze filhos? Conheço muita gente com 1,8m, com apenas dois ou três filhos, que não conseguiu.

A minha avó Elisa era prima da minha mãe. Isso mesmo. A mãe dela era irmã do pai da minha mãe. Quando este morreu, deixou três filhas crianças, que já não tinham mãe há seis anos: minha mãe, com 11 anos, uma irmã com 13 e a caçula com 6 anos, de cujo parto morreu a sua mãe, minha avó biológica. Foram morar com a avó materna. Minha mãe com 12 anos a caminho dos 13, em 1943, foi acolhida na casa de sua prima, Elisa Bessa Freire, nossa avó, de onde saiu seis anos depois para se casar.

Quando as minhas filhas fizeram 12 anos, eu sempre pensava na minha mãe órfã nesta idade, e sempre vinha na minha cabeça uma imensa gratidão a vovó Eliza por ter dado-lhe um lar. Sem essa impagável ajuda, todo o futuro da minha mãe poderia ter sido diferente. E o nosso também. A mamãe sempre dizia: “ A Eliza não só me deu um teto. Mas me deu uma família; irmãos e irmãs.”

Muito ainda pode ser dito sobre a vovó: o carinho que recebemos e a comidinha gostosa que fazia. Sobre isso o leitor tem de ler o livro cheio de “afetos e sabores” que traz algumas receitas.

A vovó recebeu duas bonitas homenagens públicas: além de doar o seu nome a rua onde viveu por muitos anos com a sua família; hoje, também, existe uma escola pública estadual a ela dedicada.

Pois saiba, nossa querida avó, que enquanto vivermos, seremos eternamente gratos. Nesse dia da Festa da Imaculada Conceição, rogamos a Deus que Ele já a tenha recompensado, levando-a para perto Dele, pelo seu amor e pela sua generosidade.

Vovó Elisa, a Dama da Carolina, nos lhe amamos.