Como
faço desde 2002, depois do resultado da eleição presidencial, gosto de mostrar
um pouco do que dizem os números e de como eles se comportaram. Comento os
números tanto do primeiro quanto do segundo turno. Ao término do primeiro, faço
uma previsão de um possível vencedor no segundo, tudo baseado nos números.
Desde então, esta é a sexta eleição e um total de doze turnos.
Até que tenho acertado com uma pequena margem de erro. Houve uma eleição da Dilma Rousseff em que previ, com muita proximidade, o número de votos que ela teria no segundo turno. Mas, neste ano, não fiz nenhuma análise depois do primeiro turno.
Na realidade, eu vislumbrava uma grande possibilidade do Flávio ganhar devido a ter tido mais de 2 milhões de votos à frente do Lula e aos mais de 9 milhões de votos dados aos outros candidatos, Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Zema e outros, todos de direita. A situação parecia bem desfavorável ao Lula.
Terminada
esta eleição, faço uma pequena análise estatística dos resultados. São coisas
que os números informam, mas que nem todo mundo percebe.
Nesta
eleição, fui presidente de uma seção eleitoral aqui no Porto, Portugal. O total de
eleitores registrados era de 796. Logo percebi que o segundo turno era
diferente do primeiro, não somente pelo fato de que o número de eleitores que
compareceram aumentou, mas também porque havia uma maior participação dos eleitores de Lula. As
roupas mostravam isso.
Resumindo:
quando a eleição acabou, ficou constatado aquilo que eu desconfiava. Lula
passou de 333 votos para 404, um acréscimo de 71 votos, enquanto Flávio passou
de 75 para 97, aumentando em 22 votos. Assim, a diferença entre os dois
aumentou.
Embora
isso esteja anos-luz de distância de uma amostragem, desconfiei que poderia
ser uma pequena demonstração de que eleitores de Lula que não foram votar no
primeiro turno, depois do susto, resolveram sair de casa em proporção maior do
que os eleitores de Flávio Bolsonaro.
Quantos votos cada candidato
precisava para ganhar?
Ganha a eleição quem tem 50% do
total dos votos + 1 voto.
O total dos votos
válidos no segundo turno foi 124.082.273 votos. A metade disso é
62.041.136,5. Quem tivesse 62.041.137. Ganharia a eleição.
De quanto Lula e
Flávio precisavam para atingir essa meta e ganhar a eleição?
62.041.137 (-) menos os obtidos por Lula no primeiro turno - 53.790.340 - obrigava que ele tivesse um acréscimo de 8.250.797 votos.
E o Flávio? Subtraindo os votos do primeiro turno (56.104.291) do total de 62.041.137, vemos que ele precisaria de “apenas” mais 5.936.846 votos.
Considerando que no
primeiro turno os outros candidatos da direita tiveram 9.319.903, aparentemente, Flávio estaria eleito com facilidade.
O aumento no número de votos válidos.
O número de votos válidos no primeiro turno foi de 119.300.788. E no segundo 124.082.273. Um acréscimo de 4.781.485. Guarde esse número.
A
variação de votos do Lula nos dois turnos foi de: 64.256.232 (2º turno) -
53.876.617 (1º turno) = 10.379.615 votos.
E a
variação do Flávio foi de: 59.826.041 (2º turno) - 56.104.268 (1º turno) = 3.721.773
votos.
Lula
precisava de 8.250.797 votos e o Flávio de 5.936.846. Lula teve 2.128.818
votos a mais do que precisava e Flávio teve 2.215.073 a menos do que
necessitava para ser eleito.
Se
somarmos os acréscimos de Lula e Flávio - 10.379.615 + 3.721.773 - isso
perfaz um total de 14.101.388 novos votos para eles. Se nós subtrairmos
desse total o número de novos eleitores devido à diminuição da abstenção,
teremos (14.101.388 - 4.781.485) 9.319.903. Que é igual ao número de
votos que os outros candidatos tiveram no primeiro turno.
O acréscimo dos votos pró-Lula foi de
10.376.694, enquanto o de Flávio foi de 3.721.528. Ou seja, para cada voto a
mais que recebeu o Flávio, Lula recebeu quase três.
De onde vieram esses votos ? Vamos ver isso com mais detalhes.
Evidências de que até a direita votou no Lula.
Podemos trabalhar com três hipóteses. Sempre tendo em mente o acréscimo de Lula no segundo turno (10.379.615) e o número de novos eleitores (4.781.485).
1.Considere
que 100% dos 4.781.485 novos votos foram para Lula. O que é uma hipótese altamente
improvável. Subtraindo do acréscimo de votos de Lula no segundo turno, esses novos eleitores (10.379.615 − 4.781.485), Lula
ainda precisaria de 5.598.130 votos vindos do saldo dos votos dos candidatos de direita, no primeiro turno (9.319.903). Nesse cenário, ele teria abocanhado 60% dos votos da direita,
enquanto Flávio ficaria com 40%.
2. Ficou
claro que mais eleitores de Lula saíram de casa para votar. Vamos supor que,
dos 4.781.485 novos eleitores, 80% votaram em Lula. Oitenta por cento desse
total é 3.825.188. Seguindo o mesmo raciocínio: 10.379.615 − 3.825.188 é
igual a 6.554.427, que seria a contribuição dos outros candidatos da
direita para eleger o Lula. Nesse cenário, dos 9.319.903 disponíveis, Lula
captou 70% e Flávio, 30%.
3.
No segundo turno, os percentuais dos votos válidos do Lula e do Flávio foram 51,79% e 48,21%, respectivamente.
Vamos trabalhar com esses valores e acreditar que os novos eleitores estavam
também assim distribuídos.
51,79%
de 4.781.485 é 2.476.331 votos. 10.379.615 − 2.476.331 é igual a 7.903.284
votos, vindos da direita e dados de
presente ao Lula. Resultando em 84,80% dos votos do baú de votos da direita para o Lula
e 15,20% para o Flávio Bolsonaro.
O primeiro cenário é
o menos provável de acontecer — na verdade, é praticamente impossível — e seria
aquele em que a menor quantidade de votos da direita teria sido transferida
para Lula. Ainda assim, os 5.598.130 votos da direita dados a Lula superam os
4.430.191 votos que ele obteve a mais que Flávio no segundo turno. Portanto,
mesmo no cenário mais conservador, fica demonstrado que a direita contribuiu
decisivamente para eleger Lula. C.Q.D.
Há, ainda, uma
informação política de grande importância a destacar: Lula conseguiu penetrar
no eleitorado da direita, conquistando votos de eleitores que, em princípio,
não constituíam sua base eleitoral. Esse dado merece atenção, pois indica que
sua votação ultrapassou as fronteiras tradicionais de seu próprio campo político.
Conclusão
Os
números desta eleição nos permitem chegar a uma conclusão que vai além da
simples vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro. Eles apontam para um fenômeno
político que merece ser observado com atenção: Lula conseguiu penetrar no
eleitorado da direita. Não se trata apenas de conquistar eleitores indecisos ou
de mobilizar aqueles que não compareceram às urnas no primeiro turno. Há
indícios de que uma parcela dos eleitores que, no primeiro turno, optaram por
candidatos de direita decidiu, no segundo, votar em Lula.
É
claro que os números, por si sós, não permitem identificar com precisão a
escolha individual de cada eleitor. As hipóteses apresentadas ao longo desta
análise são cenários estatísticos, não uma comprovação matemática da origem de
cada voto. Entretanto, a expressiva diferença entre o crescimento da votação de
Lula e o de Flávio Bolsonaro, somada à redução da abstenção e ao resultado
final, levanta uma questão incontornável: o que aconteceu com uma parcela dos
eleitores que, no primeiro turno, não votou em Lula, mas também não quis dar a
vitória a Flávio?
Uma
das respostas possíveis é que parte desse eleitorado simplesmente se cansou dos
Bolsonaros. Cansou dos conflitos permanentes, da polarização sem fim e de uma
disputa política que parece não terminar nunca. Isso não significa que essas
pessoas tenham se tornado petistas ou passado a concordar com Lula em tudo.
Significa apenas que, diante das alternativas, decidiram fazer outra escolha.
Há
uma direita que já não fecha mais com os Bolsonaros. E esse pode ser um dos sinais
políticos mais importantes desta eleição. O apoio à direita não é,
necessariamente, um compromisso permanente com uma família, um sobrenome ou uma
liderança. O eleitor pode continuar sendo conservador, liberal na economia ou
contrário ao PT e, ainda assim, recusar-se a votar em um candidato
bolsonarista. A direita brasileira não é um bloco monolítico, e os Bolsonaros
não são donos dos votos de todos aqueles que se identificam com esse campo
político.
Se
essa interpretação estiver correta, Lula não venceu apenas porque conseguiu
mobilizar mais eleitores. Venceu também porque conseguiu alcançar eleitores que
muitos consideravam fora de seu alcance. Isso não significa que tenha
conquistado definitivamente esses votos, mas demonstra que a rejeição ao
bolsonarismo pode ter ultrapassado os limites de sua oposição tradicional.
Fica,
portanto, uma lição para os dois lados. Para o PT, a vitória não deve ser
interpretada como um cheque em branco nem como a conversão de todos os
eleitores que votaram em Lula. Para os Bolsonaros, o resultado deveria servir
de alerta: não basta contar com a fidelidade de uma base eleitoral; é preciso
compreender por que uma parte dela se afasta, se decepciona ou simplesmente
decide seguir outro caminho.
Há
ainda outro dado que merece ser destacado: a comparação entre os segundos
turnos das eleições de 2022 e 2026.
Em
2022, Lula recebeu 60.345.999 votos. Em 2026, sua votação subiu para 64.256.232
votos. Isso representa um acréscimo de 3.910.233 votos,
aproximadamente 6,48%.
Do
outro lado, Jair Bolsonaro recebeu 58.206.354 votos em 2022, enquanto
Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos em 2026. A diferença foi de 1.619.687
votos a mais, um crescimento de aproximadamente 2,78%. A comparação
mostra que Lula ampliou sua votação em mais do dobro do crescimento registrado
pelo candidato que representou o bolsonarismo em 2026. Em números absolutos,
Lula ganhou quase 3,91 milhões de votos em relação a 2022, enquanto Flávio
superou a votação obtida por Jair Bolsonaro em aproximadamente 1,62 milhão.
É
importante lembrar que estamos comparando candidatos diferentes em eleições
distintas. Portanto, esses números não provam que antigos eleitores de Jair
Bolsonaro tenham migrado diretamente para Lula. Mas, considerados em conjunto
com a análise dos dois turnos de 2026, reforçam a importância de investigar as
mudanças no comportamento do eleitorado brasileiro.
No
fim, os números contam uma história que vai além dos votos contabilizados.
Contam a história de eleitores que mudaram de posição, de uma direita que não
necessariamente se reconhece por inteiro no bolsonarismo e de um Lula que
conseguiu chegar a eleitores que, até pouco tempo atrás, pareciam fora de seu
alcance.
A
eleição terminou, mas a pergunta que ela deixa permanece: quantos desses
eleitores foram apenas votar contra Flávio Bolsonaro e quantos, de fato,
começaram a romper com os Bolsonaros?
A
resposta dependerá dos próximos anos. Quem vai representar o petismo ? Que será
o representante do bolsonarismo, Michelle Bolsonaro ou Tarciso Freitas ?
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