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sábado, 5 de março de 2022

Quem quer o gás do Putin ?

Que a Europa é dependente do gás e petróleo fornecido pela Rússia, isso todo mundo sabe. Que essa dependência era um dos trunfos de Putin. Isso também é do conhecimento de todos. Por esse motivo não foram bloqueados, nas sanções econômicas impostas aos russos, os caminhos que levam o dinheiro que vai do comprador ao fornecedor. Inclusive na sua mensagem, The State of Union, essa semana, ao povo americano, Joe Biden deixou claro que o boicote ao fornecimento de energia estava descartado.

O primeiro downsizing na aparente vantagem que Putin tinha nesta área ocorreu com a mega desvalorização do rublo em apenas cinco dias. O que o obrigou a aumentar a taxa básica de juros, a Selic deles, em mais de 100% (de 9,5% para 20%), para atrair capital estrangeiro.

Para assegurar o preço da moeda russa por meio do aumento da oferta da moeda americana, o Banco Central russo vendeu dólares. Desta vez a Rússia está numa situação muito mais confortável ao que estava na crise cambial de 1998, quando pediu moratória ao FMI; e fez estragos em várias economias emergentes, inclusive, e principalmente, o Brasil.  Hoje suas reservas passam de US$ 600 bilhões; dando melhores condições de defender sua moeda. Contudo, as sanções impostas congelaram uma parte significativa das reservas de ouro e de divisas depositadas fora da Rússia,

De qualquer forma, considerando o expressivo aumento da demanda pela moeda americana, receber dólares do exterior é muito importante para evitar uma maior depreciação do rublo. Assim, cortar o fornecimento de gás e petróleo para a Europa, traria uma dor de cabeça também para a Rússia. Além do que foi divulgado que a Alemanha, um dos principais compradores, tem reserva de gás, para utilizar nos aquecedores domésticos, até o próximo inverno. O atual acaba em pouco dias.

Joe Biden e os europeus não querem deixar de comprar dos russos, embora tenham o plano B para comprar de outras fontes, porque na medida que eliminariam um fornecedor do mercado, os demais restantes aumentariam o preço. Na realidade, no médio prazo, haveria uma troca de quem vende para quem. A China, muito dependente de gás e petróleo externo, poderia passar a comprar dos russos.

O que ninguém contava, nem Biden, nem Putin, era que várias empresas ocidentais parassem de comprar petróleo dos russos por livre e espontânea vontade. Coisa que nem o governo americano desejava pelos motivos expostos acima. O preço da gasolina nos postos nos Estados Unidos, mesmo antes da guerra da Ucrânia, estava batendo recordes; e os Estados Unidos sofre uma inflação como não era visto há décadas. O aumento do preço do petróleo iria trazer mais inflação.

A salvação do consumidor americano pode vir dos exportadores russos. Com a redução da demanda forçou os russos a baixarem o preço. O governo russo já sente a pressão por essa situação:

“A segunda maior empresa de petróleo da Rússia rompeu com o presidente Vladimir Putin. Lukoil, empresa russa, que tem postos [também] nos Estados Unidos, e produz mais de 2% do petróleo bruto do mundo e emprega mais de 100.000 pessoas, pediu o fim da guerra da Rússia na Ucrânia. O conselho de administração da empresa disse em comunicado aos acionistas, funcionários e clientes que estava exigindo o término mais rápido do conflito armado".

A Shell acaba de anunciar que comprou o barril do óleo ural cru por US$ 28. Ural é uma marca de óleo de referência usada como base para a precificação da mistura de óleo de exportação russa. È uma referência importante para o mercado de petróleo bruto médio na Europa.

Esse é um valor absurdamente baixo. Essa semana o barril chegou a US$ 116 e era esperado que subisse ainda mais. Esse aumento era a salvação da Rússia. Com a moeda desvalorizada, quando o exportador trocasse seus dólares por rublos, teria a sua receita/perda compensada.

O que parece é que a redução da demanda pelos importadores neutralizou a vantagem que os russos tinham devido a dependência que a Europa tem em relação como provedor de energia para o Velho Continente.

E agora Putin ? 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A Invasão da Ucrânia II ou A Segunda Guerra dos Seis Dias


 A pergunta que todos querem saber é como vai acabar essa guerra na Ucrânia. Seria o início da Terceira Guerra Mundial? Essa resposta só Deus sabe. Mas como palpiteiro profissional autônomo, o meu palpite é que, felizmente, não resultará em guerra nenhuma. Digo isso porque a reação dos  ucranianos não conseguirá deter a superioridade dos russos. Não está havendo uma guerra. O que está havendo é a Rússia tomando posse da Ucrânia, como fez com o Afeganistão em 1979. Vai parar por aí ? Vai. A Ucrânia vai passar a ser um anexo “sem armas” da Rússia. Esta vai colocar um presidente fantoche no cargo; que será como o Putin, reeleito “democraticamente” infinitas vezes. (Veja o PS3)

Os países de OTAN não vão guerrear com a Rússia. A Ucrânia não é membro da Organização; e todos eles sabem que seria uma guerra que ninguém é capaz de prever as consequências. E nem Putin vai atacar qualquer país da OTAN. O que ele queria já conseguiu.

Resta a fazer o que Joe Biden, Boris Johnson e outros estão fazendo: impor sanções econômicas a Rússia. Cortá-la do sistema financeiro internacional. Não terá como paga ou receber dinheiro das importações e exportações. Esse é o caminho: causar prejuízo econômico a Rússia. Mas não vai surtir efeito a curto prazo. Mas o caminho é por aí. Biden também congelou os recursos financeiros que alguns bilionários russos têm na América. O bolso é a parte mais sensível do corpo. Se a economia entrar em colapso -  e é o que se espera - o sonho é que Putin sofra oposição dentro da Rússia.

Uma coisa é certa. Agora ficou claríssimo o que já se desconfiava-se: Putin sonha com a volta do Império Soviético. Ele já havia dito que o fim da URSS foi "a maior catástrofe geopolítica do século 20".

Ficou claro para o Ocidente que a Guerra Fria voltou e com ela, possivelmente, uma nova corrida armamentista. Será que Biden vai defender o que Trump defendia? Que os membros europeus da OTAN gastem mais com suas defesas. É muito provável. 

Ficou transparente que a Rússia há muito tempo estava se preparando para isso. Inclusive eles mesmo alegam que não tem medo das sanções econômicas impostas porque estão preparados para elas.

Vamos ter de esperar para ver se isso é verdade. Verdade não é o forte dos russos. Semana passada, quando Biden dizia que a Ucrânia seria invadida a qualquer momento, Putin e seu chanceler diziam que não era verdade e que o presidente americano estava provocando pânico.

A grande incógnita é como vários países da Europa, dependentes do gás que vem da Rússia, vão viver sem ele. A Alemanha, por exemplo, é altamente dependente desse gás. Estão até construindo um segundo gasoduto ligando os dois países. Desta vez pelo mar Báltico. O existente atravessa a Ucrânia. Creio que os alemães estão cientes que a Rússia pode, em caso de uma guerra, parar o fornecimento. Se isso acontecer no inverno, a situação vai ficar muito complicada.

A Europa depende da Rússia para cerca de 40% de seu suprimento de gás natural e, apesar da expansão das energias renováveis nas últimas duas décadas, essa dependência está aumentando à medida que os países mudam para o gás, e abandonam o uso do carvão.

Embora Putin tenha essa carta na manga; ele só a usará como arma de guerra quando julgar extremamente necessário. As exportações da Rússia dependem muito do gás natural (maior exportador do mundo) e do óleo cru. Petróleo e gás são responsáveis por mais de 60% das exportações da Rússia e fornecem mais de 30% do produto interno bruto (PIB) do país.

Em resumo. De concreto o que se sabe mesmo é que a partir de agora a Rússia e os países da OTAN são inimigos declarados. Até que ponto as sanções econômicas vão produzir resultado esperado, só o tempo dirá.


Diferente das diferenças entre Estados Unidos & aliados e a URSS em tempos idos, é que naquela época os comunistas soviéticos e chineses não se entendiam. Hoje eles são amigos desde criança. E a animosidade entre americanos e chineses está em alta. Além do que, mesmo que a Rússia fique em uma situação econômica difícil, ela vai continuar se armando cada vez mais. Não é isso que faz Coreia do Norte ? E é claro que a China está por trás disso. Entre pão e canhão, Putin vai optar pelo último.

Meu palpite é que depois dessa invasão o mundo jamais será o mesmo. Ou até que alguém confiável para o Ocidente, assumir o lugar do Putin. Contudo, acredito que em uma semana essa guerra acabe, porque a Ucrânia já estará totalmente dominada.

 Do nosso correspondente no Porto, Cláudio Nogueira


PS1. A Guerra dos Seis Dias ocorreu de 5 a 10 de junho de 1967 entre Israel e alguns países árabes.

PS2. Putin alegava - antes de falar a verdade e dizer que a Ucrânia pertence a Rússia - que a Ucrânia não podia ser membro da OTAN porque teria armas da Organização muito perto do seu território. Mas desde 2004 os países bálticos são membros da OTAN. E um dia após o início da invasão da Ucrânia, a Estônia disse que vai enviar armas para ajudá-la. E agora José ? A Rússia vai invadir a Estônia, país membro da OTAN ?

PS3. 26.02.22."Digo isso porque a reação dos  ucranianos não conseguirá deter a superioridade dos russos. " Mas os ucranianos estão resistindo bravamente. Os russos estão tendo mais dificuldades do que esperavam.

PS4. 28.02.22. Em relação ao primeiro parágrafo deve ser dito que errei ao dizer que não haveria uma guerra. E devo acrescentar que hoje é o seu quinto dia e os ucranianos estão resistindo heroicamente; causando muitas baixas no Exército russo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A Invasão da Ucrânia, a Infiel

 Em junho de 2000, após dez anos, eu voltava a estudar no Japão. Desta vez era um curso de curta duração sobre desenvolvimento econômico oferecido em Tóquio pela JICA (Japan International Cooperation Agency). O curso foi um pouco menos de dois meses. Éramos uns vinte “alunos” de  diversos países.

Fui e voltei em voo de primeira classe. Isso logo chamou a minha atenção. Chegando lá, no primeiro dia de aula, após as apresentações, percebi que o único peão ali era eu. Todos os outros tinham cargos importantes em diversos ministérios de seus governos. Lembro-me bem de um russo, que de dia falava alegre da nova Rússia livre e a noite chorava lamurias e mal dizia Mikhail Gorbachev que “acabou” com a poderosa URSS (União da Repúblicas Socialistas Soviéticas).

O sujeito queria o melhor dos dois mundos. Queria uma Rússia na qual podia-se sair e entrar a hora que desejasse; e ninguém corria o risco de ir para cadeia só por achar o secretário geral do Partido Comunista feio, e o mesmo tempo reclamava que a Rússia não era mais uma superpotência militar respeitada e admirada.

Superpotência militar ainda era, mas não era mais temida. A URSS não existia mais.

Com os constantes manifesto da população em Berlim oriental; quando mais de um milhão de pessoas foram mais de uma vez as ruas e, em 9 de novembro de 1989, marcharam até o Muro de Berlim e decidiram derrubá-lo, os regimes comunistas nos países de Cortina de Ferro acabaram.

Antes disso, com uma Rússia falida, sem condições de acompanhar a corrida armamentista com o Ocidente (leia-se OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte), Mikhail Gorbachev, inicialmente secretário geral do Partido Comunista, depois presidente da Rússia, implantou o que foi denominado Glasnost, abertura política, e a Perestroika, reformar do sistema econômico e político para tirá-la da estagnação que se encontrava. Esses movimentos não tinham como objetivo acabar com o comunismo na União Soviética, mas torná-lo mais eficiente.

A queda do Muro de Berlim foi sentida na Rússia. A Estônia já havia se declarado estado independente dentro da União em 1988. Mas foi a Lituânia o primeiro país a se declarar fora da URSS, em 1990. Isso em outra época seria motivo para serem invadidas; mas a situação de falência do regime comunista era tão acentuada que a Rússia não teve força para reagir. No final 1991 os líderes das três repúblicas maiores e fundadoras da URSS, Rússia, Ucrânia e Bielorrússia declararam que esta não mais existia. Estava extinto o regime implantado com a revolução de 1917. Em seu lugar nascia a Comunidade de Estados Independentes. Era o fim da Guerra Fria.

Em 2004 os estados bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia, que fazem fronteira com a Rússia, e a maioria dos antigos estados do Pacto de Varsóvia tornaram-se parte da União Europeia e aderiram à OTAN.

A OTAN literalmente chegou na fronteira da Rússia. Mas ainda faltava a Ucrânia que desde a década de 90 demonstra interesse em ser membro da OTAN e ser membro da União Europeia. Deveria ter entrado quando as repúblicas bálticas entraram. Com certeza a Rússia teria protestado, mas no estado que essa se encontrava, estava sem muitas forças para resistir.

Mikhail Gorbachev foi posto para fora do cargo e, em 1991, Boris Yeltsin foi eleito presidente Rússia; reeleito ficou no cargo até 1999. Sendo o responsável pela implantação do capitalismo na Rússia.

Apesar dos esforços de Yeltsin para recuperar a economia, em 2000, o PIB da Rússia era 195,9 bilhões de dólares. Para se ter uma ideia, em 1988, quando estava em andamento a restruturação de Gorbachev, que já achava a situação crítica, o PIB russo era de 554,7 bilhões de dólares.

Embora, a situação econômica fosse desastrosa, a paz reinava com o fim da Guerra Fria. Os russos podiam, em seu território, tomar Coca Cola e comer Big Mac.

Sai Boris Yeltsin e entra em cena o tough guy, o macho man, ex-agente e tenente-coronel da KGB, Vladimir Vladimirovich Putin, para restaurar o orgulho russo. Aquele orgulho que o meu colega de curso no Japão sonhava em ser restaurado.

Putin foi, em 1999 e 2000, o primeiro-ministro do governo de Boris Yeltsin. Em seguida foi eleito presidente, ficando no cargo de 2000 a 2008. Impedido de concorrer um terceiro mandato consecutivo, ele inverteu a posição nos cargos, de 2008 a 2012, seu ex-primeiro-ministro, Dmitry Medvedev, tornou-se presidente, e Putin o primeiro-ministro.  

Em 2012 Putin foi eleito presidente novamente; numa eleição cheia de protestos e acusações de fraude. Resumindo: Putin deseja ficar no cargo a vida inteira e mais seis meses. “Daqui não saio. Daqui ninguém me tira”. Conseguiu mudar a lei. No momento ela lhe permite ficar no poder, se reeleito, até 2036.

Nos seus dois primeiros mandatos o PIB subiu muito. Chegando a 1,661 trilhão de dólares em 2008. Em 2013 o PIB era de 2,293 trilhões de dólares. Sendo o maior valor obtido até hoje. Nos últimos anos o PIB russo tem decrescido. Mas isso não impediu de russos se considerarem uma nação importante novamente, graças ao nacionalismo imposto por Putin. Há dois anos, em um pronunciamento à nação, disse que a Rússia possuía uma super arma. Algo jamais fabricado. Capaz de destruiu qualquer inimigo.

Estava tudo numa relativa paz até a Ucrânia começar a namorar a Europa Ocidental. Putin considerou isso traição. Foi ciúme mesmo. “O lugar da Ucrânia é junto com a Rússia.” Se não disse, pensou. Aí a Ucrânia, a infiel, demonstrou interesse em ser membro da OTAN. Isso foi provocação demais para os russos.

Quem não se lembra a confusão, no início dos anos 60, quando a URSS quis colocar misseis em Cuba? É claro que os Estados Unidos não poderiam permitir uma aproximação tão grande de forças soviéticas ao seu território. Agora imaginem se a Rússia colocasse armas no México, que tem ligação territorial com os Estados Unidos. É isso que a OTAN quer fazer. Se a Ucrânia se tornar membro da Organização, a Rússia vai ter na sua fronteira armas do “inimigo.”

A pergunta que não quer calar é: Por que a Rússia não permite que a Ucrânia seja parte da OTAN, mas os países bálticos são membros de Organização e fazem fronteira com a Rússia ?

Terceiro porque a Rússia vê a Ucrânia como uma parceira que tem de ser ligada a ela e não ao Ocidente. Putin acredita que laços culturais, históricos, linguísticos, fazem com que a Ucrânia e a Bielorrússia devam se unir a Rússia.  E, primeiro, porque a Ucrânia tem o quarto mais poderoso Exército do mundo, atrás do dos Estados Unidos, Rússia e França. 

Trump adotou o slogan “Make America Great Again”; ou “Tornar a América Grande Novamente.” Quando Trump vem como o milho, o Putin já está tomando café com pamonha. Tornar a Rússia um importante e respeitado player novamente sempre esteve na cabeça dele. Lembro-me que li há mais de quatro anos um analista de política internacional dizendo porque o Putin se metia na guerra da Síria. A resposta é porque o governo sírio pedia ajuda a ele; e ele gostava disso. Isso era muito importante para ele mostrar ao povo da Rússia e ao mundo,  que ela era respeitada no cenário internacional. E por isso que ele foi na Venezuela dá o seu apoio ao Maduro. É por isso que ele recebeu o Bolsonaro. Nesse caso foi uso mútuo. Ambos queriam mostrar como são importantes para seus eleitores.

Há dois dias o presidente da França propôs um tête-a-tête, um olho no olho, entre Joe Biden e Vladimir Putin. Um analista da CNN escreveu que Putin está criando essa situação toda para “restaurar o prestígio” que os russos tinham na Guerra Fria. E acrescenta que embora a Rússia tem ainda um respeitável arsenal atômico, sua força hoje é muito mais reduzida. O que ele deseja é sentar-se com Biden e discutir, como nos velhos tempos, o destino do mundo. Só que agora não existe mais a URSS, que era poderosa, temida e constituída por muitos países.

Putin tem culpa no cartório. Ao anexar a Criméia em 2014 ele estava fazendo um balão de ensaio. Queria ver como seria a reação caso invadisse a Ucrânia. Mas dessa vez a reação foi bem diferente.

“Os russos estão exigindo uma garantia de que a Ucrânia nunca será autorizada a ingressar na Otan e querem que a aliança retire armas e tropas de Estados membros que já estiveram atrás da Cortina de Ferro, como Polônia, Hungria e Romênia. Essa condição é inegociável para o Ocidente, que diz que cabe às nações decidirem seus destinos.” (CNN americana online)

Há quem diga que ele tinha razão em tomar a Criméia porque ela um dia pertenceu a Rússia. Se todo mundo pensar assim, vai ser guerra para todos os lados. Nos últimos dos séculos, sem irmos muito longe, os territórios de vários países, principalmente na Europa, mudaram de tamanho, uns cresceram, outros diminuíram devido uns Estados se apossarem de terras de outros. Como ficaria Portugal e Espanha ? Áustria e Alemanha ? As terras tomadas por Israel na Guerra dos Seis Dias ?

Eu acredito que a invasão da Ucrânia pela Rússia e, consequentemente, o início da guerra, transmitida pela TV, com uma audiência maior que a entrega do Oscar, não vai acontecer. Putin já viu as consequências desse ato. Embora não se consiga imaginar a catástrofe que seria, analistas têm uma certa ideia do que aconteceria com a economia da Rússia se entrarem em vigor as punições que os países da OTAN imporiam a ela.

Quando a Rússia invadiu o Afeganistão em 1979. Os Estados Unidos protestaram, reclamaram, mas de concreto mesmo foi apenas o boicote americano as Olimpíadas de Moscou de 1980.

Agora os tempos são outros. Putin colocou 150.000 soldados cercando a Ucrânia, mas devido a reação que teve a esse ato, não creio que vá invadir. Ele diz que são exercícios regulares da Forças Armadas e que já retirou milhares de soldados e armas. Mas até agora ninguém acreditou nisso.

Talvez ele precise desse encontro com o presidente americano; para ficar bem na foto com o povo dele.

No momento muito há propaganda dos dois lados. Vamos esperar para vermos esse desfecho.

 

Cláudio Nogueira

 

PS1. A Rússia acaba de reconhecer as regiões que desejam se separar da Ucrânia, causando indignação geral. E diz que vai entrar nessas regiões com uma força de paz. Acredite se quiser !

PS2. O que foi dito aqui se confirmou. Putin disse na TV: "Enfatizo mais uma vez que a Ucrânia para nós não é apenas um país vizinho. É parte integrante da nossa própria história, cultura, espaço espiritual. São nossos camaradas, parentes, entre os quais não somos apenas colegas, amigos, ex-colegas, mas também parentes, pessoas ligadas a nós por laços de sangue, parentes." Putin disse que a Ucrânia não tem direito de existir como nação independente. Ela pertence a Rússia, segundo o pensamento dele. Disse que a Ucrânia era uma invenção de Stalin.

PS3. Nas primeiras horas do dia 24 de fevereiro a Rússia invadia a Ucrânia.

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

A Dama da Carolina

Eu sempre achei que deveríamos escrever alguma coisa sobre a vovó Eliza. Nós quem? Nós, filhos de Brígido e Glória Nogueira. Acho que o momento, ainda que tardio, chegou. Seus filhos, recentemente, preparam um livro-homenagem intitulado “A Dama da Carolina, Afetos e Sabores.”

Começo assim para dizer que o título deste post já tem dono. Copy@right dos Bessa Freire.

A vovó morou por muitos anos, depois de ter habitado em outros endereços, na rua Carolina das Neves. Por isso ela é chamada a Dama da Carolina. Na realidade, hoje ela seria dona de si mesma, depois da sua partida, a rua passou-se a chamar Eliza Bessa Freire.

Há duas imagens da vovó Elisa que ficaram na minha cabeça. A primeira é de quando éramos criança. Ao avistá-la no início do beco onde morávamos, beco da Indústria, na Aparecida, eu já chorava antecipadamente. Isso quando percebia que estava vindo com a sua “latinha” de enfermeira. Dentro tinha seringas de vidro, que ela  trazia, a pedido do papai, para dar-nos umas injeções; para erradicar a gripe na família. Naquela época as seringas eram de vidro e as agulhas não eram descartáveis. Eram reutilizáveis; para isso tinham que ser fervidas. E fervidas num fogo feito pela queima de álcool, em um estojo de metal. O cheiro que exalava eu tenho na mente até hoje.

Quando eu a via de longe, dizia, embora bastante gripado: papai, eu já estou bom. Nunca funcionou. Na realidade nem doía; era apenas um medo desnecessário que logo passava. Talvez por isso essa lembrança, embora forte, não seja uma lembrança triste, mas apenas de algo que marcou.

A imagem que recordo com mais frequência é ela andando na rua Xavier de Mendonça, da qual a Carolina da Neves é afluente, a caminho da missa diária das 18 horas, na paróquia que ajudou a fundar em 1943. Não existe escola sem aluno e nem igreja sem fiel. Por esse motivo a Congregação do Santíssimo Redentor, em reconhecimento aos seus preclaros serviços prestados a comunidade, concedeu-lhe o título de Oblata Redentorista, pessoa, que mesmo sendo leiga, é membro, digamos, honorário da Congregação.

Lá vai ela, corpo pequeno, não mais que um metro e cinquenta, com cabelos branquinhos, sempre bem arrumados, olhos menores ainda, bem azulzinhos, e muito cheirosinha.

Vocês conhecem aquela música: “Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim” ? Assim era a vovó. Quem a via indo toda arrumadinha para a sua missa diária, não tinha a menor noção do que ela havia passado. Ela pertencia a um seleto grupo de pessoas que trabalham... e como trabalham; como se fossem ateias: nada cai do céu. Lutam... e como lutam; contra a pobreza e as dificuldades de quem se encontra nessa situação. E rezam... e como rezam; como se tudo dependesse de Deus. Teve sua recompensa. Porque Deus é fiel.

Até chegar esse dia, do andar tranquilo, corpo perfumado, perseverança na fé, foram muitos anos com dias difíceis, de muita labuta e resiliência. Perdeu um filho ainda bem criança e ficou viúva com onze filhos; com 48 anos de idade. A filha mais velha tinha vinte quatro e a caçula três anos. Criou muito bem criado todos eles. Alguns são professores universitários, outros exercem atividades diversas. Eu, que tenho apenas quatro, como uma situação financeira muito melhor, me pergunto como isso é possível. Não estou falando simplesmente de alimentá-los; o que por si já uma coisa bastante difícil, mas de dar um direcionamento a todos eles. Por mais que os mais velhos já estivessem de alguma forma ajudando materialmente, o direcionamento, manter a família unida a valores morais e religiosos, era responsabilidade dela. Quarenta e oito anos e onze filhos? Conheço muita gente com 1,8m, com apenas dois ou três filhos, que não conseguiu.

A minha avó Elisa era prima da minha mãe. Isso mesmo. A mãe dela era irmã do pai da minha mãe. Quando este morreu, deixou três filhas crianças, que já não tinham mãe há seis anos: minha mãe, com 11 anos, uma irmã com 13 e a caçula com 6 anos, de cujo parto morreu a sua mãe, minha avó biológica. Foram morar com a avó materna. Minha mãe com 12 anos a caminho dos 13, em 1943, foi acolhida na casa de sua prima, Elisa Bessa Freire, nossa avó, de onde saiu seis anos depois para se casar.

Quando as minhas filhas fizeram 12 anos, eu sempre pensava na minha mãe órfã nesta idade, e sempre vinha na minha cabeça uma imensa gratidão a vovó Eliza por ter dado-lhe um lar. Sem essa impagável ajuda, todo o futuro da minha mãe poderia ter sido diferente. E o nosso também. A mamãe sempre dizia: “ A Eliza não só me deu um teto. Mas me deu uma família; irmãos e irmãs.”

Muito ainda pode ser dito sobre a vovó: o carinho que recebemos e a comidinha gostosa que fazia. Sobre isso o leitor tem de ler o livro cheio de “afetos e sabores” que traz algumas receitas.

A vovó recebeu duas bonitas homenagens públicas: além de doar o seu nome a rua onde viveu por muitos anos com a sua família; hoje, também, existe uma escola pública estadual a ela dedicada.

Pois saiba, nossa querida avó, que enquanto vivermos, seremos eternamente gratos. Nesse dia da Festa da Imaculada Conceição, rogamos a Deus que Ele já a tenha recompensado, levando-a para perto Dele, pelo seu amor e pela sua generosidade.

Vovó Elisa, a Dama da Carolina, nos lhe amamos.

 

 

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A Palhaçada do Voto Impresso

Com o voto impresso ou com a urna eletrônica o Bolsonaro vai perder de qualquer jeito. E ele tem plena certeza disso. Também sabe que para aumentar as chances de vitória precisa muitíssimo das fakenews; enormemente de outra facada e de outro Moro. Dessa vez nem ajuda do general Vilas Boas pressionando o STF vai funcionar; porque ele não conseguirá impedir o Lula de ser candidato. Na realidade, como já escrevi, o general deu uma ajuda muito grande a candidatura do Lula. Foi tirar sarro da cara do ministro Fachin; este libertou o Lula do julgamento viciado em Curitiba. Quanto a facada, eu o aconselharia a algo mais radical: eu, no lugar do Bolsonaro, desta vez morreria. Aí o impacto seria enorme; e ele ganharia a eleição.

Ele por várias vezes disse em público que deve a sua vitória ao Carlos Bolsonaro. Exatamente por ele ter sido muito eficiente como coordenador da difusão de fakenews: o Haddad defendia o incesto; o kit gay seria distribuído em todos escolas, etc. etc. A necessidade desesperadora das fakenews faz com que ele ataque o ministro Alexandre de Morais.
Vamos fazer uns cálculos básicos sobre a última eleição.
Bolsonaro teve 57.797.847 e Haddad 47.040.906. Estes são os votos válidos. Total foi 104.838.753. A metade disso é 52.419.376. Isso, menos os votos que o Haddad teve, é 5.378.470. Ele valor, mais 1 voto, é tudo que o Lula precisa acrescentar aos votos do Haddad para ganhar do Bolsonaro. Isso é 9,3% do total dos votos do Bolsonaro.
Isso é moleza. Em quem o eleitor se arrependeu de ter votado, no Haddad ou no Bolsonaro ?
Agora é o Lula companheiro. Bem diferente de Haddad. O número de votos que Bolsonaro já perdeu já passou muito de 9%. Por isso é que ele inventou essa briga pelo voto impresso.
Qual o objetivo do Bolsonaro nisso? Antes de eu falar do objetivo principal, vamos ao secundário. Quando tudo isso começou, era para que a imprensa só falasse desse assunto e esquecesse as declarações e testemunhos comprometedores de corrupção no governo na CPI da Pandemia.
Bolsonaro sabia que o voto impresso não iria passar; e para justificar a sua derrota, na próxima, eleição, precisa dizer que previu antecipadamente que foi roubado na urna eletrônica. Tenta com isso, como Trump, desmoralizar a eleição e arranjar uma justificativa, também, para a história, que agrade o seu ego derrotado: que não perdeu; foi roubado.
A briga com o ministro Luís Roberto Barroso não tem nada de inocente; e tudo planejado. Ele, como sempre, precisa de um inimigo e de alguém que o persiga. Nesse momento em que o seu apoio vai ladeira abaixo e o seu índice de rejeição é enorme, ele precisa unir os seus apoiadores em torno de uma causa e para isso ele escolheu o ministro Barroso e o voto impresso, que o gado repete como um mantra; como se isso fosse a certeza da vitória na próxima eleição. O voto impresso foi recusado pela Câmara dos Deputados; mas, observem, ele não ataca os deputados, – que foi quem enterraram em definitivo o voto impresso – nem toca no assunto, mas somente ataca o ministro.
E se o voto impresso tivesse sido aprovado e ele perdesse ? Ele sabe que vai perder, mas tentaria a tática mal sucedida de Trump: iria perdi recontagem. Diferente da urna eletrônica, a contagem manual tem muita chance, quando feita mais de uma vez, de dar resultados diferentes. Por erro humano não intencional; ou porque alguém escondeu um voto; ou colocou um voto novo para dizer que a “urna foi emprenhada” e pedir anulação de toda a urna.
Nos Estados Unidos aconteceu que nos locais onde ocorreram a recontagem a pedido de Trump, a diferença pró-Biden aumentou. Trump achava que iria chegar até dia 20 de janeiro, dia da posse do novo presidente, e esse imbróglio não teria sido resolvido. Inclusive, ele pediu várias vezes que a contagem fosse parada. O Bolsonaro sonha com isso. Eu também sonho com muitas coisas.
Resumindo, não deu certo. Não deu certo lá. Não vai dar certo aqui. Bolsonaro pode reclamar a vontade, mas será inócuo. E já corre o risco de perder no primeiro turno. E diferente dos Estados Unidos, tão logo seja divulgado que ele perdeu, as ruas do Brasil ficaram cheias, não de seus apoiadores, mas de milhões dos eleitores do vencedor. Ele só terá tempo de meter os rabos entre as pernas e sair pelas portas do fundo como fez o general Figueiredo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Afinal, Nossa Senhora Morreu ou Não Morreu?

       “Porque olhou para a sua pobre serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é santo.”

Desde que nasci, frequentei, por quatro décadas, quando era solteiro em Manaus, a igreja – hoje Santuário – de Nossa Senhora Aparecida. Ouvi e aprendi que Maria subiu de corpo e alma para o Céu; ou seja, Maria nunca morreu. Segundo a doutrina católica, isso é chamado de Assunção de Maria, proclamada como dogma de fé em 1950. Será que os padres realmente disseram isso, ou fui eu quem chegou a essa conclusão?

Há cerca de quinze anos, na festa que hoje se comemora, 15 de agosto, Assunção de Nossa Senhora ao Céu, o padre redentorista Luís Kirchner disse algo que já sabíamos. Reafirmando o dogma de fé proclamado pela Igreja e definido pelo Papa Pio XII, em 1950, por meio da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus: “A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial.”

 Deve-se lembrar que foi uma decisão quase colegiada. O Sumo Pontífice havia consultado o episcopado, por meio da carta encíclica Deiparae Virginis Mariae, sobre a necessidade de definir esse dogma: “Assunta em corpo e alma à glória celestial.” Ou seja, houve um processo consultivo amplo antes da definição oficial.

É ponto pacífico que ela subiu com ajuda divina. Não foi uma ascensão como a de Cristo, mas uma assunção. A verdade é que todo acréscimo a esse texto é fruto da imaginação de cada um.

Estava tudo tão certo na minha cabeça, até que, em uma novena em honra de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que ocorre todas as terças-feiras em Aparecida, com mais de dois mil fiéis na igreja, o padre, na homilia, falou sobre a morte de Nossa Senhora.

Fiquei em estado de choque e irritado com ele. Já tinha quase 50 anos e nunca tinha ouvido falar sobre isso. Pensei: o que é que ele está dizendo? Ele está ensinando errado. E o dogma de que Maria subiu ao Céu com corpo e alma? Se ela morreu e subiu de corpo e alma, então ela morreu e ressuscitou? Morte significa a separação do corpo e da alma. Se Maria morreu, a alma se separou do corpo, depois voltou ao corpo ? Isso não faz o menor sentido.

O padre de Aparecida completou que as Igrejas orientais chamam isso de “Dormição de Nossa Senhora”.




Dormição de Nossa Senhora — o que é isso? Trata-se de um eufemismo (“acepção mais agradável, utilizada para suavizar ou minimizar o peso negativo de outra palavra”) para dizer que Maria morreu. Na realidade, dormiu, acordou e subiu ao Céu de corpo e alma. É exatamente isso que as Igrejas orientais celebram.

Mas elas não estão sozinhas. São João Paulo II também acreditava nisso. Ele disse, numa catequese das quartas-feiras, em 25 de junho de 1997, em A Dormida da Mãe de Deus: “Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, sob o aspecto físico, causou a cessação da vida do corpo, pode-se dizer que a passagem desta vida à outra constituiu, para Maria, uma maturação da graça na glória, de tal forma que, jamais como nesse caso, a morte pôde ser concebida como uma 'dormida'.”

Talvez eu tenha de ler o discurso todo para verificar se o Santo Padre apresenta algum argumento sobre a necessidade de Nossa Senhora morrer. Enquanto isso não acontece, deixa-me lembrar que o Papa Bento XVI, durante o seu pontificado, também escreveu livros. Ele deixou claro que, quando o Papa quer doutrinar, direcionar e catequizar toda a Igreja, ele não escreve um livro, mas publica uma encíclica. Escrever um livro, segundo ele, serve para justificar e deixar claro que o conteúdo é a opinião pessoal do autor. É óbvio que tudo o que o Papa diz ou escreve, seja em encíclica ou em livro, tem grande peso para a Igreja inteira.

Resolvi pesquisar sobre o assunto, mas não fui muito longe. Decepcionado parei porque fiquei triste com o que li.                                                                                                                                             Mais ou menos há um ano e meio, no grupo de WhatsApp com amigos que há mais de 40 anos participaram de um grupo de jovens em Aparecida, esse assunto voltou a ser comentado. Então, esperei a chegada da Festa da Assunção de Maria para escrever algo no meu blog sobre isso. Isso faz um ano. Rascunhei algumas ideias, mas novamente abandonei o assunto. Notei que há muito mais pessoas que acreditam na morte de Maria do que as que não acreditam.

Na discussão virtual, eu defendia que Maria nunca morreu. Em defesa da morte de Nossa Senhora, uma amiga disse o seguinte: “Se Jesus morreu, Maria também tinha de morrer. Ela não era mais importante do que Ele.” Em algum lugar já tinha ouvido esse argumento. Mas, se ele é válido, Elias e Henoc (ou Enoque) seriam mais importantes do que Cristo, porque os dois profetas nunca morreram.

No segundo livro dos Reis, capítulo 2, versículo 1, encontramos: “Eis o que se passou no dia em que o Senhor arrebatou Elias ao céu num turbilhão…” No início desse capítulo, é narrada a conversa entre Elias e Eliseu. Em seguida:

  1. “Tendo passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me algo antes que eu seja arrebatado de ti: que posso eu fazer por ti?” Elias não foi pego de surpresa; ele sabia o que iria acontecer. Eliseu respondeu: “Seja-me concedida uma porção dobrada do teu espírito.”
  2. “Pedes uma coisa difícil – replicou Elias –. Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso te será dado; mas se não me vires, não te será dado.”
  3. “Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão.”

Desde então, não se tem mais notícia de Elias, embora tenha sido procurado. Ele reaparece na Bíblia junto com Moisés, na transfiguração do Monte Tabor.

E o que aconteceu com Enoque ?

Na segunda carta aos Hebreus, capítulo 11, versículo 5, São Paulo escreveu: “Pela fé, Enoque foi arrebatado, sem ter conhecido a morte; e não foi achado, porquanto Deus o arrebatou; mas a Escritura diz que, antes de ser arrebatado, ele tinha agradado a Deus (Gn 5,24).” Isso demonstra que, mesmo na tradição bíblica, há exceções humanas à morte física, concedidas por Deus.

Assim sendo, o argumento de que Maria tinha de morrer porque Jesus morreu e ela não era maior que Ele, não se sustenta.

Como Maria, não há igual. Jesus disse sobre João Batista (Lc 7,28): “Pois vos digo: entre os nascidos de mulher não há maior que João.” E a Igreja decretou que João Batista nasceu sem o pecado original? Não. Mas Maria, sim. Ela está em uma categoria única: é a mãe de Deus, o único sacrário vivo. Ela é a Arca da Nova Aliança, símbolo da presença viva de Deus na humanidade. A rainha vestida esplendidamente de ouro de Ofir, que reina no Céu vestida de Sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas (Ap 12,1). Ela é bendita entre todas as mulheres, e todas as gerações a chamarão de bem-aventurada. As leis divinas que se aplicam aos outros seres humanos não se aplicam a ela.

Na carta aos Romanos, capítulo 6, versículo 23, São Paulo diz: “Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” A morte mencionada é a morte eterna, oposta à vida eterna, mas também pode ser aplicada à morte física. Maria, concebida sem pecado e vivendo toda a sua existência em santidade, não precisaria passar pela morte física nem pelo pecado, recebendo de Deus uma Assunção direta.

Muitos de nós já ouvimos falar de santos cujos corpos permanecem incorruptos: intactos, conservados sem qualquer produto para mantê-los assim. Isso só é possível porque Deus assim o quis. Pelo grau de santidade desses santos, poderíamos dizer que o corpo não sofreu a corrupção da morte; apenas a alma se separou deles. É um prêmio e um sinal de Deus pelo amor recebido. E ninguém amou mais a Deus do que Maria.

Imagine a situação de Nossa Senhora, a puríssima Mãe de Deus, porque ela haveria de morrer? Ou passar pela dormição?

Isso não faz sentido. Trata-se de uma crença, e não de uma certeza. Acreditar nisso é esquecer quem é Maria na história da salvação. O que se aplica aos outros seres humanos não se aplica a ela.

Deus disse: “…Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2,17). Aqui, trata-se da morte física também. Por isso, todos morremos. A morte é precedida pelo pecado, o que diz respeito a todos os seres humanos, exceto a Maria, porque ela não comeu desse fruto.

São Paulo acrescenta: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5,12). Morremos porque pecamos — exceto a Virgem Santíssima. Portanto, isso não se aplica a ela; ela não passaria pela morte.

São Paulo também diz que, com a segunda vinda de Cristo, alguns não passarão pela morte física: “Eis que vos revelo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Coríntios 15,51-52).

Se na segunda vinda de Cristo nem todos morrerão, por que, na sua primeira vinda, Maria, obrigatoriamente, teria de morrer?

Até que se prove o contrário, este herege acredita que Maria Santíssima, como afirma o dogma da Igreja Católica, subiu aos Céus de corpo e alma, sem nunca ter morrido.

Como já vimos, a morte e o pecado andam juntos: a morte é consequência do pecado. Se Maria nunca pecou, logo Maria nunca morreu.

O dogma da Imaculada Conceição de Maria foi confirmado pela própria Virgem. Quando Nossa Senhora apareceu à jovem Bernadette Soubirous, em uma gruta em Lourdes, França, e esta perguntou: “Quem é a senhora?”, Maria respondeu: “Eu sou a Imaculada Conceição.” Por que Maria teria de passar pela morte ?

As Escrituras Sagradas nos trazem muitas informações. A elas se somam as revelações de Jesus e Maria, feitas presencialmente a videntes e santos. São famosas as aparições em Fátima, os escritos de Santa Faustina e de Santa Brígida, para citar apenas alguns exemplos. As santas registraram seus diálogos com Cristo e com Nossa Senhora. Mas nenhum vidente, santo ou santa divulgou que ouviu de Maria que ela tenha morrido.

A vidente Vicka Ivankovic, de Medjugorje, há anos divulga que está escrevendo um livro sobre a vida de Nossa Senhora, com textos ditados pela própria Virgem Maria. Possivelmente, quando o livro for publicado, saberemos se Maria morreu ou não — e, se morreu, qual seria a necessidade para a nossa salvação ou qual o desígnio de Deus nesse acontecimento.

Eu ainda não entendi a necessidade de Maria ter morrido. Quando me lembro dos profetas que não morreram; da profecia de que uma espada atravessaria seu coração; quando lembro, sendo pai, da fuga para o Egito, porque queriam matar seu bebê; quando me lembro, como pai, do desespero de ter perdido seu filho por alguns dias; quando penso que, possivelmente, por onde ela andava, não presenciava violência nem brigas entre pessoas; mas presenciou violência pela primeira vez justamente ao ver seu Filho amado sendo flagelado; quando penso em todo o percurso até o Calvário, no intenso sofrimento registrado no Véu de Verônica; quando penso, como pai, no quanto Maria sofreu ao presenciar, por três intermináveis horas, o infinito sofrimento de Cristo na cruz e depois a dor de tê-lo morto nos braços; quando penso que ninguém jamais amou e sofreu tanto por Cristo… Até que se prove o contrário, recuso-me a acreditar que Maria, a mãe de Deus, precisava morrer. Para mim, isso não faz sentido. Espero não ser excomungado por causa disso.

Não sou o único a questionar a morte de Maria. Ao longo da história da Igreja, diversos santos e doutores da fé também refletiram sobre esse mistério e acreditavam que a Virgem Santíssima não teria passado pela morte. Entre eles, Santo Irineu de Lyon, São João Damasceno, São Germano de Constantinopla e Santo Afonso Maria de Ligório sugeriram, em seus escritos, que a Assunção de Maria poderia ter ocorrido sem a separação de sua alma do corpo. Santo Afonso, inclusive, respeitava a opinião daqueles que pensavam de forma diferente sobre o assunto. Esses exemplos mostram que a crença de que Maria não morreu não é uma invenção pessoal ou moderna, mas tem raízes profundas na tradição cristã, compartilhada por mentes santas e respeitadas ao longo dos séculos.

Essa mente pecadora também acredita nisso.

 

Porto, 15 de agosto de 2021, Festa da Assunção de Maria.

 

PS: Só consigo imaginar a morte de Maria por alguns dias, para que isso provocasse uma ressurreição triunfante, com Cristo e uma legião de anjos vindo buscá-la pessoalmente. Creio que, se isso tivesse acontecido, os evangelistas teriam mencionado.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

De que a Minha Mãe Morreu ?

Nos últimos dias tenho respondido essa pergunta com muita frequência. “O que foi que aconteceu ? Ela estava bem,” disseram alguns.

O que estava muito bem era a cabeça dela. Ainda estava muito lúcida.
A mamãe morreu dia 24 de julho e dia 28 faria 90 anos e 7 meses. Ela morreu repetindo: “Quando eu ficar velha…” Ficar velha para ela, era ter pouca memória e corpo bastante limitado. Tinha um computador na cabeça. Sabia de datas e números como ninguém. Se um dia lhe disseram um número de telefone, data de nascimento, casamento ou mortes ou determinado acontecimento, ela jamais esqueceria. Era a ela quem recorriarmos para obter informações sobre esses assuntos. "O fulano morreu, no ano tal, dia tal; eu estava de resguardo de fulana." E por falar em resguardo, ela esteve grávida por 144 meses, ou seja, em um período de 20 anos, ela esteve grávida por 12 anos.
Ela ainda dava ordens, administrava sua casa e tinha interação diária pessoalmente ou pelo whatsapp (ferramenta que dominava muito bem) com todos os membros de sua imensa família e com muitos amigos.
Passou sempre com excelentes notas nos exames de sangue, colasterol, triglicerídeos e etc. Deixando os médicos surpresos. E o Pulmão e o coração ? Esses sempre excelentes.
Mas há uns três anos ela disse ao filho que ela amava: “O médico me disse que eu tenho um coração excelente, mas a idade pesa e ele vai ficando fraco. As emoções vão acumulando e ele vai enfraquecendo.”
No dia da partida dela, a nossa vizinha, Severina, mais conhecida como Nega Pesado, que tem 91 anos, me disse: “ A Glória deveria fazer como eu: tomar um copo de vinho todos os dias.” Há aqui um pequeno detalhe. A familia da Dona Nega é ela e filho. A Dona Glória tinha uma família (filhos, netos, bisnetos, genros e noras, dela e dos filhos) que passava de 100 pessoas. Ela era preocupada com os problemas de cada um. Nesse caso, um copo de vinho não era suficiente; seria necessário, no mínimo, uma garrafa inteira.
Dia 26 de julho, dois dias depois de sua partida, Dia dos Avós, Dia da Festa de São Joaquim e Santa Ana, ela comemoraria 70 anos do seu casamento. Casou-se no dia da festa dos santos da devoção dos noivos. E nós, seus 18 filhos, que moramos em Portugal (2), Estados Unidos, Curitiba (2), Sorocaba (SP) e Manaus estaríamos todos presentes. Mas Deus tinha outros planos: “Vocês estarão presentes na despedida dela. Todos os 18 e mais os netos e bisnetos, genros e noras; todos ao redor dela."
Amanheceu o dia 24 gravando vídeos para os filhos, cantando, recitando, mandando mensagens. Quando sentiu que a sua hora tinha chegado, falou para os que estavam por perto: " Chamem meus filhos que eu estou partindo. E estou em paz." Começou a rezar o terço, depois deitou-se, continuou rezando, mas sem som, somente mexendo a boca, e assim entrou na glória de Deus. Partiu como quem apenas dorme.
Mas tem outro detalhe nessa estória. Quando ela disse que iria partir chamamos paramédicos que ligaram nela um frequencímetro, aparelho que mede a frequência cardíaca, e no momento que ele registrou que o coração parou, uma filha, Eliza, não estava presente, a única ausente.
Ela chegou no quarto gritando: "Mamãe, eu estou aqui !" O frequencímetro voltou a registrar batimentos cardíacos. Pronto ! Ela já podia partir em paz.
Alguém pode dizer: “Poxa ! Não dava para esperar só mais uns dias ?” Não. Era assim que Deus queria que fosse.
A mamãe não morreu porque a sua válvula mitral já não funcionava normalmente e, por isso, sabíamos que a sua partida iria acontecer a qualquer momento; apesar da mente ainda funcionar maravilhosamente bem. A mamãe não morreu na véspera, nem um segundo antes e nem um segundo depois do que Deus decidiu.
A resposta a pergunta que muitos fazem é simples: A mamãe morreu de amor. Morreu por amar muito; os seus e os desconhecidos, a quem ajudou muito com atos concretos de caridade. Os pedidos de orações chegavam toda hora e eram muitos. Ficávamos pensando como tirá-la do whatsapp. “ Meu filho” – ligou-me – “morreram de Covid o [João Batista] Gama e a Amazonilda [esposa dele], estou pensando na dor das filhas deles.” “ A Auxilium perdeu o neto. Estou rezando pela dor deles.” E assim era.
Se amava muito, partiu convencida – e repetia sempre – que era muito amada. O amor que recebia dos parentes e amigos contribuiu para ela que vivesse muito, repetia com frequência. Era uma motivação para continuar vivendo. E esse amor recebido fortalecia o coração dela.
Uma vez o padre Noé, redentorista da Aparecida, me contou a seguinte estória: “ Um casal de velhinhos morreu e foi para o Paraíso. Chegando lá, vendo aquela maravilha toda, o velhinho falou meio irritado com a esposa: ´Se não fosse a sua mania de comida natureba, nós já estaríamos aqui há dez anos.” Nós queríamos que a mamãe chegasse aos 100 anos, mas ela foi com dez anos de antecedência. Ela merecia isso.
Dia 26, ela, junto com o noivo, depois de 35 anos juntos e 35 anos separados, comemoraram os 70 anos de união. E nós, seus 18 filhos, também não poderíamos deixar passar essa data sem nenhuma comemoração: almoçamos juntos na casa dela, pela primeira vez sem sua presença a física, mas felizes, rindo, chorando e como sempre, todos falando ao mesmo tempo. Depois, fomos para a frente da casa para a foto oficial. A vizinhança, especialmente a Dona Nega, que tudo observava e não entendia nada, se perguntava: “ O que é essa alegria toda ? A mamãe deles não morreu há dois dias?"
Mamãe e o filho que ela amava
A noite, dando continuidade a programação, nós filhos, netos , bisnetos e agregados fizemos a festa dos 70 anos de casamento dos nossos pais.
Isso só foi possível pelo que aprendemos com eles. Sabemos que o dia mais feliz nas vidas deles, foi o dia da partida de cada um. Eu gosto de dizer que a morte, para algumas pessoas, só é ruim para os que ficam.
Fizemos a festa, cantando, comendo, bebendo, chorando, felizes e tristes, mas com muita fé. Fé que aprendemos com eles. É a alegria do agradecimento. É uma dívida impagável para com Deus. Pela sua bondade e generosidade para conosco, que não somos merecedores de ter tido os pais que tivemos.
Deus é muito bom. Morrer é muito bom! A mamãe merecia morrer.
Muito obrigado Deus Todo Poderoso !