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terça-feira, 15 de maio de 2007

Morrer é muito bom !

Escrito dia 28 de março de 1998 

Deus amava tanto Dom Jacson Dasmaceno Rodrigues que o levou para junto de Si com apenas 49 anos de idade, um ano após sua sagração como Bispo Auxiliar de Manaus, ocorrida numa linda festa em 9 de março de 1997. Levou-o, mas não antes de testar sua fé com seis meses de sofrimento.                            A morte de uma pessoa que tem fé em Deus e que dedicou a vida a Ele é dolorosa apenas para aqueles que ficam. A morte de Dom Jacson foi sentida por Dom Luiz Soares, pela Igreja de Manaus, por sua mãe, irmãos, parentes, amigos e por todos aqueles que, em Manaus ou no interior, onde os padres redentoristas atuam, conviveram com ele. 

 Para Dom Jacson, a morte foi "o maior barato". Ele pediu ao seu "Divino Médico" para não morrer, mas deixou claro ao Pai que aceitava plenamente a Sua vontade. Foram seis meses de entrega, de oferecimento a Deus das suas dores e da sua cegueira.

A primeira coisa que Dom Jacson fez ao chegar ao Céu foi se ajoelhar e agradecer a Deus por não tê-lo curado.

E fica a pergunta: de que serviram as orações de tantas pessoas, de diversos lugares do Brasil e do exterior? Não foram aceitas?

As coisas não são bem assim. Todas as orações feitas pela recuperação de Dom Jacson foram ouvidas e acolhidas, mas direcionadas para outras causas. Segundo o Pe. Marcos Weninger, CSsR, Deus as utilizou para outros fins. Se nossas orações tivessem sido aplicadas exclusivamente para essa finalidade, teríamos Dom Jacson entre nós até hoje — teríamos ganhado, e ele, talvez, teria perdido.

Há muitos "Jacsons" morrendo todos os dias — pessoas que oferecem seus sofrimentos a Deus e pedem que eles sirvam para que abundantes graças sejam derramadas sobre a nossa Igreja. Mas o nosso querido Jacson, por desígnio de Deus, ganhou notoriedade antes de partir.

Ao ser sagrado Bispo Auxiliar de Manaus, Dom Jacson tornou-se uma figura pública. A partir de então, tudo o que dissesse teria grande repercussão. E talvez essa notoriedade, recebida apenas um ano antes de sua morte, tenha servido justamente para que um número maior de pessoas tomasse conhecimento de seu sofrimento, de seu exemplo e do seu imenso amor a Deus.

Quem teve a felicidade de ouvi-lo, encantava-se com sua eloquência. Aqueles que presenciaram sua homilia de aproximadamente uma hora, na festa de Corpus Christi do ano passado, quando falou sobre "A Eucaristia e os Poderosos", e também sua pregação na festa de Pentecostes, no Centro de Convenções, jamais esquecerão suas palavras.
Fico imaginando a chegada de D. Jacson lá em cima. Ele havia afirmado a irmã Matilde, sua enfermeira, quando ainda estava em tratamento em São Paulo, ter visto Nossa Senhora olhando para ele. Isso me faz pensar na comissão que se formou, no céu, para recebê-lo. Na frente, Santo Afonso Maria de Liguori, fundador dos redentoristas, achando que seria ele a lhe dar as boas-vindas. Mas quando começou a contagem regressiva, nos últimos minutos da quarta hora da madrugada daquele 16 de março, eis que Santo Afonso, Pe. Clemente, Pe. Daniel, D. Thomaz Murphy, Brígido Nogueira (querendo saber notícias da família), Petrônio Rodrigues, seu pai e muitos outros... abrem passagem quando ouvem a voz de uma linda senhora, dizendo que ela iria recebê-lo. Sujeito de sorte esse D. Jacson. De sorte não, de muita fé. Devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro , Aparecida e Conceição...
A Santo Afonso foi dada outra missão. Ele deveria apresentar-lhe os residentes da casa. Em pouco tempo D. Jacson conheceu São Francisco e Santo Agostinho, São João Neumann, São Geraldo e tantos outros, além dos amigos. Mas ele está eufórico mesmo, é porque está sendo apresentado aos apóstolos, depois vai conhecer Moisés, Davi, Salomão, Abraão, Isaac, Jacob...
Morrer é muito bom!... Para quem vive o Evangelho, é claro!
Ó morte, onde está tua vitória? Agora entendi a frase de São Paulo: “ Para mim viver é Cristo, morrer é lucro.”

D. Jacson Damasceno Rodrigues, rogai por nós que recorremos a vós. 

Cláudio Nogueira

O Papa no Brasil


 Escrito em resposta a jornalista que publicou artigo no Diário do Amazonas, que o Papa perdeu a viagem porque não defendeu o homossexualismo.
 
Eu gostaria de saber por que o papa Bento XVI tem a obrigação de defender o homossexualismo? De onde vem a obrigação dos deputados do PT, defenderem os programas de governo do PFL (vixe,vixe, que nem existe mais). Será que porque eu defendo a causa dos homossexuais, do aborto, todo mundo têm de fazer o mesmo? Alguém ouviu o Papa dizendo que se deve jogar pedra nos homossexuais, nos divorciados? Se ele disse isso, tem de ser jogado pedra nele.
Há tantos posicionamentos, idéias, atitudes que tomamos na vida, que encontram oposições. Tu és flamenguista e eu vascaíno. Tu és caprichoso e eu garantido. Por que o homossexualismo tem de ser uma unanimidade?
No que eu acredito, o papa também tem de acreditar ? Os meus valores têm de ser os valores dele? As minhas causas têm de ser as causas dele? As minhas prioridades têm de ser as prioridades dele?
O Papa tem uma “constituição” a ser seguida, a ser cumprida, respeitada. Se ele não quiser seguir, não quiser cumprir; ele tem o livre arbítrio de procurar outra religião, largar a batina e fazer o que bem quiser ou dizer o que bem desejar. Mas quando ele nasceu, a Igreja Católica já existia. A Bíblia, que dá todo o direcionamento moral e espiritual, a essa Igreja, já existia. Quem não gosta do que está escrito na Bíblia tem todo o direito de contestar. O difícil é saber com quem está a verdade. Uma coisa é certa: como líder número um de uma religião que textualmente condena o homossexualismo, nas cartas de São Paulo e São Pedro, e no Velho Testamento, o Papa, por crença ou obrigação tem de fazer à mesma coisa.
Ou seria melhor dizer, a Bíblia deveria ser reescrita para se adequar à vontade nossa no terceiro milênio? Ela é arcaica, ultrapassada, defasada e reacionária.
Hum! Agora o negócio complicou. Porque para milhares de milhões de pessoas no mundo, não a vêem desse jeito. Muito pelo contrário. Ao lê-la, muito delas, encontram paz, conforto, esperança e direcionamento moral. Primeiro, porque da primeira letra até a última, ela ensina amor ao próximo. Mas também, amor e respeito aos ensinamentos de Deus. Deus? Que Deus ? Quem prova que ele existe?
É claro, e eu compreendo que se você não crer em Deus, que Jesus era Filho dele;  tudo isso, obviamente, se torna uma baboseira. Convenhamos.  Ou se você acredita, mas acredita somente na parte que lhe interessa, que não fere aos seus interesses; aí o negócio fica mais complicado ainda.
Se eu acredito em uma parte, e não acredito na outra; o que legitima a parte que eu acredito? Eu acredito em Jesus Cristo. Acredito que ele  morreu na cruz e era Filho de Deus. Mas reprovo o comportamento e os métodos dele. Eu acho que após ter multiplicado o pão e os peixes, ele deveria ter promovido um levante contra o Império Romano. Ele errou. A hora era aquela. Ele tinha de acabar com aquela opressão. Ele foi omisso. Ele deixou a oportunidade passar. Ele se preocupou com coisas menores, como os problemas da alma. Ah! Pára com isso. Vem falar em dá a outra face. Repartir o pão com quem não tem. Condenou o adultério. Isso era um mal menor diante das barbáries dos romanos. Ele focou o problema de forma errada. Priorizou outras coisas. E quando foi embora, a situação política, continuou a mesma.
Santo Agostinho, professor de filosofia, antes de se converter, criticava a Bíblia dizendo que era um texto insignificante. Pífio.  Quem era esse Jesus para ser levado a sério? Não gerou um texto que pudesse ser respeitado, ou que fosse um exemplo de escrito filosófico. Como era que um texto tão simples tinha a pretensão de mudar o mundo. Não era para ser levado a sério.
Se eu não acredito em parte nenhuma da Bíblia? Aí novamente, a Bíblia é uma grande baboseira, e o Papa não é para ser levado a sério. Mas se eu sou cristão, não digo católico; cristão, prebisteriano, adventista, batista; então, o Papa ou qualquer pastor tem de ser levado a sério quando o assunto é homossexualismo, aborto, divórcio.
- O que disse Moisés ?  Perguntou Jesus.
- Que déssemos carta de divórcio as nossas mulheres.
- Ele disse isso por causa da dureza dos vossos corações.
Seja o  Papa ou qualquer outro pastor cristão a Bíblia é a lei.
Quem quiser ser homossexual que seja. E que Deus o abençoe. Quem quiser ser petista, rotaryano, flamenguista, que seja. Agora esperar que todo mundo concorde, aí é outra estória. Para um flamenguista doente, foge a lógica o fato de alguém gostar do Vasco. Para a grande maioria dos cristãos foge da lógica, dos ensinamentos da Bíblia, achar o homossexualismo, o aborto, coisas naturais. Como é difícil para um flamenguista levanta a bandeira do Vasco, é muito difícil, para quem não escolhe que pedaço da Bíblia lhe interessa, levantar essas bandeiras, e fazer apologia.
Como disse anteriormente, o cristão verdadeiro, acredita na Bíblia, no todo e não na parte que lhe interessa. Embora isso seja muito difícil. Portanto, amar o homossexual, também é parte do mandamento do amor. Jesus condenou o adultério, mas amou adúltera. Ele jogou pedra?
Então, quem sou eu para jogar pedras? Não tenho nenhuma procuração. Quem é o Papa para jogar pedras?
Não jogou. Na qualidade do posto que exerce, ele não pode acreditar na Bíblia pela metade. Há condenação da Bíblia ao homossexualismo ? Há sim.
Eu queria tanto que o Papa dissesse que os católicos podem ter três mulheres ou mais. Mas ele não diz, e eu desconfio de onde vem à condenação da Igreja à poligamia. Já pensei até ser mulçumano. Lá isso é permitido. A Igreja Católica deveria evoluir nesse ponto, para, eu rezar para Deus, mas continuar fazendo tudo que eu quero.
Esse é um dos principais problemas da Igreja: a intransigência de não mudar algumas coisas em que eu acredito. Dois mil anos dizendo as mesmas coisas. Não se moderniza. Será que ela não vê  que algumas coisas que antes eram pecados, hoje não são mais. Não dava para fazer uma edição revisada ?
Se Jesus se preocupou somente em salvar o espírito, a Igreja atual não pode ser acusada de fazer o mesmo. Quem viveu os anos de exceção no Brasil e na América Latina, sabe a atuação política que teve a Igreja.
A opção preferencial pelos pobres, não foi só retórica. Os bispos deixaram bem claro os seus posicionamentos políticos e sociais em documentos gerados em conferências como em Medellín e Puebla.
Os papas também evoluem. O bispo Woltyla, durante o Vaticano II, achava D. Helder Câmara de comunista. Mas quando, como Papa visitou a América Latina, já na sua primeira visita ao exterior, ao México, mudou de idéia. Em Recife, abraçou e o chamou D. Helder de meu irmão. A biografia de João Paulo, escrita em 1998, mostra quem realmente estava por trás do  sindicato Solidariedade na Polônia, e quem muito contribuiu pelo fim do comunismo, a Igreja Católica.
A Igreja tem de matar um leão por dia. O Papa tem preocupações universais. Com situações das mais diversas, problemas como o clero reprimido na China, a fome na África, etc.
Agora, se ele não prioriza o que priorizo, se ele não acredita no que eu acredito, ele num tá com nada.
Se Bento XVI não criticou a não demarcação de terras indígenas, que o Lula prometeu e não fez. Se ele não criticou o salário dos deputados federais, a eleição do Maluf e do Clodovil. Ele perdeu a viagem. Ele é um blefe, que só pensa naquilo.
A única coisa certa nessa história toda, é que o Bento XVI é reacionário. E eu também.
Como dizia Cazuza, homossexual assumido: ideologia, eu quero uma pra viver.

Cláudio Nogueira

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Criança Diz Cada Uma

Que pai ou mãe não conta orgulhoso alguma pergunta “esperta” feita por seu filho pequeno? Ou conta alguma estória engraçada em que a criança entendeu certas palavras ao pé da letra ? 
Eu me lembro quando criança, uma senhora dizendo a minha mãe, que havia perdido um filho. Eu ouvia indignado a mamãe falando palavras de consolo para  ela.  Quando a senhora saiu, eu perguntei: Como é que alguém perde um filho assim e não vai atrás.
Estórias de certas perguntas ou comentários feitos por crianças são muitas vezes  hilariantes. Justamente pela ingenuidade contida nelas.  Não é à toa que na revista Pais & Filhos tinha uma seção ou coluna, do médico e dramaturgo Pedro Bloch, autor de várias peças teatrais de sucesso como "Dona Xepa" e "Mãos de Eurídice", contando estórias engraçadas de pequinininhos.
Recentemente, li na Internet uma, bem interessante, contada por Mário Prata no Estado de São Paulo, em 1997, e que aqui transcrevo: 
 "Aninha já estava com dois anos. Loira, linda. Nunca tinha cortado o cabelo. Eram amarelo-ouro e cacheados. "Parecia um anjinho barroco", diz a mãe coruja. Lá um dia, a mãe pega uma enorme tesoura e resolve dar um trato na cabeça da criança, pois as melenas já estavam nos ombros. Chama a menina, que chega ressabiada, olhando a cintilante tesoura. - Mamãe vai cortar a cabelinho da Aninha. Aninha olha para a tesoura, se apavora. - Não quero, não quero, não quero!!! - Não dói nada... - Não quero!, já disse. E sai correndo. A mãe sai correndo atrás. Com a tesoura na mão. A muito custo, consegue tirar a filha que estava debaixo da cama, chorando, temendo o pior. Consola a filha. Sentam-se na cama. Dá um tempo. A menina pára de chorar. Mas não tira o olho da tesoura. - Olha, meu amor, a mamãe promete cortar só dois dedinhos. Aninha abre as duas mãos, já submissa, desata o choro, perguntando, olhando para a enorme tesoura e para a própria mãozinha: - Quais deles, mãe?" 
Os meus filhos também fazer comentários como esse acima e também fazem perguntas que nem sempre eu tenho as respostas. O que eu gosto mesmo é quando perguntam alguma coisa que resultou em uma conclusão ou dedução. A mais velha fez seis anos em setembro, e coincidentemente, fará sete anos no próximo setembro. Engraçado, né ? Pois é. Ela, e os outros dois mais novos, todos os dias a caminho da escola,  observando o mundo pelas janelas do carro, fazem perguntas que eu não sei como responder.
Primeiro, eles queriam saber por que tem gente andando a pé nas calçadas. Aí, eles mesmos dão as respostas. Talvez tivessem pensado que, se dá para ir de carro, por que andar a pé? 
Depois, me perguntaram por que tem gente na parada de ônibus? Porque eles não têm carro, respondi. “E por que eles não têm carro?”, perguntou o João, quando tinha 3 anos. E completou: “ É só ir na loja e comprar um, né pai ?"
Bom! Aí começou um novo processo de aprendizado. Como  explicar pra eles que existem pobres. E existem, também, os não ricos, como nós. Não que, necessariamente,  todas as pessoas que andam de ônibus sejam pobres. Não. Ou dito de outra forma: tem muita gente que anda de ônibus, mas não é pobre. Mas eu queria introduzir na cabeça deles esse conceito. Eles já haviam percebidos certas coisas. Como, pessoas de idade e crianças, batendo na nossa porta pedido “uma ajuda ou um quilo de qualquer coisa”. Eles já estavam intrigados. Eles também não entendiam porque haviam pessoas pedindo esmolas nos semáforos.
“O que foi que ele disse, papai ? Ele pediu dinheiro? Por que?” Ele me perguntam sempre que um pedinte se aproxima.
Maria Fernanda tem seis anos. Já disse isso. João Paulo fez cinco esse mês. Pedro Henrique fez três em agosto, e em outubro, Maria Rafaela fez um aninho. É, eu sou um cara produtivo. Ou melhor, reprodutivo.  Há muito no caminho da escola eles andam percebendo as diferenças em nossa sociedade. “ Por que esse menino está vendendo bombons, pai ?” Algum deles sempre me perguntava. Porque ele é pobre e precisa ajudar a família dele,  respondi. “ Mas por que ele é pobre ? Por que a família dele não tem dinheiro ?” Eu não sei exatamente em que dia eles entenderam o que é ser pobre ou quem é pobre, mas entenderam. Entenderam, também, porque nem todo mundo tem carro – embora existam pessoas que não tenham carro porque não querem dirigir, por exemplo. O certo é que quando alguma pessoa se aproxima do carro para pedir esmola, eles dizem: “Ele é pobre né, papai? Eu sinto entendimento e respeito. Mas seria muito bom se  eles não exigissem respostas difíceis e ininteligíveis para as idades deles. Essa semana a Maria Fernanda fez uma pergunta que ficou um pouco complicado de explicar. Mas, no mês de novembro, ela havia feito uma mais difícil ainda. Por isso escrevo este texto, para fazer o registro.  Há exato dois anos, Miguel Ângelo, de quase quatro anos, primo deles, nos deixou. E eles aprenderam que ele foi pro Céu. É agora um anjo, como o seu homônimo. Até esse tipo de explicação tem algumas implicações. O Pedro, outro dia, ao ser advertido que poderia morrer com as piruetas que estava fazendo, ele replicou: "Se eu morrer, eu vou ser anjo como o Miguel." 
Outra pergunta  veio ao passarmos, ao lado do cemitério São João Batista, e ver pelas grades sobre o muro, os mausoléus de algumas famílias, a Maria perguntou: o que são essas casinhas? Um cemitério, respondeu a Fabiana. E após ouvir as devidas explicações sobre o local, ela perguntou:"Mãe, mas as pessoas quando morrem, num vão pro Céu?" E agora José? Mas essa não é tão difícil de responder como essa outra aqui. No final do ano escolar, no caminho para escola, na saída de São Jorge, no cruzamento com av. Constantino Nery, sempre há muitos carros para cruzar a avenida. E nessa parada obrigatória, sempre tem adultos e crianças vendendo, crianças pedindo, franelinhas, etc. Nesse dia se aproximaram, da janela do carro, umas três crianças. Foi quando a Maria sentenciou: "Mãe, por que os pobres são pretos!?"  Aí  tá complicado. O que pôde ser dito de imediato é que também tem pobre que não é preto. Quando ela entender que ninguém nasceu para ser pobre, e se  ela entender que a pobreza não é coisa do destino de ninguém, nas condição imposta por uma série de fatores e atores, ela vai encontrar a resposta. 
 
Cláudio Nogueira

quinta-feira, 25 de maio de 2006

El Milagro Boliviano

Se o Petróleo é Nosso![1] O Gás é Deles!
Passado a indignação inicial geral causada pelo “Decreto Supremo”, por meio do qual Evo Morales nacionalizou a Petrobrás Bolívia Refinacíon S.A. e todas as fontes de hidrocardonetos da Bolívia; e excluindo-se, as ações populistas para plateia interna, chamada pela nossa impressa de “pirotécnica”, com a presença do Exército boliviano nas refinarias, Se boliviano fosse, diria que ele tomou a decisão certa.
É óbvio que opinião é como umbigo, cada um tem a sua. Mas há outros aspectos a serem considerados. O primeiro deles é que Morales está jogando, e como risco e retorno andam juntos, são diretamente proporcionais, devido ao alto grau de risco envolvido nesse jogo, ou ele deu o primeiro passo, para a longo prazo, tirar a Bolívia de situação de país mais pobre da América do Sul, ou ele vai falir a Bolívia de forma que a sua recuperação vai levar muitas décadas. Aí vai ter muita mão de obra barata para as indústrias clandestinas de confecções de coreanos em São Paulo. Daquelas que trabalham 20 bolivianos por metro quadrado, num lugar que cabem cinco, fechados sem janelas.
É sempre bom lembrar que a Bolívia já havia tomado essa atitude em duas outras ocasiões: em 1937, quando nacionalizou a Standard Oil Co. e em 1969, nacionalizando a Gulf Oil. Em ambos casos o resultado foi desastroso. Por esse motivo, a produção de gás e petróleo foi privatizada na década de noventa.
Com o Decreto, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos, YPFB, renasce. Usurpando-se de 51% das ações das empresas Chaco S.A., Andina S.A., Transredes S.A., Petrobrás Bolívia Refinación S.A. e Compañia Logística de Hidrocarburos de Bolívia S.A. E através do artigo 8o do Decreto, ela se torna uma empresa “transparente, eficiente”.
O decreto usa e abusa de palavras que ninguém na Bolívia sabe o que significa: definitivo, transparente e eficiente. É a primeira vez que vejo uma empresa ser eficiente através de decreto.
Talvez, por esse motivo, alguns trabalhadores tenham protestado contra o decreto, alegando que se as multinacionais deixarem o país, haverá desemprego.
Talvez Morales esteja blefando, como se estivesse em uma partida de poker. E a diplomacia brasileira está fazendo a coisa certa. Apesar dos discursos inflamados da oposição. E ex-embaixadores saudosistas e de pijamas andarem dizendo que o Brasil não está tomando medidas duras; e que nós já sabíamos desta situação. Ou seja, tudo isso era previsível, e mesmo assim caímos nas mãos de Morales. Eu discordo e explico porquê.
Quanto à previsão de que essa situação poderia ocorrer, isso já era do conhecimento de todos. Muito antes de Morales ganhar as eleições e tomar posse em 22 de janeiro deste ano, Jean Paul Prates, na sua coluna “Petróleo Global” no site de O Globo, já vinha prevendo essa situação desde de junho de 2004. E o próprio jornal O Globo, de 13 de maio de 2006, informa que a Petrobrás já tinha - e que não foi feito agora depois do decreto - um plano B. Ou seja, a Petrobrás também não descartava essa possibilidade. Então, por que ela não tomou nenhuma atitude antes, e nem o governo está sendo “duro” com Morales agora? Porque assim é que tem de ser. Quem tem tudo a perder é a Bolívia e não nós. Quem pode se dar muito mal nessa história é a Bolívia e não o Brasil. A diplomacia brasileira está fazendo a coisa certa, repito. A próxima pedra só deve ser mexida após a Bolívia mexer a dela. Ou para continua na mesma analogia, vamos ver primeiro quais são as cartas que Morales tem. Até agora tudo está como antes. Apesar de todo pirotecnismo de Morales. Nada mudou.
A Petrobrás é responsável por quase um quinto do PIB da Bolivia. Investiu lá mais de US$ 1 bilhão até 1997, e ganhou muito dinheiro na Bolívia. Se depois dos aumentos dos impostos para 82%[2], como determina o Decreto, e ficar com apenas 18% da produção, a Petrobrás continuar na Bolívia, é porque ela estava ganhando muito dinheiro. Nesse caso Evo Morales fez a coisa certa. Mas se a Petrobrás sair do país quem perdeu foi à Bolívia; e perdeu muito.
Mesmo que a Bolívia receba do hermano Hugo Chávez ajuda de recursos humanos, financeiros e tecnológicos, para gerir a planta da Petrobrás, e explorar o petróleo e o gás, para quem ela vai vender esse gás? A Venezuela tem uma reserva de gás maior do que a da Bolívia, o Equador tem gás e é pequeno. O Peru tem gás, e o Chile não tem uma demanda que possa substituir a do Brasil. A Argentina é autossuficiente em gás desde 1992. Esses países que cercam a Bolívia não teriam uma demanda igual à do Brasil. A Bolívia não tem mar e está localizada no meio do altiplano andino, isto é, não tem estrada, nem uma frota que possa levar o gás a um porto no Pacífico, na costa do Chile. Mas o mais importante já foi dito: falta comprador. O Brasil tem de esperar a Bolívia quebrar os contratos, pois se for ele o primeiro a desobedecer o que foi acordado, como, por exemplo, redução na demanda contratada, será a Bolívia quem se beneficiará de arbitragem internacional. Portanto, a diplomacia brasileira não está contaminada pela ideologia, mas está tomando uma atitude pragmática.
Agora, é muito risco, depois de tudo isso, ainda, em nome de uma integração sulamericana, gastar-se US$23 bilhões em um gasoduto mais ampliado, tendo Bolívia e Venezuela como sócios.[3] Talvez existam interesses outros que fogem a minha compreensão. Muito provavelmente, a falta da minha capacidade de entendimento seja consequência da minha ignorância de informações sobre a geopolítica do petróleo e do gás natural, algo como escreveu Alan Larson[4], que levam os governantes a tomarem decisões, que para nós, simples mortais, parecem sem sentido. Mas não são.
Como disse o New York Times, a situação criada por Morales não é um problema do Brasil, mas boliviano: “Uma coisa é produzir petróleo a $72 o barril e ter acesso a muitos mercados, e outra coisa é produzir gás que tem somente um mercado na região, Brasil...[5]”
E eu digo e repito: o Brasil pode comprar gás de outros países, da mesma forma que sempre comprou óleo cru. Mas a Bolívia vai vender para quem? Essa intransigência toda pode ser um tiro no próprio pé. É claro que o nosso governo vai negociar até onde for possível; por diversos motivos. E essas são as cartas do Morales: primeiro, feito às contas, se ainda assim compensar continuar comprando; é óbvio, que a Petrobrás permanecerá lá. Tem, ainda, outros importantes fatores a favor de Evo Morales: a integração latina, tão sonhada por Lula; e o mais importante de todos: esse é um ano de eleição presidencial. Um aumento geral de preços provocado pelo aumento do preço do gás nas regiões sul e sudeste seria prejudicial para as pretensões de Lula.
O Brasil importa diariamente 25 milhões de metros cúbicos de gás – 50% do necessário – e só São Paulo fica com mais de 13%. Podemos importar gás da Argélia, Nigéria ou Trinidad Tobago, mas, obviamente, o preço não seria o mesmo. O “Decreto
Supremo” deu-nos um prazo de 180 dias. E esse prazo termina depois do primeiro turno, mas antes do segundo turno. O Brasil terá de esperar pelas atitudes da Bolívia, porque senão é ela quem irá aos tribunais de arbitragem contra as quebras dos contratos. A situação requer calma e pragmatismo. Já disse isso.
A Bolívia não é o primeiro país a fazer isso. O que fizemos, com o nosso petróleo, não foi muito diferente disso. O Irã e a Arábia Saudita fizeram isso há algumas décadas. O Equador impôs, em Abril, regras que aumentam a participação do Estado no lucro do
petróleo. E no Peru, Ollanta Humala, candidato presidencial, tem defendido um papel mais agressivo do governo no controle do gás e das minas. Parece que Hugo Chávez está fazendo escola.
A Venezuela é uma das maiores fornecedoras de óleo para os Estados Unidos. E, recentemente, já na era Chávez, ela forçou companhias estrangeiras de energia a aceitarem controle do Estado em importantes joint ventures. Realmente, Morales é um bom discípulo. Chávez vive atacando os Estados Unidos. Chamou, em público, na ONU, o George Bush Jr. de “El Diablo”. Negócios são negócios, inimigos a parte. Mais 70% da produção da Venezuela vai para os States.
O que conta contra a Bolívia, é que ela ganha dinheiro nacionalizando, depois ganha dinheiro privatizando. Justamente, porque as empresas nacionalizadas acabam descapitalizadas, por uma série de fatores; principalmente políticos. A Bolívia tem um triste recorde de golpes de Estado e governos corruptos. Ela tem mais, nominalmente, ex-presidentes de que anos de independência.
Vamos supor que a Bolívia se estabilize politicamente doravante, e que a Petrobrás e as outras empresas aceitem os preços e impostos determinados no “Decreto”. Segundo relatório do Banco Mundial, divulgado em abril de 2006, o PIB boliviano em 2004 foi US$ 8,8 bilhões[6], e as exportações corresponderam 30,7% deste total, isto é, aproximadamente, US$ 2,7 bilhões. Se Morales aumentar em 55% os preços do gás (algumas fontes dizem até 61%), e segundo ele, isto produziria um aumento de algo em torno de US$ 600 milhões de novos recursos. Se suas previsões estiverem corretas, isso corresponderia em um aumento anual de mais de 22% nas exportações. Isto é, sem que nenhum outro item da pauta de exportações sofra acréscimo. Com a elevação dos impostos de 50% para 82%, anunciada no “Decreto Supremo” a receita boliviana com hidrocarbonetos se elevaria de US$ 350 milhões para US$ 780 milhões por ano (isto se não houver aumento da demanda brasileira). Somado esses dois valores tem-se US$ 1,380 bilhões. O PIB cresceria 15,68% em um ano. Isso é el milagro boliviano.
 Isto está um pouco distorcido; é verdade. Porque o PIB usado foi computado até 31 de dezembro de 2004, e já se teve todo o ano de 2005. Onde a economia boliviana  cresceu um pouco mais. E além do que estamos há sete meses e meio para acabar o ano, então essa receita toda de US$ 1,380 bilhões não ocorreria no ano de 2006. Mas mesmo assim. Considerando que a economia boliviana tenha crescido 3,5% no ano de 2005 (que é uma média do últimos anos), e fazendo um rateio de US$ 1,380 em 12 meses para 7,5 meses, mesmo assim teria havido um milagro – ou melhor – poderá haver um milagro boliviano, e a economia boliviana terá crescido em 2006, mais ou menos 9,5%. Isto, repito, se nenhum outro setor da economia boliviana crescer, e sem acréscimo da demanda de gás; caso contrário, seguindo a tendência apresentada nesta década, em 2006 o crescimento passará dos 10%.
David Ricardo, economista inglês, há quase 200 anos, com a sua teoria da Vantagem Comparativa, demonstrava que o comércio entre as nações é uma soma positiva, onde todos envolvidos podem ganhar. Então, de que nos serve termos vizinhos pobres?
Vamos entender isso melhor.
 Leia o exemplo de duas cidades, A e B e responda: Onde há mais geração de riqueza? Onde há melhor distribuição de renda? Onde há mais consumo e emprego?
Seja a cidade A, com dez habitantes. Um deles ganhar um milhão por mês, e os demais ganham um salário mínimo cada um. A cidade B também tem dez habitantes, mas cada um ganh cem mil por mês. Qual das duas cidades é mais prósperas? Será que nós nos devemos nos relacionar somente com os países ricos, como advoga o ex-embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima? Nós também nos beneficiaríamos com o desenvolvimento dos bolivianos.
Se a Bolívia esticar demais a corda, ela vai cair e quebrar, e no futuro, depois de alguma dor de cabeça, estaremos comemorando a nossa autossuficiência na produção de gás. Se ela negociar, ganham os dois países.
Na Era do Conhecimento, a vantagem competitiva desalojou a vantagem comparativa, mas alguns países ainda podem se beneficiar da teoria de Ricardo. A China é um grande exemplo disso; na realidade, ela cresce muito porque tem as duas vantagens, a Bolívia só tem a vantagem comparativa. Deixa ela usar o que ela tem. Vamos torcer para que o chá dos hermanos, seja um dia igual ao chá dos ingleses.
No momento vamos ter de esperar para saber as consequências desse decreto.

Cláudio Nogueira.



[2] Artigo 4o do decreto: “82% para o Estado (18% de royalties e participações, 32% de Imposto Direto aos Hidrocarbonetos, IDH, e 32% através de uma participação adicional para a YPFB), e 18% para as companhias (o que cobre custos de operação, amortização de investimentos e lucros)”.
[3] A construção desse gasoduto começou no governo de FHC, em 1997. Teve início sua operação,parcialmente, em 1999. Sendo completamente operativo desde 2010. Ele vai da cidade de Santa Cruz de la Serra, na Bolívia, até Porto Alegre.
[4] Subsecretário para Assuntos Econômicos e Agrícolas do Departamento de Estado dos EUA, Perspectivas Econômicas, maio de 2004
[5] "It's one thing to produce petroleum at $72 a barrel and have access to many markets, and it's another thing to produce gas that has only one market in the region, Brazil, said Carlos Alberto López, a consultant for foreign oil companies”.
Acrescido ao texto original,em novembro de 2019.
 [6] US$ 40 bilhões em 2018. Um aumento de 355%. 


PS1. Dia 10 de novembro 2019, Evo Morales renunciou à presidência da Bolívia. Qual foi o seu legado após 13 anos como presidente ?
O resultado é positivo. Reduziu a pobreza e acabou com analfabetismo. Esse último atingiu um dos menores níveis da América do Sul. A Bolívia pela primeira vez na sua história teve um período de estabilidade política e econômica. O ricos de Santa Cruz de La Sierra que tiveram tantos embates com Morales, hoje estão preocupados querendo saber se o período de prosperidade e estabilidade que vem desfrutando vai continuar nesse novo governo.

PS2. Evo Morales não soube parar e deixar a presidência. Em 2016, em consulta popular, por 51,30% dos votos válidos, Morales perdeu o direito concorrer a um terceiro mandato. Mas a Suprema Corte lhe concedeu esse direito e ele concorreu e venceu novamente. 

O que está por trás do sucesso econômico da Bolívia na era Evo Morales?

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Por que a Bolívia não para de crescer enquanto vizinhos enfrentam recessão?

Bolívia lidera pelo sétimo ano consecutivo o crescimento na região