Pesquisar este blog

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O QUE PUTIN GANHOU COM ESSA GUERRA ? NADA

Há quatro anos, quando a Ucrânia se recusou a se submeter à Rússia, Moscou resolveu impor sua vontade pela força sob as mais absurdas alegações. Embora já houvesse feito algo parecido oito anos antes, anexando a Crimeia. O Kremlin acreditava que poderia se apropriar de todo o território ucraniano. Muitas pessoas também acreditaram que isso aconteceria; até o presidente Joe Biden, quando soube antecipadamente da invasão, ofereceu asilo a Volodymyr Zelensky. Eu mesmo pensei que seria algo semelhante à “Guerra dos Seis”.

Em 21 de fevereiro de 2022, três dias antes da invasão russa - a qual eu não acreditava que ocorreria - eu escrevi: A Invasão da Ucrânia, a Infiel

Depois escrevi, um dia após o início, acreditando que em uma semana essa guerra teria terminada com vitória da Rússia: A Invasão da Ucrânia II ou A Segunda Guerra dos Seis Dias

Em 5 de março daquele ano, postei: Quem quer o gás do Putin ?

Em 8 de março: Putin e o Novo Holodomor

Em 16 de março:  RÚSSIA PERDEU A GUERRA. POR QUÊ?

E, finalmente, em 27 de março, publiquei essa profecia: Putin ganha mais não leva.

Clique no título para abrir o texto.

Hoje a perguntar não quer calar é: o que Vladimir Putin realmente ganhou com essa guerra? A resposta é clara — nada que compense os custos humanos, militares, econômicos e estratégicos.

Alegações iniciais e a motivação real

No início, o Kremlin alegava que a OTAN/NATO estava avançando perigosamente para as fronteiras russas e que o governo ucraniano era “nazista”. Um “governo nazista” que, curiosamente, recebe apoio de praticamente todo o Ocidente, nem a mãe de Putin acreditava nisso. Trata-se de um governo chefiado por um judeu. Grande parte da família de Volodymyr Zelensky foi vítima do Holocausto; seu avô, Semyon Zelensky, lutou no Exército Vermelho contra a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto três dos irmãos de Semyon (tios-avôs de Zelensky) foram assassinados pelos nazistas.

O temor maior era a aproximação da Ucrânia ao Ocidente. Uma Ucrânia próspera e democrática seria um contraste incômodo para a narrativa russa, mostrando que a influência ocidental poderia superar qualquer justificativa histórica que Moscou tentasse impor.


O efeito inverso: fortalecimento da OTAN/NATO

O resultado prático da guerra foi exatamente o oposto do esperado. Países antes neutros se juntaram à OTAN/NATO, e aliados aumentaram substancialmente seus gastos militares. No início da guerra, Putin ameaçou a Suécia e a Finlândia caso entrassem na aliança. Eles entraram — e o Mar Báltico tornou-se praticamente um "lago da OTAN/NATO".

Ficou evidente que, apesar de seu poderio militar, se a Rússia não consegue vencer a Ucrânia, como poderia enfrentar a OTAN/NATO, que hoje conta com 32 países-membros? Armamentos não bastam; são necessários soldados, logística eficiente e comando sólido. A busca por reforços, inclusive na Coreia do Norte, revelou limitações graves que Moscou não havia previsto.

A hipocrisia da "ameaça de fronteira" e a Finlândia

O argumento de que a invasão era preventiva contra a expansão da OTAN/NATO perde força quando analisamos a adesão da Finlândia. Se a proximidade da OTAN/NATO fosse uma "ameaça existencial", Putin teria a obrigação estratégica de invadir o país.

Com a entrada dos finlandeses, a Rússia passou a compartilhar uma fronteira direta de mais de 1.300 km com a OTAN/NATO. A passividade de Moscou diante desse fato revela a verdade incômoda: o problema nunca foi a segurança das fronteiras, mas sim a negação da soberania ucraniana. Aceitar 1.300 km de fronteira ao norte enquanto destrói a Ucrânia ao sul prova que a guerra é de conquista de identidade, não de defesa de território.

A perda da autonomia e a dependência da China

Por décadas, a Rússia usou o gás e o petróleo como ferramentas de influência sobre a Europa. Em quatro anos, Putin destruiu sua reputação como fornecedor confiável, forçando o continente a uma transição energética acelerada. Para sobreviver economicamente, Moscou foi empurrada para os braços da China, tornando-se um parceiro menor em uma relação profundamente assimétrica:

  • Comércio unilateral: Cerca de 57% das importações russas vêm da China, enquanto a Rússia representa apenas 3% do comércio chinês.

  • Submissão energética: Sem o mercado europeu, Moscou vende gás e petróleo para a China com descontos de 30% a 40%, perdendo poder de barganha.

  • Yuanização: Mais de 95% das transações bilaterais são em rublos e yuans, atrelando o sistema financeiro russo às decisões de Pequim.

A dependência estratégica de Moscou com Pequim comprometeu a autonomia que Putin tanto proclamava.

Custos humanos e colapso demográfico

A guerra agravou o declínio populacional crônico da Rússia. Além das centenas de milhares de baixas militares, houve uma "fuga de cérebros" sem precedentes: profissionais de TI, engenheiros e acadêmicos deixaram o país para evitar a mobilização. Essa perda de capital humano compromete a inovação e a economia russa pelas próximas décadas.

Perdas militares e desmistificação do poder

Embora a Rússia controle cerca de 20% do território ucraniano, isso não significa vitória. As perdas foram severas, principalmente na Marinha, com navios estratégicos destruídos. O mito da "segunda maior força militar do mundo" foi quebrado, e o mercado de exportação de armas russas despencou ao ver seus equipamentos sendo superados em campo.

Conclusão: um saldo devedor histórico

Quatro anos depois, o balanço é desolador para o Kremlin:

Objetivo de PutinResultado real
Afastar a OTAN/NATO          Aliança expandida com +1.300 km de fronteira (Finlândia)
Submeter a Ucrânia          Ucrânia com exército mais experiente e unido da Europa
Dividir o Ocidente          União Europeia e EUA mais coordenados em defesa e energia
Soberania global          Dependência econômica e política total da China

Ganhos territoriais não equivalem à vitória estratégica. Se a meta era impedir a aproximação da Ucrânia ao Ocidente e reforçar a posição da Rússia como grande potência, o saldo é inverso.

Portanto, a pergunta se mantém: o que Putin ganhou com a Guerra da Ucrânia? Nada que justifique o preço de ter hipotecado o futuro da própria nação.

Cláudio Nogueira

P.S. Dados econômicos adicionais (2022–2026)

  • Estagnação do PIB: Após crescimento artificial de 4% em 2024, a economia entrou em estagnação em 2025/2026, com projeções de apenas 0,8% de crescimento.

  • Orçamento de guerra: Cerca de 7,1% do PIB (aprox. 40% do orçamento federal) é consumido pela defesa, drenando saúde e infraestrutura civil.

  • Crise de mão de obra: Desemprego recorde de 2,2%, não pela  oferta de trabalho, mas por falta de trabalhadores. Um déficit de 3 milhões de trabalhadores devido à mobilização e emigração.

  • Juros e inflação: Taxas extremas de 16%–21% pelo Banco Central Russo asfixiam o setor privado não militar.

Fontes econômicas

  • Fundo Monetário Internacional (FMI) – World Economic Outlook, Janeiro 2026

  • SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) – Trends in World Military Expenditure 2024/2025

  • Banco Central da Federação Russa – Relatórios de Política Monetária 2025/2026

  • Agência Internacional de Energia (IEA) – Oil Market Report 2026

  • European Union Institute for Security Studies (EUISS) – Relatório de Dependência Rússia-China